Sonda da NASA chega à última fronteira na madrugada do novo ano

No primeiro dia de 2019, a nave vai passar junto a Ultima Thule, um pequeno astro misterioso, muito para lá de Plutão. Nunca antes uma sonda terrestre foi tão longe para observar um astro - é a História a acontecer em direto

O primeiro dia do novo ano será de muita azáfama para a NASA. E é logo às primeiras badaladas que tudo se joga para a sonda New Horizons, que se prepara - uma vez mais - para fazer História e bater um novo recorde absoluto.

As últimas correções de trajetória já foram feitas e os dados estão lançados. O encontro imediato entre a New Horizons e Ultime Thule, nome que significa "para além do mundo conhecido", está marcado para os primeiros minutos do dia 1 de janeiro, hora na costa leste dos Estados Unidos (mais cinco horas em Lisboa).

À velocidade vertiginosa de 14 Km/s, ou quilómetros por segundo (perto de 50 mil quilómetros do hora), e se tudo correr como previsto, a sonda sobrevoará aquele pequeno e misterioso mundo na cintura de Kuiper, na fronteira do sistema solar, passando a uma distância de 3500 quilómetros da sua superfície, para recolher dados e imagens sobre ele.

Depois das revelações que fez sobre Plutão, há três anos, a nave vai agora olhar de perto Ultima Thule, que se tornará assim o astro mais longínquo de sempre - está a 6,5 mil milhões de quilómetros de distância do Sol - a ser visitado por uma nave terrestre.

Com 30 quilómetros de diâmetro, Ultima Thule é um pequeno objeto, quando comparado com Plutão, o maior dos mundos conhecidos naquela região dos sistema solar. Mas os mistérios e segredos que o pequeno astro guarda - e que estão prestes a ser desvendados, pelo menos em parte - tornam-no fascinante e muito promissor.

Dois corpos de cor avermelhada

As observações feitas, ainda de longe, mostram que ele tem uma forma irregular, e que, muito provavelmente, é constituído por dois corpos que num passado já muito distante se juntaram. Há, no entanto, uma remota possibilidade de constituírem um sistema binário, de dois corpos orbitando-se mutuamente, segundo a NASA. A New Horizons tiará as teimas.

Mas essa não será a única novidade a vir lá de longe, com as observações da New Horizons. Os responsáveis da missão esperam conseguir descobrir também como é a sua superfície, identificando e caracterizando as suas crateras, bem como o tipo de solo.

"Sabemos que Ultima Thule tem uma cor avermelhada, o que resulta provavelmente da exposição de hidrocarbonetos à luz do Sol durante milhares de milhões de anos", explica a NASA, que espera confirmar - ou não - essa possibilidade.

Outra resposta que os cientistas querem obter tem a ver com a hipótese de Ultima Thule ter luas. Terá? Não terá? Neste momento não se sabe, mas o primeiro dia do ano há de trazer novidades também a esse respeito

São muitas perguntas a que a New Horizons terá de responder, mas esta será também uma missão espinhosa, já que o ambiente naquela zona de fronteira do sistema solar é feito sobretudo de penumbra, com apenas 0,05% de luz solar a chegar até lá, em comparação com a que chega até à Terra.

É por isso que, para além dos instrumentos óticos, como um supertelescópio com câmara digital, capaz de obter imagens de grande precisão naquele ambiente hostil, que a nave está equipada com uma série de instrumentos, como radares e sensores para medir a temperatura e a pressão atmosférica, recolher dados de geologia e química e analisar poeiras, entre outros.

"Saber alguma coisa sobre os tipos de gelo que ali estão preservados poderá dar-nos alguma informação sobre a química que existia na zona mais externa da nebulosa solar, quando os planetas estavam a formar-se", esclarece Jeffrey Moore, um dos coordenadores da equipa da New Horizons, citado na Science News.

De boa saúde, a caminho do alvo

A última correção de rota da nave, para garantir a precisão do sobrevoo e a sincronia perfeita da recolha dos dados, foi feita este domingo, a partir do centro de controlo em terra, instalado no Laboratório de Física Aplicada da Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Depois da proeza sem precedentes que foi a visita a Plutão, em 14 Julho de 2015, a New Horizons prepara-se agora para deixar uma nova e importante pegada na exploração do sistema solar.

Em plena contagem decrescente para o histórico rendez-vous, o ânimo da equipa que opera a nave não podia ser mais positivo. "A nave está essencialmente de boa saúde e nós estamos muito entusiasmados", afirmou Alice Bowman, a chefe de operações no centro de controlo, em conferência de imprensa

À partida, tudo parece conjugar-se para que a passagem da sonda por Ultima Thule seja um êxito. Se isso acontecer, tal como já afirmou Alan Stern, o responsável científico da New Horizons, abre-se a possibilidade de ela continuar no ativo pelo menos até 2021, para visitar ainda outro objeto na cintura de Kuiper. Mas isso já serão outros voos. Para já, o alvo é Ultima Thule - e está quase, quase.

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