Porrada, galhofa, ciência, breaking news. E às vezes a salvação

É a mais dura das redes sociais, a mais democrática, a mais noticiosa - já se seguiram nela revoluções em direto -, a mais divertida. Um instrumento formidável não aconselhado a mansos, cardíacos ou descontrolados - mesmo se pode salvar.

"Ainda não estão lá? É o sítio para estar." Cito de memória; não encontro o mail que, julgo, João Pinto e Castro enviou aos outros bloggers do recém-fundado Jugular em novembro de 2008 a tentar entusiasmar-nos com o Twitter. Ou talvez não tenha havido um mail e o repto tenha ocorrido num dos nossos jantares.

O João, economista, colunista, internauta veterano com o seu blogoexisto e ironista excelentíssimo, era (morreu em 2013) o mais velho do grupo do jugular. Tinha 58 anos em 2008 mas foi o primeiro a louvar-nos a plataforma à qual fomos aderindo, no início confusos e cautelosos, sem perceber bem como aquilo funcionava e para o que servia.

Porque o Twitter - ou tuíta, como o crismámos - tinha várias estranhezas. A começar pelo limite de caracteres, nessa altura 140 (hoje são 280): foi preciso aprender a escrever curto, muito curto. Como em derivação da ginástica cerebral das palavras cruzadas, encontrar a fórmula exata para o espaço sem perder clareza, assertividade e graça.

Para mim, que tendo a escrever lençóis embalando no ritmo do texto como numa partitura, o tuíta é uma disciplina de concisão em que descobri insuspeitado prazer. Como na rapidez. Se nos blogues nos tínhamos habituado a escrever e publicar em cima do acontecimento - algo que à época ainda não sucedia nos jornais -, ali descobríamos a vertigem: em certas ocasiões, o tuíta acelera de tal modo que para quem siga umas boas centenas de contas (no meu caso mais de mil) e seja seguido por muitas se torna impossível "pilotar" a aplicação, ler o que os outros estão a dizer e tentar responder. É uma corrida de palavras em adrenalina.

Esse mergulho no desconhecido - melhor dizendo, nos desconhecidos - é outro, senão o maior, dos prazeres do tuíta. Para quem como eu tivesse muitos comentários ao que escrevia no blogue e gostasse desse diálogo, o tuíta era a "descida" à arena digital: do lugar do imperador, que decidia quem vivia e morria (quem via o seu comentário aprovado ou não), para o de gladiador, dependendo da destreza e da resiliência para triunfar ou perecer.

Foi das coisas que mais me encantaram na plataforma, essa democraticidade.O facto de qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo, poder falar, no chamado "tempo real", com qualquer outra, não como comentadora, subordinada a um discurso e autoridade, mas como interlocutora, de igual para igual.

Tal acessibilidade tem avesso: a disponibilidade para terçar discurso com todos implica ser alvo fácil para o acinte, o insulto, a difamação, a ordinarice, a destruição. Os que estão no tuíta com o seu nome e rosto e gozam de alguma notoriedade podem contar com ataques soezes e desvairados, geralmente de anónimos e por vezes em bando.

Existe, claro, a hipótese de silenciar contas - deixamos de ver o que dizem sem que os seus autores saibam - ou mesmo bloqueá-las, impedindo-as de ver o que dizemos. Mas, mesmo bloqueadas, as respostas que tenham dado a tuítes nossos ficam lá, na teia, à vista de todos. Ao contrário do que se passa em blogues ou no Facebook, onde podemos optar por não aprovar comentários ou eliminá-los, no tuíta tudo fica (a não ser que a própria plataforma decida eliminar contas por as considerar, após denúncia, abusivas). Também não é possível "emendar" ou "editar" tuítes: se nos enganámos ou arrependemos, a única coisa que podemos fazer é apagar.

A primeira grande demonstração desse caráter único do tuíta como meio de difusão noticiosa e combate político ocorreu em junho de 2009, com as manifestações no Irão contra o regime e o presidente, primeiro ensaio da Primavera Árabe de 2011.

Todas estas características fazem do tuíta a mais agressiva, dura e "verdadeira" das redes sociais. Mas quando recentemente surgiu a notícia de que poderia passar a ser possível, como no Facebook, eliminar comentários, a reação da maioria dos tuiteiros foi de escândalo: quem gosta mesmo da plataforma não a quer igual ao Facebook. Este é aliás ali desprezado como lento, irrelevante, popularucho, parente próximo das caixas de comentários dos jornais e muito mais atreito a fake news. Considerado mais elitista, o tuíta é também o lugar do instantâneo, onde as notícias chegam primeiro, se lançam revoltas e alimentam resistências - e também no qual vemos agora governantes como Trump e Bolsonaro escrever com erros, mentir e insultar, expondo toda a sua ignorância e vileza.

