A família Amorim construiu o seu império a partir de uma pequena oficina em Vila Nova de Gaia. O negócio

cortiça

Há 150 anos, nascia um império de cortiça numa pequena oficina do norte do país

Há duas décadas, a família Amorim ficou de frente com um dilema: cedia ao mercado crescente do plástico ou assumia-se ainda mais através da cortiça. Desde então que a palavra sustentabilidade se tornou uma imagem de marca da maior corticeira nacional e mundial. Já lá vão 150 anos de existência.

A perna direita não tem descanso. T-tum, t-tum, t-tum, t-tum. Para cima e para baixo, demorando mais lá no chão. Cada pisadela é um pedal que se mexe, um berbequim que perfura e uma prancha espessa de cortiça em buracos. O que resta dela são os primeiros moldes do que chegará ao topo de inúmeras garrafas de vinho ou whisky espalhadas pelo mundo: a famosa rolha de cortiça. O processo repete-se, homem por homem, dispostos em fila, neste armazém de Santa Maria de Lamas. O mesmo lugar onde nasceu em 1908 a primeira unidade industrial da Corticeira Amorim, o maior produtor de cortiça nacional e mundial.T-tum, t-tum, t-tum, t-tum - ouve-se. Tantas vezes que perfaz uma média de 25 milhões de rolhas produzidas diariamente. No ar, o cheiro a terra quente, a árvores quebradas, as mesmas das quais um dia nasceu a Amorim.

Já não há uma memória viva do que foi o início e a que resta dos tempos mais longínquos está turva. Não pela idade. O tema, esse, é que é complexo. Desde que se conhece a si mesmo que António Amorim, de 91 anos e o mais velho da família por detrás da corticeira, vive rodeado pela cortiça e pela fábrica onde as gerações anteriores a fizeram viajar pelo mundo.

"Sendo um negócio familiar, todos estávamos envolvidos e conhecíamos, desde tenra idade, a cortiça e a sua transformação na fábrica", conta. Com a morte "precoce" dos seus pais, "o trabalho impunha-se" e os oito irmãos, "verdadeiramente unidos", dedicaram o seu "engenho e trabalho à cortiça". Por isso, a memória falha na hora de lembrar a primeira de todas.

Desde o início que a família quis tornar-se especialista em dar forma à casca de uma árvore - a de cortiça e a genealógica. A história começa na Rua dos Marinheiros, em Vila Nova de Gaia, em 1870. Nesta rua - não se sabe ao certo se inspirado pelas caves de vinho que a ladeavam -, António Alves de Amorim ergueu uma fábrica de produção manual de rolhas de cortiça. Só em 1908 é que mudaria de morada, para Santa Maria de Lamas, acompanhado pela sua mulher, Ana Pinto Alves, e os seus nove filhos, entre ele António. Foi num palheiro - atualmente na pele de um museu - que nasceu a primeira unidade industrial da Amorim e o início de gerações ao leme de um império de cortiça.

O caminho passa atualmente pelas mãos de António Amorim, CEO do grupo, e Paula Amorim, filha do falecido e antigo presidente Américo Amorim e, por isso, sucessora natural no grupo, onde é acionista acionista.

Quantas vidas cabem na vida que um sobreiro leva para dar cortiça madura (43 anos)? Ainda as árvores nascidas naquele início de história amadureciam, já a rolha Amorim era vista como um produto de luxo no mercado nacional e companhia inquestionável dos melhores vinhos da época.

Assim como todos os sobreiros a partir desta idade, a cada nove anos a cortiça rejuvenescia o suficiente para ser alvo de descortiçamento. E foi quase de nove em nove que a família adicionou marcos históricos à empresa: depois de terem chegado a Santa Maria de Lamas em 1908, constituem oficialmente a empresa como Amorim & Irmãos, Lda. a 11 de março do ano de 1922, com 150 colaboradores.

Em 1930, oito anos depois, era já considerada a maior fábrica de rolhas do norte de Portugal. Aproveitando o balanço, é também neste ano que a corticeira se lança na produção de revestimentos térmicos e acústicos e que salta pela primeira vez do mapa para o mundo, com exportações para Japão, Alemanha, Estados Unidos, França, Brasil, Inglaterra, Holanda, Bélgica e Suécia. Atualmente, vende para mais de cem países e anuncia a abertura de uma nova unidade na Austrália. Mas "o que faz da Amorim um líder mundial no setor da cortiça é a conquista do leste", em 1967, através da construção de uma filial em Viena, explica o atual presidente, António Rios Amorim. Só no virar do milénio é que assumiria as funções que hoje desempenha, CEO do Grupo Amorim.

