Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia. Podem homens casados ser padres?

O Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, que começa este domingo no Vaticano, abordará os problemas ambientais da Amazónia, nomeadamente as consequências da exploração da floresta e dos recursos hídricos, mas também a ordenação sacerdotal de homens casados.

Bispos católicos de todo o mundo estão reunidos no Vaticano para discutir o futuro da Igreja na Amazónia. Nas próximas três semanas, cerca de 260 participantes falarão sobre mudanças climáticas, migração e evangelismo. E um tópico que pode significar uma mudança: podem homens casados tornar-se padres? Um dos pontos do documento de trabalho - o instrumentum laboris - contém a sugestão de que em partes remotas da Amazónia, homens mais velhos, casados, sejam ordenados.

Devido à falta de religiosos nas áreas da Amazónia, o documento de trabalho para o Sínodo Especial dos Bispos de 2019, divulgado em junho, aborda o tema dos "novos ministérios" para responder às necessidades dos povos amazónicos, admitindo a ordenação sacerdotal de homens casados. Afirmando que o celibato é um dom da Igreja, o documento solicita, no entanto, que em áreas mais remotas seja estudada a possibilidade de ordenação sacerdotal de idosos, preferencialmente indígenas, respeitados e aceites pela sua comunidade, mesmo que tenham uma família constituída e estável.

O objetivo desta proposta em debate é assegurar os sacramentos que acompanham e sustentam a vida cristã.

Para os mais tradicionalistas, esta é uma questão que leva a questionar a direção que o Papa Francisco está a tomar. O cardeal alemão Walter Brandmueller terá afirmado, segundo a BBC, que o Sínodo da Amazónia poderia marcar "a autodestruição da Igreja".

Alguns críticos consideram a ideia de permitir que padres casados na Amazónia seja um pretexto para abolir o celibato como uma exigência. Também suspeitam da sugestão de que o sínodo possa "identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres" e que possa marcar o início da ordenação para mulheres.

Maior papel para as mulheres

O documento defende um maior papel para as mulheres na Amazónia. "É solicitado o reforço do papel dos leigos, e especialmente das mulheres, cuja presença nem sempre é levada em conta de forma adequada", segundo o documento, que sugere mais envolvimento das mulheres na área da formação, especialmente em teologia, catecismo, liturgia e escola de fé.

"Solicita-se que as vozes das mulheres sejam ouvidas, que sejam consultadas e participem na tomada de decisões para que assim possam contribuir com a sua sensibilidade à sinodalidade eclesial", lê-se no documento.

Recentemente a associação internacional de mulheres católicas Vozes de Fé criticou o facto de as religiosas não terem direito ao voto nos Sínodos dos Bispos, denunciando que, nos dois últimos sínodos, o direito ao voto foi estendido, além dos bispos, aos religiosos, mas não às religiosas".

Porém, estas "superam em número os irmãos em todo o mundo" e as madres superiores "têm o mesmo estatuto canónico dos superiores masculinos".

Modelos económicos e biodiversidade

O Papa celebrará hoje uma missa que assinala a abertura do Sínodo. Esta assembleia de bispos, convocada pelo Papa Francisco e que decorre até ao dia 27, vai refletir sobre o tema "Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral", procurando responder às "injustiças" nesta região, que se estende por nove países da América do Sul, mas que é considerada vital para o resto do planeta, de acordo com o documento preparatório do sínodo.

O Sínodo dos Bispos é uma reunião de todo o episcopado católico em torno de um tema urgente para a Igreja e que, entre outros objetivos, visa promover o diálogo da instituição cristã com o povo do mundo inteiro, através de seus bispos.

No documento preparatório do sínodo, divulgado em fevereiro, o Vaticano explicava que a Igreja é chamada "a responder a situações de injustiça na região, como o neocolonialismo das indústrias extrativas, projetos de infraestrutura com danos para a biodiversidade e a imposição de modelos culturais e económicos aos povos locais".

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