Premium Feminino plural no cinema

Não foi com o movimento #MeToo que o cinema começou a reconhecer e representar a complexidade dos comportamentos sexuais - há muitos filmes "antigos" que falam, pedagogicamente, para o nosso presente.

Michael Dorsey não conheceu os tempos difíceis e perturbantes do movimento #MeToo. Já lá vão 36 anos, quando tentou explicar o seu amor por Julie, dizendo-lhe: "Eu fui um homem melhor contigo, sendo uma mulher... melhor do que alguma vez fui para uma mulher, sendo um homem."

Acontece no filme Tootsie (1982), de Sydney Pollack. Interpretado por Dustin Hoffman, Michael é um ator desesperadamente sem emprego que, num gesto de angústia, se disfarça de mulher a fim de obter trabalho numa série televisiva. O certo é que consegue um papel, deparando com um universo profissional multifacetado: da parte dos homens, recebendo um pouco de tudo, desde a estupidez machista até à inteligência afetiva; entre as mulheres encontrando, precisamente, Julie (Jessica Lange), por quem se apaixona.

Escusado será insistir no óbvio: não estamos perante um objeto ligado às convulsões morais e legais do último ano, de algum modo polarizadas nos crimes de que está acusado Harvey Weinstein. Além disso, e por mais que tal seja difícil de conceber no nosso aqui e agora, Tootsie trabalha a partir de uma visão lúdica (cujo valor pedagógico, a meu ver, não se perdeu) das relações masculino/feminino, visão que não emanava de uma agenda ideológica ou de um programa militante. O filme de Pollack foi mesmo lançado nos EUA em meados do mês de dezembro, como típico produto da quadra natalícia, com uma classificação etária que permitia o acesso a menores de 13 anos, desde que acompanhados por um adulto. Um dos cartazes continha esta frase: "Neste Natal todos ficarão a saber que ela é Dustin Hoffman e ele é Tootsie."

Não é fácil lidar com estas memórias e a herança, de uma só vez cinéfila e social, que representam. Na verdade, a história recente do movimento #MeToo pode atravessar o mundo do cinema (em particular, o sistema de Hollywood), mas não possui uma lista de filmes que o exprima diretamente. Nos últimos Óscares, o belíssimo Lady Bird, sobre uma jovem que tenta superar as atribulações da adolescência e encontrar o seu caminho pessoal, foi encarado como uma espécie de delegado simbólico do movimento. Há nele um feminismo ágil e criativo, sem dúvida. O certo é que o projeto surgiu muito antes, tendo a realizadora Greta Gerwig começado a organizar a produção em 2015, depois de vários anos a escrever o argumento.

Será preciso lembrar que estas precisões cronológicas nada têm que ver com qualquer desvalorização da energia libertadora que perpassa pelo #MeToo? Será preciso repetir que lidar com a complexidade e os contrastes da história do feminino, em particular da história cinematográfica do feminino (sempre enredada com o masculino, hélas!), não envolve qualquer banalização, muito menos branqueamento, dos crimes sexuais que foram cometidos?

Memórias cinéfilas

Não creio, de facto, que a noção determinista segundo a qual o #MeToo vai gerar uma nova e redentora idade de representação cinematográfica das mulheres seja uma espécie de utopia milagrosamente concretizada (ou concretizável). Porquê? Porque tudo aquilo que está em jogo excede, e muito, o domínio específico do cinema e os seus poderes narrativos. E também porque não me parece possível pensar a representação cinematográfica do feminino (logo, do masculino) escamoteando muitas memórias cinéfilas, algumas ainda mais distantes do que Tootsie.

Lembremos, por isso, que a história do cinema está pontuada pelo trabalho de muitos espíritos livres, capazes de arriscar para além dos clichés de género(s) que, de forma discreta ou compulsiva, cada época vai produzindo. Veja-se ou reveja-se um filme tão radical como Sylvia Scarlett, em que George Cukor dirige Katharine Hepburn na personagem de uma jovem que se disfarça de homem para fugir à polícia, apaixonando-se, enquanto figura masculina, por um homem...

