Falsa informação foi avançada em um grupo na internet.
Falsa informação foi avançada em um grupo na internet.(Gerardo Santos / Global Imagens)

Violações em grupo em Évora? PJ, GNR e PSP garantem não ter registo dos crimes

O líder do grupo nacionalista Reconquista, foi um dos que partilhou a mensagem de alegadass violações cometidas por cidadãos indianos em Évora. Fonte da PSP da cidade assinala que caso um facto deste acontecesse, “certamente as pessoas saberiam”, por ser um município pequeno.
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Circula nas redes sociais um boato de que a cidade de Évora já teve “duas violações em grupo confirmadas” e “ambas cometidas por indianos”.

O DN contactou tanto a Polícia Judiciária (PJ), a Guarda Nacional Republicana (GNR) e a Polícia de Segurança Pública (PSP), que não possuem nenhum registo dos supostos crimes. 

Ainda de acordo com fonte da PSP de Évora, caso uma facto deste acontecesse na cidade, “certamente as pessoas saberiam”, por ser um município de 55 mil habitantes. A mesma força de segurança refere que possuem conhecimento do boato partilhado nas redes sociais. 

O suposto caso foi avançado inicialmente no Reddit por um perfil anónimo em um grupo nacionalista. Na publicação ainda lê-se “Vocês não vão ver na comunicação social, apenas venho denunciar…”.

O perfil não mencionou nenhum outro pormenor, como localidade, dia, hora ou sítio. Poucas horas depois, uma print screen da publicação já circulava em outras redes sociais e grupos de mensagens, alcançando milhares de visualizações, comentários e reposts.

O líder do grupo nacionalista Reconquista, foi um dos que partilhou a mensagem como se fosse verdadeira e com críticas à comunicaçao social. “Os meios de comunicação são inimigos do povo, não dão tréguas à desonestidade militante, têm uma quota de responsabilidade enorme na GRANDE INVASÃO [sic] e na substituição populacional”, escreveu. 

Apesar de alguns dos comentários serem de pessoas da própria cidade a desmentir os factos, parte são de apoio à mensagem, declarações xenófobas, de apelo à justiça popular e mais críticas à comunicação social.

O grupo nacionalista em que a mensagem foi publicada inicialmente possui 44 mil membros. A maioria dos posts são caracterizados por temas relacionados à supremacia branca, mensagens racistas e xenófobas, supremacia branca e discussões políticas. 

Não é a primeira vez que surgem boatos do género em Portugal, especialmente na zona do Alentejo, onde é grande o número de imigrantes da Ásia.

Em reportagens na região nos últimos meses, o DN ouviu de pessoas da comunidade repetidamente o discurso de supostas violações cometidas por indostânicos, além de casos de masturbação em praias.

Ainda mais recentemente, durante reportagem sobre o aumento da votação no Chega nas últimas legislativas, alguns eleitores mencionaram os supostos crimes sexuais perpetrados por imigrantes. 

Foi Luna Silva, a deputada municipal do Chega na Câmara de Albufeira, quem esclareceu e desmentiu. Quando me chegou isso aos ouvidos, a primeira coisa que fiz foi ir falar com o comandante da GNR para lhe perguntar. Não era verdade”, contou.

Diferente das “histórias” que circulam nas comunidades e na internet, David Freitas, coordenador da investigação criminal da Unidade Nacional Contra Terrorismo, afirmou ao DN que não existem registos de tais situações.

Em entrevista recente a este jornal, Freitas, que atua na PJ há mais de 30 anos, reconheceu que a política de imigração favorece a entrada de pessoas no território sem identificação, mas que, até agora, não há estatísticas de criminalidade que relacionem diretamente os cidadãos imigrantes que vivem no país.

Em Portugal, de acordo com o último Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), os casos confirmam a “preponderância de relação de conhecimento entre autor e vítima, maioritariamente, do sexo feminino, entre os 21 e os 30 anos”.

Em 64% dos casos registados havia uma relação de proximidade entre o violador e a vítima. Em 2022 foram 519 casos de violação, 122 a mais do que no ano anterior, segundo o mesmo boletim oficial. 

A GNR reforça que as denúncias são "extremamente importantes para que os recursos existentes sejam empenhados segundo uma lógica de prioridades, após ponderação e análise dos vários critérios de decisão, sendo fundamental o conhecimento das ocorrências/situações que se vão verificando na zona de ação". A força de segurança reitera que "existe a necessidade, por parte de vitimas ou lesados, da formalização de queixa ou informação de situações que possam enquadrar algum ilícito criminal, sendo a denúncia fundamental para auxiliar a monitorização do fenómeno e a gestão operacional dos recursos disponíveis para áreas onde o crime poderá ser mais incidente".

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