Dos drones aos pensos higiénicos, as boas invenções da I Guerra

O conflito de 1914-18 trouxe novas formas de o homem se aniquilar, como o gás mostarda. Mas também foi cenário de criações que melhoraram a vida da humanidade

Sem guerras, a humanidade nunca se teria desenvolvido intelectualmente. Quem o disse foi Christiaan Huygens, físico, astrónomo e inventor holandês, uma das mais brilhantes mentes científicas do século XVII: "Se o homem vivesse toda a sua vida numa contínua paz, sem medo da pobreza, sem o risco da guerra, não duvido de que viveria pouco melhor do que as bestas [animais]", escreveu em 1698. Nesta perspetiva, não é coincidência que o século de maior avanço científico da história tenha sido aquele em que o mundo passou mergulhado em conflitos globais. E se a Guerra Fria motivou, entre outras coisas, a criação da internet, e a II Guerra Mundial foi o berço da informática, não é de menosprezar o impacto da Grande Guerra na ciência e na tecnologia - ou seja, no quotidiano da humanidade.

Ouvir e ver melhor e à distância

A introdução do submarino como arma de guerra, pelos alemães logo desde o início do conflito, obrigou ao desenvolvimento de mecanismos de deteção. E apesar de a ideia de usar microfones subaquáticos para captar os sons refletidos pelos objetos - o princípio do sonar - ter sido primeiro pensada em 1914 pelo canadiano Reginald Fessenden como forma de deteção de icebergues (na sequência do naufrágio do Titanic), foi a necessidade de combater os U-boats que levou ao desenvolvimento desta tecnologia. Em 1918, escreve o historiador americano Erik Sass, a Marinha dos EUA era capaz de detetar um submarino a mais de 40 quilómetros de distância.

Também a estreia do avião como arma de guerra levou à criação de sistemas acústicos de deteção - "ouvir" os seus motores era a única forma de os detetar entre 1917 e 1940, quando o radar tornou este método obsoleto. Estes eram compostos por cornetas ou espelhos parabólicos que concentravam o som do atacante. E porque os princípios envolvidos são os mesmos, estes últimos equipamentos tinham exatamente a mesma forma das antenas de satélite que vemos hoje em cima de alguns prédios.

Mas foi nas telecomunicações que a evolução dos anos 1914-18 mais se notou. Quando a guerra começou, a mais eficaz forma de comunicação à distância era o telegrama. No final, em resposta à necessidade de garantir comunicações com navios, zeppelins e aviões, a transmissão de voz pela rádio será já uma realidade fiável.

Já no campo da ótica, neste período o US Army Signal Corps desenvolveu a fotografia aérea. Do outro lado da barricada, os laboratórios Zeiss - fundados na cidade de Jena em 1846 - inventavam forma de fazer as melhores lentes e objetivas do mundo, utilizadas em binóculos, miras de artilharia, etc. Em junho de 1914, a Zeiss empregava mais de cinco mil pessoas.

Voar sem piloto

É também desta época o primeiro aparelho aéreo sem piloto, o que hoje chamamos drone. O protótipo é de 1916, dos americanos Elmer Sperry e Peter Hewitt. Criaram para a Marinha americana uma "bomba com motor" que se estabilizava por giroscópios e media a sua altura ao solo através de um barómetro. A fraca precisão não justificou o uso em teatro de guerra, mas para a história fica o voo não tripulado que ocorreu em Long Island, a 6 de março de 1918.

Higiene e saúde para um mundo melhor

Sucesso maior tiveram as compressas de celulose criadas em 1914 pela então jovem companhia americana Kimberley-Clark (KC). O Cellucotton, cinco vezes mais absorvente do que o algodão, foi levado pelos EUA para a guerra (em 1917) como compressas e ligaduras. Mas logo "as empreendedoras enfermeiras da Cruz Vermelha começaram usá-las para a sua higiene pessoal", nas palavras da escritora Simone M. Scully, na revista Nautil. O potencial da ideia não passou despercebido à KC, que após o fim da guerra comprou todo o excedente de ligaduras às Forças Armadas e transformou-o nos primeiros pensos higiénicos comerciais, os Kotex.

A empresa não parou o desenvolvimento desta matéria-prima e, em 1924, lançou os primeiros "lenços de papel" a que chamou Kleenex.

Os hospitais de campanha e outros locais que recebiam os feridos da guerra foram enormes laboratórios de ciência aplicada. Por exemplo, são de outubro de 1914 as primeiras máquinas de raios X portáteis (montadas na traseira de camionetas). Tinham o carinhoso nome de Pequenas Curies, em homenagem a Marie.

Foi na guerra que o médico belga Antoine Depage desenvolveu a técnica de debridamento (remoção de tecidos mortos ou infetados para promover a recuperação). E ainda que as armas químicas fossem o (maior) terror das trincheiras, a investigação ao gás mostarda levou à criação da Mostarda Nitrogenada 2 (ou HN2) de onde derivou o primeiro agente de quimioterapia, para tratamento do cancro da próstata.

Entretanto, as milhares de cirurgias realizadas precisaram de quase outras tantas transfusões, mas o normal no início do século era transferir-se o sangue diretamente do dador para o paciente. Isto até 1917, quando o capitão do Exército americano Oswald Robertson, utilizando citrato de sódio como anticoagulante (técnica de 1914 e que ainda hoje se usa) criou o primeiro banco de sangue. E o mundo ficou melhor.

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