Subitamente, compreendemos que o ziguezague masculino/feminino pode não bastar para dar conta das infinitas ambivalências dos desejos humanos. A data de Sylvia Scarlett, 1935, não significa que a "antiguidade" seja uma forma inquestionável de razão. Em todo o caso, envolve um relativismo com o seu quê de didático: alerta-nos para a necessidade - de uma só vez factual e simbólica - de reconhecermos que a necessidade de problematizar as diferenças sexuais é um dado primitivo do ser humano, não o resultado de uma qualquer descoberta do nosso progresso social.

Como omitir, por exemplo, que o cinema das décadas de 1950/60 gerou admiráveis retratos femininos? Será que já nos esquecemos de Elizabeth Taylor em Bruscamente no Verão Passado (Joseph L. Mankiewicz, 1959) ou Natalie Wood em Esplendor na Relva (Elia Kazan, 1961)? Será que vamos menosprezar a beleza dos seus modos femininos de ser, pensar e comunicar porque as vimos em filmes realizados por... homens? E o cinema da nossa Europa, passou a ser terra queimada? Vamos dar-nos ao luxo de ignorar a herança afetiva e simbólica das personagens de Jeanne Moreau em Jules e Jim (François Truffaut, 1962), Monica Vitti em O Deserto Vermelho (Michelangelo Antonioni, 1964) ou Laura Soveral em Uma Abelha na Chuva (Fernando Lopes, 1972)?

Viver o presente

O movimento #MeToo excede o cinema. Aliás, mesmo que a verdade trágica da violência contra as mulheres fosse um fenómeno exclusivo do mundo da indústria do cinema, isso não seria razão, nem necessária nem suficiente, para rasurarmos a riquíssima herança de muitos filmes cuja subtileza (temática, emocional, sexual, etc.) continua a questionar o presente em que vivemos - e o modo como vivemos o presente.

Em alguns aspetos de natureza comunicacional, o #MeToo alimenta-se mesmo, voluntariamente ou não, do pior com que a televisão "global" parasitou o nosso quotidiano. A saber: a transformação de qualquer situação de tensão em conflito aberto e, mais do que isso, a encenação do espaço público como um território automático, automaticamente legitimado, de tribunal.

Os horrores de tudo isso estão todos os dias nos nossos ecrãs: em tempos de acesas discussões sobre os populismos políticos, há um populismo televisivo que quase ninguém quer reconhecer. No seu limite mais impudico, somos compelidos a discutir as vidas dos outros (a começar pelos seus comportamentos sexuais) como se fôssemos cientistas infalíveis a observar ratos de laboratório... Os crimes sexuais de que se fala existirão, por certo, mas somos nós, espectadores, que estamos a ser reduzidos a autómatos de insensibilidade.

Daí o paradoxo a ter em conta. Aliás, é de uma visceral contradição que se trata: o espaço televisivo que define o cidadão como um voyeur sem responsabilidades é o mesmo que é capaz de gerar coisas tão prodigiosas como o filme The Tale, com a extraordinária Laura Dern no papel central, em que a produtora e realizadora americana Jennifer Fox conta a história dos abusos sexuais a que ela própria foi sujeita quando tinha 13 anos. É um objeto tanto mais importante quanto consegue expor um caso de violência sexual, não como um mal abstrato propício a qualquer gritaria audiovisual, antes como um labirinto de gestos e palavras, coisas visíveis e coisas silenciadas, que envolve formas específicas de viver, pensar e enquadrar o feminino (e o masculino). Formas culturais, enfim.

Nem todos homens são tão sensíveis e inteligentes como Michael Dorsey. Apesar disso, não há razão para tratar a Julie por quem ele se apaixona (ou qualquer outra "Julie" de qualquer outra história) como uma vítima potencial. É verdade que há muitas mulheres abusadas em muitas histórias que temos conhecido nos últimos tempos. Mas o que nos distingue como humanos não é o catálogo das nossas vítimas, antes a atenção à pluralidade das coisas de que se faz o mundo. A começar pelo feminino.

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