Porto Editora volta atrás e faz livros unissexo para crianças

Um ano após a grande polémica sobre "os livros para raparigas e rapazes" e depois de afirmar que não eram discriminatórios, a empresa fez nova edição, cedendo à recomendação da Comissão para a Igualdade, que tinha acusado de censura.

"Afinal a Porto Editora sempre acabou por fazer a coisa certa... Já não há diferenças para meninas e rapazes. Há livros para crianças!"

A frase é de Cláudia Matos Morgado, no Facebook, em comentário à fotografia da capa de um livro da Porto Editora na qual se veem uma menina a saltar agarrada a um papagaio e um rapaz a exibir uma paleta de aguarelas, com uma série de objetos coloridos -- um foguetão, uma bola de futebol, uma lâmpada, uma boia, um carro, um pião -- rodeando o título Bloco de Atividades dos 4 aos 6 anos.

Cláudia Matos Morgado, 35 anos, farmacêutica e residente em Coimbra, foi a autora do post de Facebook que em agosto de 2017 lançou a polémica "dos livros da Porto Editora" - a qual incluiu uma recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género à editora para que retirasse os livros por "reforçarem a segregação de género e os estereótipos de género, além de apresentarem uma diferenciação do grau de dificuldade", devendo "adotar-se apenas um bloco de atividades para crianças dos quatro aos seis anos para que todas possam praticar os exercícios de igual forma."

"Afinal a Porto Editora sempre acabou por fazer a coisa certa... Já não há diferenças para meninas e rapazes. Há livros para crianças!"

A CIG alegou ainda que o facto de existir um caderno "para meninas" e outro "para rapazes" reforça a segregação de género, "contrariando o princípio de igualdade de oportunidades independentemente do sexo a que se pertence."

As reações da editora foram, recorde-se, contraditórias: começou por anunciar que ia retirar os livros do mercado; depois, quando uma série de comentadores atacaram a recomendação da CIG, apelidando-a de "censura" e refutando a existência de discriminação nos cadernos, assumiu essa linha de argumentação. E um mês depois das primeiras notícias e de ser conhecida a posição da CIG, fez um comunicado em que afirmava que o seu "conselho editorial", cuja composição não foi divulgada, tinha analisado os cadernos e concluíra não consubstanciarem qualquer discriminação, pelo que ia continuar a vendê-los.

"Acusaram-me de promover a censura"

Agora, passado um ano, a editora parece ter mudado de novo de opinião (o DN não conseguiu obter esclarecimento da empresa até este momento), acatando a recomendação da CIG. Cláudia Matos Morgado descobriu o facto por acaso, como da outra vez.

"Tirei as fotos aos cadernos em 2017 porque tenho filhos, uma rapariga e um rapaz - um tinha quase sete e a outra seis - e estava à procura de livros para eles na FNAC em Coimbra. E deparei-me com aqueles dois cadernos. Peguei neles e o que me chocou nem foi serem rosa e azul - até porque em casa tenho muitas coisas rosa e azul para distinguir o que é de um e de outra --, foi ter começado a folhear e reparar na diferença de dificuldade entre os exercícios para raparigas e rapazes. E por isso fotografei e partilhei as páginas. Para mim foi bastante óbvio que havia diferença. Não achei que fosse propositado - mas considero que numa editora como aquela não há justificação para terem deixado passar aquilo. Foi isso que me escandalizou. Tirei duas ou três fotos às páginas e publiquei no Facebook. Não selecionei para causar polémica, nem sonhei que tivesse o impacto que teve. As fotos estão mal tiradas e tudo. Estava longe de prever a proporção que aquilo ia ter."

acabei por ter pessoas a acusar-me de ter feito de propósito, não estava minimamente preparada para estar na origem de uma coisa deste género. A nível pessoal foi uma grande perturbação da minha vida pessoal a acusarem-me de ser eu a promover a censura em Portugal."

Mas o post viralizou." Ri. "Quando vi as pessoas a indignarem-se fiquei contente, confesso, foi com gosto que vi a população portuguesa a movimentar-se. Achamos sempre que não podemos mudar o mundo; foi interessante ver esse impacto e movimentação social. Mas acabei por ter pessoas a acusar-me de ter feito de propósito, e não estava minimamente preparada para estar na origem de uma coisa deste género. A nível pessoal foi uma grande perturbação da minha vida pessoal ter gente a acusar-me de promover a censura em Portugal."

"Um passo em direção a um futuro melhor"

Mas a pressão e os ataques não a levaram nem a mudar de ideias nem a calar-se. Um ano depois, continua a elogiar a CIG: "Não estava minimamente à espera de que houvesse um órgão nacional que tomasse posição sobre o assunto, mas achei que foi uma posição muito bem tomada, explicando os seus fundamentos. E concordei com a recomendação de retirada, até porque se ofereciam para ajudar a editora a fazer um produto mais igualitário."

Atualmente a trabalhar numa empresa de tecnologia, e numa aplicação que "permita aos pais tirarem dúvidas sobre o sono das crianças", Cláudia considera que a educação das crianças é uma responsabilidade de toda a sociedade e não só dos pais. E defendeu isso mesmo numa Ted Talk no final de 2017, na qual contou a sua experiência com o caso da Porto Editora e visão sobre a educação para a igualdade: "Não foi para me desculpar nem pouco mais ou menos, foi para dizer que mensagem queria passar."

"Confesso que fiquei orgulhosa. Andaram para cá, andaram para lá e acabaram por fazer a coisa certa. Devemos ficar todos orgulhosos com isso. É um grão de areia -mas é um passinho em direção a um futuro melhor."

A polémica passou, o tempo também. Cláudia achou que "da parte da Porto Editora não haveria mais novidades". Quando voltou, como de costume, à FNAC com os miúdos, durante as férias, para ver as novidades editoriais na secção infantil, não esperava ter esta boa surpresa. "Percebi que havia uma reedição dos blocos de exercícios numa versão mais equilibrada, com meninas e meninos." Folheou, achou que desta vez não havia reparos a fazer, fotografou a capa e postou no Facebook.

Até agora, o post, da semana passada e já com bastantes partilhas, não suscitou notícias. Antes de o DN ter contactado (ontem, segunda-feira) a CIG, esta nem tinha ainda visto a nova edição dos cadernos de exercícios sem segregação de género.

Após analisar a nova publicação, a CIG, em resposta escrita, "congratula-se com a nova publicação para crianças da Porto Editora cujo título, Bloco de Atividades - Dos 4 aos 6 anos, torna este material igualmente dirigido a meninas e a meninos." Esclarece ainda que, "tal como se havia comprometido desde o início, colaborou com a equipa da Porto Editora na elaboração dos conteúdos desta nova publicação - no sentido de desconstruir estereótipos de género baseados numa divisão do papel social de mulheres e homens que perpetua assimetrias e discriminação com base no sexo - privilegiando-se a transmissão de imagens e mensagens promotoras de igualdade entre meninas e meninos."

Cláudia faz coro com a comissão: "Confesso que fiquei orgulhosa. Andaram para cá, andaram para lá e acabaram por fazer a coisa certa. Devemos ficar todos orgulhosos com isso. É um grão de areia -mas é um passinho em direção a um futuro melhor."

Nota: texto alterado às14.30, com a reação da CIG.

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