A PETA manda tirar o cavalinho da chuva. O PAN aprova

Organização quer acabar com expressões idiomáticas que considera perpetuarem a violência sobre os animais. PAN aprova a iniciativa e deputado André Silva também já usa coloquialismos alternativos

Agora é que a porca torce o rabo! Ou, para usar uma expressão mais 'vegan', está o caldo entornado! A PETA (People for the Ethic Treatment of Animals), organização conhecida pelas suas controversas ações - frequentemente recorrendo a estrelas de Hollywood -, contra o uso de animais para alimentação, vestuário ou diversão humana, decidiu alargar o seu repertório reivindicativo à forma como falamos. Mais concretamente a expressões idiomáticas que usamos no dia-a-dia. Será o lógico passo em frente? Terá posto o carro à frente dos bois? A polémica está instalada nas redes sociais.

Para a PETA, trata-se de evoluir. Na perspetiva desta organização, não basta o que comemos e vestimos. Coloquialismos como "matar dois coelhos de uma cajadada" (to kill two birds with one stone, no equivalente em Inglês) não são inofensivos, "perpetuando a violência sobre os animais", tal como expressões hoje consideradas censuráveis banalizavam o racismo e a xenofobia. E as crianças devem ser ensinadas a utilizar equivalentes inócuos ou versões adaptadas. Por exemplo, sugere, porque não passar a alimentar os coelhos (ou pássaros), em vez de os matar? "As palavras importam e, à medida que a nossa consciência da justiça social evolui, a nossa linguagem evolui com ela", argumenta.

Se o objetivo principal era ganhar notoriedade para as suas causas, a missão está cumprida. Com dezenas de milhares de comentários só na publicação no twitter em que começou a advogar esta "campanha educativa", além de notícias em alguns dos principais títulos da imprensa mundial, do The Guardian ao Washington Post , não se pode de todo afirmar que a montanha tenha parido um rato.

Já em relação à eficácia da mensagem, as coisas não são tão claras. Mesmo entre os mais acérrimos defensores dos direitos dos animais, se há quem aprove incondicionalmente mais esta campanha, também não falta quem considere que não é por aí que o gato vai às filhoses. Que é como quem diz: há questões mais importantes.

E há até quem vá mais longe, afirmando sem rodeios que a iniciativa não vale um caracol e deixa os seus mentores a fazerem figura de urso.

Mas, voltando à vaca fria, será a campanha da PETA uma ingerência em temas que não lhe dizem respeito, uma perda de tempo face a problemas mais sérios? Ou o que dizemos, ainda que de forma inconsciente, não é assim tão inocente como gostamos de pensar? Pela boca morre o peixe?

André Silva, deputado e porta-voz do Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN), admite ao DN ser "natural essa resistência, até algum antagonismo" à ideia de reinventarmos expressões que são usadas há muitas gerações. Mas defende e acompanha a iniciativa da PETA.

"Essas expressões são repetidas no dia-a-dia mas têm origem numa determinada sociedade, com determinados valores e que, se quisermos, têm uma certa visão dos animais", argumenta. "É repetido ao longo dos séculos e, evidentemente as pessoas não dizem isso com carga nenhuma mas, inconscientemente, essa carga está lá. E essa carga é a visão utilitarista dos animais", considera.

"Algumas vou introduzindo no meu vocabulário. Em vez de águas de bacalhau, águas de tremoço"

Mesmo sem planos para lançar uma campanha idêntica em Portugal, André Silva assume que desde há algum tempo, nas suas publicações nas redes sociais, o partido tem tido o cuidado de assumir o "papel pedagógico de ir promovendo a alteração de algumas expressões tradicionais. Algumas delas eu próprio vou começando a introduzir no meu vocabulário", conta.

"Por exemplo", revela, "em vez de 'em águas de bacalhau', dizemos: 'Em águas de tremoço'; em vez dos 'Muitos anos a virar frangos', são 'Muitos anos a virar pimentos'; no lugar de 'Matar dois coelhos de uma cajadada', pomos 'Pregar dois pregos de uma só martelada'; e em vez de 'A galinha da vizinha é mais gorda do que a minha' nós temos 'a relva do vizinho é mais verde do que a minha".

De fora não poderia ficar o "Atirei o pau ao gato", canção que da perspetiva do deputado é particularmente nociva como exemplo para as novas gerações. "É aquela canção que para nós é importante, porque altera a consciência das crianças, promove a tal visão utilitarista dos animais. Na versão do PAN canta-se: "Atirei comida ao gato, mas o gato não comeu".

Valerá a pena o esforço? Diz-se que mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Mas, para André Silva, "mais vale um pássaro a voar do que dois na mão. Lá está", conclui, "remete-nos para a libertação dos animais".

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