Ao contrário do pai, lembra-se bem dos primeiros passos que deu no mundo da cortiça. As máquinas e os trabalhadores são-lhe familiares desde os seus 7 anos, idade a partir da qual o pai o começou a levar pela mão para conhecer as unidades industriais da empresa, aos fins de semana. Ali, aprendeu a andar de bicicleta, passava dias a colar selos e a fazer catálogos de produtos decorativos: "De cortiça, de pavimentos, de tudo." São as três memórias que mais rapidamente surgem na minha cabeça", conta. A quarta são "as reuniões de sábado de manhã". "Foram constantes ao longo de muitos e muitos anos, e portanto há uma memória viva dessas reuniões alargadas e longas com temas super importantes, em que toda a gente participava de uma forma exemplar. E meu tio [o falecido Américo Amorim] assumia aí uma liderança absolutamente fantástica nessas reuniões", recorda-se.

Entretanto, seguiu o rumo que a corticeira tomava e também ele arrancou pelo mundo, para uma licenciatura em Comércio Internacional na Universidade de Birmingham, em Inglaterra. Teria 22 anos quando chegou, para assumir funções na empresa, na área de investimentos e participações. Passou pela hotelaria e a imobiliária do grupo, até que Américo Amorim entregou a presidência ao seu sobrinho, em março de 2001, uma altura particularmente conturbada para a empresa, que teve uma das maiores decisões na sua mão: ceder ao mercado emergente dos vedantes de plástico e metal, concorrentes diretos da cortiça, ou manter o legado?

O homem que tornou o império mais verde

Carlos Manuel. O nome não é seguido do apelido Amorim, porque não partilha o mesmo sangue da família, mas soa familiar por todos os cantos da corticeira, que o próprio garante conhecer como a sua casa. Aos 70 anos, é um dos funcionários mais antigos da empresa, onde entrou em 1972. "Foi o meu primeiro emprego a sério", recorda. E não se esquece do dia em que ali entrou pela primeira vez, na unidade de Santa Maria de Lamas, para ser entrevistado pelo próprio Américo Amorim. Tudo em si "estava a tremer". Afinal, "era um desafio grande e algo que queria muito, apesar de a Amorim não ser, na altura, o que é hoje".

A cortiça não fazia parte do seu vocabulário - nem o comum nem o técnico - e era "apenas um jovem de 22 anos não licenciado", por isso, "sentia que tinha algumas limitações". Parecia ter tudo para correr mal, não fosse "a vontade muito grande de vencer na vida", lembra. "E o doutor Américo Amorim viu isso em mim." Naquele dia, Carlos Manuel entrou no escritório do presidente para só sair cerca de duas horas depois, "entre várias chamadas que atendia - porque já na altura andava sempre com dois telemóveis, atendia um, atendia outro". "Quando saí, naturalmente ainda nervoso, cruzei-me com um senhor no corredor - que depois vim a saber ser o senhor António Amorim [agora com 91 anos] - que me disse: 'Ó jovem, tem calma, tem calma. Não te enerves, porque estás admitido.' E eu: 'Como é que o senhor sabe que eu estou admitido?' 'Porque se não estivesses o meu irmão não te aturava durante duas horas'."

Entraria primeiro como colaborador do chefe de departamento da vertente de isolamentos. Foi subindo, até se ter tornado no que é hoje: gestor deste mesmo departamento. Entretanto, nunca saiu dos isolamentos, mas fez incursões noutras áreas da cortiça. "Quando [a empresa] era mais pequena, dava azo a que isto acontecesse. E o doutor Américo Amorim não queria que nos focássemos apenas numa área, queria que aprendêssemos um pouco de tudo. Por isso, desde muito cedo, fiquei a conhecer todas as áreas, da rolha aos pavimentos."

