Premium Diferenças entre os sexos. O que diz a ciência

Num tempo de novas consciências e novas realidades sociais e laborais, de vivências mais abertas das relações, do sexo e do amor, a ciência tem uma palavra a dizer. E pode iluminar o caminho para desarmadilhar preconceitos

Biologia ou cultura? Natureza ou pressão social? Ou as duas - mas, nesse caso, qual o peso de cada uma delas? O debate sobre as diferenças entre homens e mulheres é marcado por posições muitas vezes extremadas, com fações opostas esgrimindo argumentos contraditórios e estudos para todos os gostos. Na verdade, tanto provam uma coisa como o seu contrário. E a conversa sobre o que elas significam nas sociedades modernas parece estar hoje mais acesa - e contaminada - do que nunca.

Esta semana, o físico italiano Alessandro Strumia foi protagonista de um episódio infeliz, que lhe custou, para já, a suspensão no CERN, o Centro Europeu de Física Nuclear, e na Universidade de Pisa, e que acaba por mostrar também o ambiente tenso que se vive em torno destas questões.

Strumia fez afirmações consideradas "muito ofensivas" sobre as mulheres na física. Numa conferência sobre género e física de altas energias, no próprio CERN, e perante uma plateia maioritariamente de colegas mulheres, o investigador italiano apresentou números e gráficos para defender que a física, uma ciência que "foi feita por homens", se está "a tornar sexista contra os homens", uma vez que "hoje são contratadas mais mulheres, embora o trabalho dos físicos homens tenha mais citações".

Pouco depois, o que ele disse e as reações de indignação que provocou faziam furor nas redes sociais, e o resto foi como uma bola de neve montanha abaixo. Já para as instituições - o CERN e a Universidade de Pisa - esta acabou por ser uma oportunidade de reafirmação da sua posição de "abertura a todos, independentemente da etnia, crenças, género, ou orientação sexual".

Este é um tempo de novas consciências e de novas realidades sociais e laborais, de vivências mais abertas das relações, do sexo e do amor, e também de mais conhecimento científico. Mas há uma história longa de dominação masculina, que vem de trás e permeou cada recanto da vida e, historicamente, impediu as mulheres de se exprimirem plenamente nos mais variados campos. Também por isso, este é um momento de hipersensibilidade a tudo o que possa parecer-se sequer com sexismo, e em que fenómenos como o #Metoo irrompem de forma explosiva e intensa. E o caso de Alessando Strumia nem sequer é isolado.

Em 2015, o prémio Nobel britânico Tim Hunt, até aí uma referência no seu país e na comunidade científica mundial, caiu em desgraça depois de ter dito perante uma audiência de jovens mulheres cientistas e jornalistas, numa conferência na Coreia do Sul, que "o problema com as mulheres no laboratório é que elas se apaixonam" e "quando, as criticamos, choram". Pouco depois, no meio de um turbilhão de indignação geral, Tim Hunt teve de demitir-se da sua universidade, a University College de Londres, onde era professor e investigador emérito. Ainda houve quem viesse a público dizer que era "uma punição" desproporcionada mas, ao Nobel, de nada valeu.

Reconhecer as diferenças

É neste ecossistema crispado, onde por outro lado subsistem latentes velhos preconceitos em relação às mulheres, que a própria ciência procura separar o trigo do joio, em busca dos factos que possam ajudar a fundamentar as respostas a interrogações como: homens e mulheres são mesmo diferentes? Se sim, em quê? E mais complexo ainda: essas diferenças significam exatamente o quê no mundo contemporâneo?

Para lá das diferenças óbvias entre os dois sexos, que ninguém nega - genitais, genéticas, hormonais, e todos as características sexuais secundárias que daí decorrem -, uma miríade de questões emerge, à medida que a ciência se embrenha nos estudos da biologia e nas suas repercussões, por exemplo, na área da saúde, que muitas vezes são diferenciadas entre mulheres e homens, simplesmente porque umas e outros têm particularidades biológicas distintas.

Os estudos de género na saúde ainda estão no princípio, mas já é visível, como defende Londa Schiebinger, investigadora de história da ciência da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, que isso faz parte do caminho "para uma sociedade mais igualitária" em termos de género. Disse-o ela, em Lisboa, em dezembro do ano passado, quando aqui apresentou o seu projeto "Inovações de género na ciência, saúde e medicina", no V Simpósio Internacional da AMONET, a Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas.

Segundo a americana, que integra a corrente que defende o empoderamento social das mulheres com base no conhecimento científico, o mais capacitado para desarmadilhar preconceitos e ideias feitas, a caminhada comum para um sociedade sem preconceitos de género, e com verdadeira igualdade de oportunidades, passa necessariamente por aqui. Mais do que admitir as diferenças, trata-se de as reconhecer, e de as entender na sua realidade concreta. Numa área central como é a da saúde, por exemplo, isso significa ter em conta as especificidades biológicas de homens e mulheres nos ensaios clínicos, para resultados mais conformes à realidade dos doentes, e das doentes.

O que dizem as neurociências

Neste terreno delicado, as neurociências já começaram a trilhar caminho, mas também aqui não há respostas a preto e branco. Um estudo do ano passado, da Universidade de Edimburgo, que envolveu uma respeitável amostra de cinco mil participantes (a maior de sempre neste tipo de investigação), mostrou sem margem para dúvidas que sim, que há diferenças entre os cérebros de homens e mulheres. Mas demonstrou também que há muito mais semelhanças do que diferenças, confirmando o que anteriores estudos, com menos participantes, já tinham sugerido.

Um dado objetivo e incontestável é o do tamanho do cérebro. Em média, o cérebro humano pesa entre 1,3 e 1,4 quilos, e o dos homens é entre a 8% a 13% mais volumoso do que o das mulheres, mas os homens também são em geral maiores do que as mulheres, com estruturas ósseas e musculares mais robustas. Será uma questão de proporcionalidade que é comum, de resto, a todos os primatas.

Mas há regiões que são mais volumosas nos cérebros deles e outras nos cérebros delas, Olhando mais de perto, a equipa de Edimburgo, que foi coordenada pelo neurocientista Stuart Ritchie, verificou que o córtex cerebral, onde são processadas as funções cognitivas superiores, relacionadas com a linguagem ou as operações abstratas, tende a ser mais espessa nos cérebros das mulheres enquanto para algumas estruturas subcorticais, como hipocampo, que tem um papel central na memória e na orientação espacial, ou a amígdala, que processa entre outras as emoções ou a memória, é exatamente ao contrário. Nas contas finais, os investigadores contabilizaram 14 regiões mais volumosas no cérebro dos homens, enquanto nos das mulheres isso acontecia noutras 10. Mas o que isto significa é um mistério,

Os neurocientistas resguardaram-se de fazer especulações em termos de comportamento, funções cognitivas ou características psicológicas, a partir destas observações. Explicam que é necessário estudar mais detalhadamente as diferenças observadas. Como nos comportamentos e na psicologia que o imaginário popular distribui a homens e mulheres, acaba por não ser possível destrinçar o que é determinado pela biologia, pela educação, ou pela mistura de ambas. Uma certeza existe: há aquii um terreno vasto - e complexo - para a ciência explorar. E nos abrir horizontes.

Ler mais

Exclusivos