Addio, adieu, auf Wiedersehen, goodbye. E olá, Paulo

Fez isto tantas vezes que já ninguém o crê. Mas diz que é desta - que sai da política e da direção do CDS-PP para não mais voltar

"Não tenho nenhumas ambições políticas, nenhumas. Se há uma coisa definitiva na minha vida e na minha cabeça é essa: gosto imenso de política mas nunca farei política." Foi há 24 anos que Paulo Sacadura Cabral Portas, na sua encarnação como diretor d"O Independente, disse isto. As pessoas mudam, certo. E ele mudou. Muitas vezes. Tantas que dele fica sobretudo o retrato de alguém que, como no título da sua coluna no seu jornal, Antes pelo Contrário.

Não? Façamos uma breve resenha pelos flic-flacs deste filme que é a vida do ainda presidente do CDS-PP e ex-vice-primeiro-ministro, cargo que parece, a quem o conhece bem, ser "o mais alto" que podia alcançar na política partidária. Porque, tendo escolhido o pequeno partido em vez do grande (o PSD, no qual se inscreveu em 1974, aos 12 anos, para sair em 1980), sonhando reverter a relação de forças, terá assim ditado a impossibilidade de algum dia chegar ao que, claramente, almejava: a PM.

Mas a resenha, então. Se aos 29 jurava nunca entrar na política, três anos depois era candidato a deputado sob a liderança de Manuel Monteiro, sua criatura que um ano depois derrota na disputa da liderança. Se em 1995 perguntava que raio iria Cavaco, de quem e de cujos governos foi enquanto jornalista principal inimigo, fazer em Belém, em 2013 garantiria tê-lo sempre apoiado nas candidaturas à presidência (pirueta que em 2015 bisará com o apoio a Marcelo, descrito em 1998 como "filho de Deus e do Diabo"); antieuropeísta e antieuro nos anos 1990, torna-se enquanto governante um submisso aos diktats europeus e à hegemonia alemã para cujo perigo alertara quando da reunificação.

Candidato à Câmara de Lisboa em 2001, garantia nos cartazes "eu fico" (como vereador), para não ficar. Antiaumentos de impostos e antiausteridade até às eleições de 2011 (em entrevista ao DN, em 2009, defendia baixar impostos - "o défice é importante, mas a economia ainda é mais"), autor, em 2012, de uma carta aos militantes do partido jurando opor-se a mais agravamentos fiscais, assinou o recorde da subida de impostos em 2013; defensor irredutível dos pensionistas em setembro de 2012, nem um ai se lhe ouviu nos dois anos seguintes quanto aos cortes sucessivos nas reformas. Defensor em 2011, num debate frente a Passos, de um governo de direita mesmo que nenhum dos dois partidos fosse o mais votado, denuncia Costa como "o usurpador" em 2015 por fazer o que preconizara.

E, claro, há o episódio irrevogável: a carta na qual em 2013 se demite do governo assumindo que ficar será "um ato de dissimulação". E fica. Como em 2005 dissera, ao abandonar a direção do partido devido ao péssimo resultado nas legislativas, que era de vez. Não foi.

"A palavra não é irrevogável, é imprevisível", diz Ribeiro e Castro, o homem que o substituiu na liderança do CDS-PP em 2005 para a perder para ele em 2007 e que tem sido um dos seus maiores críticos internos. "Não sei se cumprirá ou não. Nada está escrito." De uma coisa, porém, está certo: mesmo que saia não conseguirá deixar de querer continuar a mandar: "Como fez n"O Independente, com os resultados que se conhecem." Mas, se sair mesmo, será para fazer o quê? Comentário político na TV, como sucedeu em 1997 e entre 2005 e 2007, ocupando, desta vez, o lugar deixado vago por Marcelo? "Vai ter ene convites com certeza", comenta a amiga e correligionária Teresa Caeiro. "Mas talvez queira agora durante uns tempos ter um bocadinho de oxigénio. Acho que se calhar nem ele sabe o que vai fazer. Deve ter meditado muitíssimo sobre a decisão, mas não creio que tenha pensado logo no que ia fazer a seguir." E o que gostaria de o ver fazer? Reflete: "Ele sempre disse que gostaria de escrever o argumento de um filme. Ou talvez um livro... É multifacetado, caleidoscópico. Qualquer coisa que decida fazer vai fazer bem. Já teve muitas vidas e foi bem-sucedido em todas." Muitas vidas como os gatos que, dizem, aterram sempre de pé.

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