A nossa primeira conversa decorreu em contexto de cerimónia, a propósito dos 150 anos que a corticeira celebra, e com um copo de vinho na mão. Depois do último gole de Carlos Manuel, a equipa de catering propõe-lhe mais um copo da mesma bebida, agarrando imediatamente aquele que já tinha na mão para o trocar por um novo. Logo, Carlos Manuel trava a tentativa de o fazerem. 'Para quê? Não é preciso. Já viu a água que vai gastar nos copos que trocar? E o detergente que é necessário?' Este momento poderia ser a sinopse do que viríamos a saber ser o legado deste funcionário na sua empresa: foi ele quem trouxe o conceito de sustentabilidade - e todos os colegas o reconhecem por isso mesmo.

"Digo, não com vaidade, porque não sou vaidoso, mas com orgulho: fui eu e o departamento que represento os primeiros a pensar na reciclagem da produção." Primeiro, veio a ecologia, depois a sustentabilidade, diz. Foi a correr o mundo que Carlos Manuel ganhou sensibilidade para o assunto. "Desde muito cedo, na empresa, fui adquirindo alguns contactos internacionais, muito devido às viagens que fazia, e ia ouvindo várias pessoas preocupadas com o ambiente", conta.

Mas há um caso em particular do qual não se esquece. Aconteceu "há muitos anos", não sabe precisar exatamente quantos, durante uma feira na Alemanha, quando um senhor o abordou "para saber como era feita a produção dos isolamentos e que tipo de colas se usava. Foi explicando, mencionando que "não há cola nenhuma" e por aí em diante - o processo, garante, é todo natural. "Perguntou se tínhamos distribuidor, disse que sim e respondeu que queria colocar isolamento de cortiça para a casa. 'É que utilizo outro material para isolar e, passados alguns anos, em vez de quatro centímetros de espessura só tenho dois'", disse-lhe. Ao que Carlos Manuel responde: 'Pois, e lá se vai o isolamento, não é?' E ele explica: 'Não, não. A minha preocupação é para onde é que foram os outros dois centímetros.'

Esta conversa, e tantas outras com o mesmo fim, ao longo dos anos, "mexeu comigo e despertou em mim uma maior atenção sobre as questões da ecologia e da sustentabilidade". E, no que toca ao ambientalismo, tem um lema: "Não basta parecer, é preciso ser." "E é preciso reciclar, mesmo que em termos empresariais não se veja um benefício imediato."

Houve mesmo um momento em que o Grupo Amorim poderia ter deitado tudo a perder em prol deste benefício imediato. Há 20 anos, a rolha de cortiça, enquanto produto, "teve um período difícil", recorda o funcionário. Até se falava do seu eventual desaparecimento e da sua substituição por plástico. António Amorim lembra "o momento traumático da entrada de produtos alternativos. "Fizemos uma reunião no Caramulo para decidir se aderíamos a esta nova tendência", conta o atual presidente, durante a cerimónia em que nos encontramos. Porque "durante muitos anos se desacreditou que a cortiça teria futuro". "Nesta altura, a empresa ponderou a possibilidade de adotar outro tipo de rolha. Mas, no final, optou-se por ser coerente perante a génese e não ceder ao plástico", lembra.

O que se seguiu foi um "renascimento da cortiça" e, embora fosse um destino, "não surpreende, "uma vez que era inevitável", acrescenta. "E, como eu costumo dizer, foi um momento de sobrevivência."

Quem a viu e quem a vê

A história dá aos antigos egípcios o início de tudo. Terá sido como utensílio náutico, para recolher o que o mar dava, que a cortiça foi olhada pela primeira vez como potencial fora dos sobreiros. Acabariam por render-se a esta matéria-prima, que passaram também a utilizar como solas para as suas sandálias - longe de imaginarem que, em pleno século XXI, o mesmo material desfila nas passerelles de produtores de calçado de renome. Depois, os romanos fizeram dela isolamento térmico das suas casas e as caravelas portuguesas descobriram o mundo desenhadas a cortiça.

Só depois o vinho viria roubar o protagonismo na utilização desta matéria-prima. Reza a história que foi o monge francês conhecido pela produção de champanhe Dom Pérignon que, no século XVII, escolheu a cortiça como alternativa às rolhas de madeira, para melhor conservar a sua obra. Tudo aquilo sobre o que a madeira suscitava dúvida: fraco vedante e conservante do sabor, além de pouco seguro - ninguém poderia prever a hora a que uma rolha de madeira poderia saltar da garrafa, por sua livre e espontânea vontade. A chegada da cortiça às garrafas de vinho elevaria, assim, a indústrias vinícola, até aos dias de hoje.

