Segredos da Torre de Belém: canhões e um rinoceronte

Construída no século XVI, já foi uma fortaleza de defesa do reino e prisão política. Agora é um dos monumentos mais visitados na capital portuguesa. E um símbolo.

Paris tem a Torre Eif­fel, Pisa tem a sua torre inclinada, Nova Iorque tem a Estátua da Liberdade, Londres tem a Tower Bridge. E Lisboa? Se há monumento que identifica a capital portuguesa é a Torre de Belém.

Reproduzida em postais, azulejos, T-shirts, canecas ou ímanes, a silhueta da torre é facilmente identificável. Com mais de 500 anos de história, a torre, localizada no rio Tejo, acompanhada por um apetecível relvado e vizinha do Padrão dos Descobrimentos, é um dos monumentos mais procurados pelos turistas em Lisboa. Habituámo-nos a ver longas filas à sua entrada, mas também há quem só ali vá para tirar a fotografia da praxe. Mas quantos saberão efetivamente a sua história?

Misto de torre medieval e baluarte moderno, com 16 bocas de canhão, a função primeira do edifício era integrar o plano defensivo da barra do rio do Tejo, projetado por D. João II. Denominada na altura como Baluarte de São Vicente (em homenagem ao santo patrono de Lisboa) ou Baluarte do Restelo, a construção articulava-se com o Baluarte de Cascais e, na margem oposta, a Fortaleza de São Sebastião da Caparica.

Francisco de Arruda foi o arquiteto encarregado por D. Manuel (1469-1512) de criar a torre. Foi ele que desenhou também a Sé de Elvas e o Mosteiro de São Francisco, em Évora, e, mais tarde, projetou a Casa dos Bicos e o Palácio da Bacalhoa. Juntam ente com o irmão Diogo e o pai Miguel, os Arrudas eram uma família de arquitetos e engenheiros alentejanos que na época foram responsáveis por várias construções militares e religiosas.

Em Belém, as obras começaram em 1514 e só terminaram em 1520, ao mesmo tempo que ali ao lado decorria a construção de outro edifício manuelino, o Mosteiro dos Jerónimos - os dois monumentos continuam ligados até hoje, formando um único núcleo, classificado como Património da Humanidade e integrado na Direção-Geral do Património Cultural (DGPC).

Inicialmente o edifício estava localizado num ilhéu no meio do rio, completamente cercado pela água. Foi depois envolvido pela praia e hoje está ligado a terra firme. A decoração da torre ostenta a simbologia própria do manuelino - cordas que envolvem o edifício rematando em elegantes nós, esferas armilares, cruzes da Ordem Militar de Cristo e elementos naturalistas. Falamos de uma época em que Portugal se destacava como potência marítima, com as viagens recentes à Índia e ao Brasil, e em que a Coroa ostentava as riquezas vindas dos vários cantos do mundo.

Entre os elementos decorativos, muitos deles com referências à natureza, os especialistas destacam a primeira representação que se conhece na Europa de um rinoceronte. Esta escultura terá sido inspirada no rinoceronte que o rei da Cambaia, na Índia, ofereceu, em 1514, ao rei D. Manuel I. O rinoceronte pesava mais de duas toneladas e tinha uma pele espessa e rugosa formando três grandes pregas que lhe davam a estranha aparência de usar uma armadura. Era o primeiro rinoceronte vivo em solo europeu desde o século III. No ano seguinte, o rei decidiu oferecer o rinoceronte, com outras ofertas exóticas, ao Papa Leão X. O animal acabou por morrer durante a viagem, quando a nau em que seguia naufragou ao largo de Génova.

Outra imagem com muito simbolismo é a de Nossa Senhora do Bom Sucesso, também conhecida por Virgem do Restelo, que se acreditava proteger os navegantes. Na fachada norte há mais dois santos esculpidos: São Miguel (o "anjo da guarda de Portugal") e São Vicente.

Com a evolução dos meios de ataque e defesa, a Torre de Belém foi perdendo a sua função de defesa da barra do Tejo. A partir da ocupação filipina, os antigos paióis deram lugar a masmorras, sobretudo para presos políticos e condenados de elevada categoria social, e durante as invasões francesas foi adaptada a aquartelamento de militares.

Ao longo dos séculos foi ainda utilizada como registo aduaneiro, posto de sinalização telegráfico e farol. Nos quatro pisos da torre mantêm-se a Sala do Governador, a Sala dos Reis, a Sala de Audiências e, finalmente, a capela com as suas características abóbadas quinhentistas. A torre sofreu várias remodelações ao longo dos séculos, principalmente a do século XVIII que privilegiou as ameias, o varandim do baluarte, o nicho da Virgem, voltado para o rio, e o claustrim.

Foi classificada como Património Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1983, e, mais recentemente, em 2007, foi eleita como uma das Sete Maravilhas de Portugal.

A Torre de Belém é o segundo monumento mais visitado da DGPC, a seguir ao Mosteiro dos Jerónimos: em 2018, o espaço recebeu 450 546 visitantes. Este número chegou a ser de 685 694 em 2016. O decréscimo reflete as medidas tomadas em 2017 por questões de segurança que "levaram ao estabelecimento de um número máximo de entradas a partir do qual a visita é suspensa momentaneamente", explicou na altura a DGPC. Tudo para preservar este ícone de Lisboa.

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