Morais Sarmento: "Ponho as mãos no fogo pelo ex-diretor do SEF. Não me lixem"

Almoço com Nuno Morais Sarmento

"No Salsa e Coentros, 13.45, pode ser?" Faltavam duas horas para o encontro quando o telefonema de Nuno Morais Sarmento chegou para confirmar que sempre almoçávamos na quarta-feira. Minutos depois de o advogado e ex-governante chegar já era óbvia a razão da escolha do restaurante no bairro de Alvalade. "Conheço o Duarte há anos. Desde os tempos da Charcutaria antiga, era um miúdo." José Duarte, que dá a cara pelo Salsa e Coentros, é chamado a dar conselho avisado sobre a comida. Morais Sarmento afastou a lista instantaneamente, vai desviando talheres e copos uns milímetros de cada vez, pousa os óculos no meu telefone, que encostou à parede ao seu lado - só quando o dele toca, no bolso, há de dar pelo engano.

Escolhemos o bacalhau dourado (tipo bacalhau à Brás) e a falta de sopa de beldroegas - só há de legumes e para ele "isso não é sopa" - é compensada por umas migas de batata e ovo e uma profusão de entradas: cogumelos, empadas, pimentos, queijo fresco, patê e pão. Despachado o pedido de água e um copo de vinho tinto para cada um - o de Morais Sarmento sempre intocado -, vai contando que muitas vezes, "quando estava na Presidência do Conselho de Ministros e pedia comida para almoçar, era o Duarte que a levava. Dezenas de vezes, almoçámos os dois sozinhos. Ele vibrava, comentava a política... E adorava quando eu fazia uns almoços com amigos - eles entravam e abriam as caixas todas do gabinete à procura do Marques Mendes. Era divertido".

Diz que teve "muitas encarnações". Antes de chegar à sociedade de advogados PLMJ ou à política, foi empregado de mesa, boxeur, trabalhou em cargueiros e cruzeiros. Recém-casado, viveu um ano em São Tomé - "a única África de que gosto mais do que Moçambique" -, para onde foi para recuperar de um acidente de carro e onde ficou a dar ajuda a um dos seus seis irmãos nos Leigos para o Desenvolvimento. Nos últimos dez anos, ainda abriu uma escola de mergulho e reabilitou um hotel no Tofo, Inhambane. Em tudo, houve momentos bons e menos bons, mas admite que é diferente estar no governo: "Temos o poder de decisão. Não há mais nenhum ponto em que se consiga decidir marcando o destino das pessoas. No Hospital de Alcoitão (que gere), sinto que estou a mexer na vida de pessoas, mas é um universo relativamente pequeno." Estar no governo, com Durão Barroso, seu amigo, depois Santana Lopes, "foi engraçado, diverti-me imenso". "Sou mais da escola do Marcelo nisso: acho que tudo tem de ter um lado lúdico. Os portugueses têm sempre aquela culpa que vem de uma certa atrofia católica. A minha mulher ensinou-me que a culpa é a coisa mais estúpida, porque bloqueia o culpado e não adianta um avo ao ofendido."

Filipa, que conheceu aos 14 anos e com quem está casado há quase 30 (têm dois filhos, Francisco e Madalena), há de voltar à conversa, enquanto conta episódios, alguns com 20 anos. Como o passeio pelo Gerês em que subiu uma colina para procurar as ruínas de uma muralha e acabou preso em cima de um arbusto durante horas, até que a dúzia de cabras e bodes que o cercaram se fossem embora. "Heróis há muitos, mas quando nos vemos assim, todos a olhar para mim, a apontar aqueles cornos... quando desci já era de noite. Acabei por não ver a muralha, porque a minha mulher, que estava grávida nessa altura - e que deixei cá em baixo durante horas -, me proibiu de procurar até uma pedrinha no resto da viagem."

Vai picando as entradas, enquanto salta entre aventuras divertidas - pela-se por pegar partidas - e assuntos sérios. As histórias cosidas umas às outras para explicar uma dada reação, predisposição ou decisão. Conta-as de fio a pavio, tal como faz questão de recuar nas dos outros para encontrar o que chama de "traço do desenvolvimento". Essa necessidade de enquadramento e compreensão já o fez estar seis dias no Museu do Cairo - "a guia desistiu, disse que era demasiado lento".

O governo de Santana "tinha rebentado antes de tempo e ninguém estava à espera de que eu voltasse logo ao escritório, por isso aproveitei e estive seis meses a viajar, a percorrer aquelas lonjuras que de outra forma não conseguimos conhecer". Lembrou-se de que podia fazer aquilo de barco - "se me quisesse resumir, diria que tenho o mar nos genes e África no coração" - e procurou a pessoa ideal para lhe explicar como. "Arranjei o número do Gonçalo Cadilhe, que eu não conhecia, e que estava a caminho da Patagónia. Ele disse-me que podia viajar à volta do mundo sem gastar muito dinheiro usando navios mercantes. Arranjou-me o contacto de uma broker que estava em Singapura e trabalhava com companhias de barcos italianas e ela encontrou um porta-contentores da Grimaldi que ia passar em Lisboa e me podia levar." E arrancou assim para costa de África.