Mas "o maior fascínio é realmente perceber que o limite da cortiça ainda está muito longe de ser atingido", diz António Rios Amorim. "O potencial de aplicações onde a cortiça, como material, pelas suas vantagens, pelas suas características técnicas e também pela sua componente da sustentabilidade, pode de facto fazer a diferença está muito, muito longe de estar alcançado". E o seu pai, António Amorim, viu isso, logo em 1969, "quando a cortiça acompanhou o homem à Lua". Percebeu que, "para este material, não havia limites de aplicação". "Basta engenho, dedicação e trabalho."

A cortiça está nos caminhos-de-ferro, nos automóveis, no interior de um caiaque olímpico e lá no espaço, bem longe, a viajar na ponta de uma nave espacial. Já lá vão décadas de parceria entre a Amorim e as agências espaciais NASA e ESA - Agência Espacial Europeia. A cortiça já entrou em várias missões espaciais, como protetor dos escudos térmicos das naves espaciais e como placa de revestimento.

Todos os caminhos parecem ir dar à cortiça, até na saúde. Este material é utilizado atualmente como adjuvante de vacinas. E, devido às suas características hipoalergénicas, brevemente passará a estar também incluída em produtos cosméticos, em forma de pó.

"Julgo que hei de aprender coisas novas até morrer; mas também tenho muito para ensinar!", conta o membro vivo mais antigo desta família. Por isso, António Amorim é presença diária nas instalações em Santa Maria de Lamas - às 09.00 se o dia está bom, às 10.00 quando faz chuva, comentam os trabalhadores. Não quis perder de vista o que estava para vir no negócio da cortiça, no qual já reconhecia um "potencial" além daquele que se concretizava na altura em que esteve ao leme da empresa. "A produção de rolhas consumia apenas 25% da matéria-prima" e "vendíamos os desperdícios (aparas) para países como os EUA, a Polónia, a Hungria, a França", onde "eram transformados em novos produtos", conta. Por isso, decidiram "diversificar a atividade industrial com a criação de uma indústria granuladora, depois aglomeradora, investigação, desenvolvimento...".

Os produtos e soluções em cortiça "foram surgindo". Hoje, são vendidos em grande escala em pequenas lojas de turismo em Portugal e stands de venda de acessórios, quer para mulheres quer para homens. Surgem na forma de malas, carteiras, brincos, colares, sapatos e pulseiras. "Obviamente que aquilo que queremos é que a cortiça seja mais conhecida, mais reconhecida, mais utilizada em aplicações de valor acrescentado. Ora, aquilo que é importante para que os produtos tenham valor acrescentado é ter design, é ter um visual apelativo, é ter uma imagem de diferenciação. E num país que recebe milhões de visitantes anualmente como Portugal é importante que esses turistas levem algo que é muito português como a cortiça. Portanto, eu diria que tudo contribuiu para um todo: dar a conhecer, divulgar e difundir mais a cortiça", diz o atual CEO, António Rios Amorim.

O futuro, diz, passará por novas aplicações, como nas bases de relvado de campos de futebol, para uma maior durabilidade, mas também pela diferenciação de valor daquelas que já existem. Quem a viu e quem a vê. A cortiça nunca mais foi a mesma, desde que deixou as suas árvores.

Curiosidades sobre a cortiça

1 A cortiça só poder ser retirada de um sobreiro a cada nove anos, prazo estipulado por lei para prevenir que as árvores fiquem danificadas com descortiçamento em excesso. Este processo deve ser feito no final da primavera ou no início do verão. As maiores áreas de floresta onde esta árvore existe estão principalmente concentradas em países do Mediterrâneo Ocidental, como Portugal, Espanha, Itália, França, Marrocos, Tunísia e Argélia.

2 No mercado das rolhas, a Corticeira Amorim é a maior a nível mundial. Toda a matéria-prima em bruto parte de duas unidades, uma em Coruche e outra em Ponte de Sor, ande se faz o armazenamento da mesma, num terreno equivalente a 25 estádios de futebol.

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