A primeira grande demonstração desse caráter único do tuíta como meio de difusão noticiosa e combate político ocorreu em junho de 2009, com as manifestações no Irão contra o regime e o presidente, primeiro ensaio da Primavera Árabe de 2011. Apesar das restrições à cobertura noticiosa, nas contas associadas aos protestos vimos em direto os manifestantes enfrentarem as milícias de apoio ao governo, as mulheres arrastadas nas ruas, uma delas - a estudante de Filosofia Neda Agha-Soltan, de 26 anos - assassinada a tiro sob os nossos olhos (para a Time, teria sido a morte mais testemunhada globalmente até então; cinco anos depois, o Daesh faria dessa virtualidade de denúncia pornografia e terror, com os seus vídeos de execuções).

Nunca até 2009 e à revolução verde iraniana um movimento de protesto num regime fechado dispusera de um instrumento de expressão e subversão tão poderoso como o tuíta; durante o tempo que durou, foi possível seguir ativistas, falar com eles, desejar-lhes sorte. Foram dias extraordinários, em que mal se dormiu para acompanhar a história. O mesmo voltou a acontecer em 2011, no levantamento egípcio contra Mubarak.

A estes exemplos do tuíta do bem, aos quais se junta o dos protestos em Hong Kong, justapõem-se os do mal: as guerras de bots (contas falsas, criadas para ataques concertados) e de desinformação, o uso horrífico que o Daesh fez dele, a disseminação de discurso de ódio que a plataforma diz combater mas não combate com suficiente eficácia. É mais fácil uma conta ser suspensa por tuitar a letra de uma canção de Patti Smith que inclui a palavra nigger (sucedeu comigo, com Rock'n'Roll Nigger) ou por fazer vários tuítes seguidos com links (de vídeos de música do YouTube, por exemplo), automaticamente "lidos" pela plataforma como spam, do que por chamar pedófilo ou assediar alguém de modo racista ou sexista. O sistema de vigilância é cego: reage sobretudo a situações predeterminadas, ao número de denúncias e não à natureza das mesmas.

Tudo somado, porém - pelo menos por enquanto, já que alterações recentes na estrutura acionista apontam no sentido de uma tentativa de take over trumpista - ainda não me desencantei deste vício que é o tuíta. Gosto da aresta, da ironia, do sarcasmo e do humor desbragado que são a sua marca, do funambulismo - um deslize, um descontrolo e estampas-te à vista do mundo -, da ideia de que ali se vai, como nos filmes os irlandeses vão ao pub, para a briga e a porrada.

Em momentos de solidão e medo, como agora, o tuíta é a nossa ágora. O lugar para dar e receber conselhos e palpites, tirar dúvidas, dizer disparates, rir como se fosse a última vez, descobrir a bondade de estranhos.

Gosto do acesso a gente, situações e visões que dificilmente encontraria de outra forma ou das quais nunca teria tido consciência; gosto de aprender com os melhores (o tuíta está cheio de cientistas e especialistas sortidos); gosto da possibilidade de o usar no trabalho jornalístico, pedindo testemunhos sobre isto ou aquilo a uma audiência de dezenas de milhares.

Gosto da forma como ali, porque não vemos as pessoas, não sabemos de onde são, que fazem, que idade têm, o que vestem, se são bonitas ou feias, magras ou gordas, suspendemos as habituais grelhas de aprovação/eliminação e preconceito que impendem sobre as relações sociais e atentamos apenas ao que se diz e como se diz (isto, claro, se não conhecermos de nenhum lado o interlocutor).

Gosto da cumplicidade, da intimidade até, que se cria entre desconhecidos, do espírito de comunidade que de vez em quando se revela. Como quando a 17 de dezembro de 2009 a terra tremeu em Portugal, perto das duas da manhã, e não havendo qualquer reação noticiosa ou da Proteção Civil (que na altura nem conta Twitter tinha, creio) foi ali que milhares se juntaram para exorcizar o medo. "Antes a terra tremia e as pessoas corriam para a rua; agora correm para o twitter", escreveu um tuiteiro. "Isto também serve de algum consolo", disse outro.

Serve. Em momentos de solidão e medo, como agora, o tuíta é a nossa ágora. O lugar para dar e receber conselhos e palpites, tirar dúvidas, dizer disparates, rir como se fosse a última vez, descobrir a bondade de estranhos. E dizer, como o João há 11 anos: estou aqui, venham.

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