O telefone toca meia dúzia de vezes. De cada uma delas repete o processo: olha para o ecrã, procura os óculos, não reconhece o número, espera que desistam. Volta a pousar os óculos. Atende um amigo - "não se importa?" - e retoma a conversa dos tempos em que estava no governo. "Fiquei muito conhecido pela história da RTP (que tutelava e para a qual desenhou a nova estratégia, fortemente criticada por toda a oposição), mas deu-me muito mais gozo o que fiz nas migrações. Quando lá cheguei, o nosso interface dedicado aos imigrantes, a meio milhão de pessoas, era um homem que estava no Palácio Foz com duas secretárias. Eu deixei uma estrutura que ficou até hoje, um modelo que veio a ser utilizado pela União Europeia como exemplo." Não chama a si todos os créditos, sublinha que a concretização do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas "é mérito do padre Vaz Pinto e do Rui Marques", então alto-comissário e comissário adjunto. Mas essa foi a sua grande conquista: "Eram 150 mil pessoas e a minha decisão afetou as suas vidas."

O processo não foi fácil. "Eu queria fazer uma gigantesca Loja do Cidadão para imigrantes, que tivessem ali os serviços todos de que precisavam, a Educação, a Segurança Social, a Saúde; e era preciso meter o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Havia aquelas culturas todas, pessoas muito reticentes, sobretudo na área da segurança... mas acabaram por ser tocados pelas histórias das pessoas e tornaram-se os principais impulsionadores. Aquele Manuel Palos, que foi apanhado neste sarilho dos vistos, fiquei amigo dele para a vida. Foi indicado pelo SEF e eu percebi ao fim de duas reuniões que ele era uma pessoa diferente, tinha qualidade humana."

A chegada do bacalhau pede piripíri - "ou picante, jindungo, sacana de Moçambique" - e José Duarte aproveita para se despedir (um corta-vento para a esplanada do restaurante obriga--o a ir à junta de freguesia). A Morais Sarmento não custa elogiar o ex-diretor nacional do SEF, arguido no caso dos vistos gold acusado de corrupção passiva e prevaricação de titular de cargo político. Não o vê como um criminoso. "Ponho as mãos no fogo por ele, não me lixem." Não é que desconfie que tenha havido crime: "Nunca vi o processo, mas se me perguntasse se acho que aquele homem dos Registos [António Figueiredo] andava a fazer alguma coisa, acho. Tinha ali um negócio montado." Palos é diferente: "A única culpa que tem é ser bom de mais. É daquelas pessoas que estão sozinhas no gabinete e quando o ministro telefona se levantam. Quando lhe dizem para fazer, ele faz. Já lhe apontei isto, já lhe disse que tinha de ter critério, de saber dizer não. Mas ele tem uma cultura muito institucional, se o chefe manda ele não questiona. E sem ele não tinha sido possível fazer aquele trabalho com as comunidades imigrantes."

Pelo trabalho que fez no governo e tendo representado Portugal quando arrancou a Autoridade de Controlo Comum de Schengen, choca-o a reação da Europa à crise dos refugiados. "Esta ideia de confiscar os bens dá-nos os arrepios dos campos de concentração. Estamos a fazer asneiras que podem rebentar com a Europa." Mas o que o deixa realmente incrédulo é que os Estados não tenham agido por antecipação. "As estruturas de comando e controlo tinham de ter a perceção de que isto ia acontecer, quando ia acontecer, em que volume e até a nacionalidade dos refugiados. Os serviços de informação, as redes de segurança e diplomáticas sabiam. António Guterres não devia ter alertado para isto? - e como é que pode aparecer assim, luzidio de bem-estar europeu, nos campos onde estão refugiados escanzelados?! Estes movimentos são seguidos, foram mapeados e os governos avisados. Ninguém fez nada e agora estamos a tomar decisões no olho do furacão."

Os cafés já lá vão e, mesmo sem as nozes caramelizadas que lamenta que já não se encontrem nos restaurantes de Lisboa, Nuno Morais Sarmento não perde balanço. Vai entremeando indignações e paixões, temas sérios e episódios de ir às lágrimas. A visão de José Duarte a entrar, regressado da sua incursão, revela que temos de pôr fim à conversa. É pena: havia muito mais histórias para contar.

Salsa e coentros

- Entradas

- Migas de batata e ovo

- Bacalhau dourado

- Copo de vinho Vinhas Velhas

- Água

- Cafés

Total: 49,45 euros

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