Morreu há 333 anos, foi encontrado há 15 e agora foi batizado

Quando o navio La Belle foi encontrado na costa do Texas não surgiram apenas canhões e a carga própria para uma missão organizada pelo rei Luís XIV: havia um esqueleto com o cérebro ainda dentro do crânio. Quem seria o passageiro?

Há 15 anos, várias centenas de pessoas foram a um estranho funeral no cemitério de Austin, no Texas, para enterrar um desconhecido que morreu em 1686. Chamavam-lhe Bob, mas só agora é que o verdadeiro nome poderá ser colocado na lápide, depois de ser possível fazer a reconstrução do seu passado através do ADN.

De quem era o esqueleto coberto de perceves que estava no navio La Belle, que se afundou na costa do Texas em 1686, é a grande pergunta a que cientistas norte-americanos do Museu Bullock da História do Estado do Texas tentam responder. Segundo o jornal espanhol El País , sabe-se que é de um europeu que embarcou na localidade francesa de La Rochelle e até se conhece o dia em que pôs o pé na embarcação - 24 de julho de 1864 -, na companhia de três centenas de homens e mulheres que tinham como destino a América.

Também se sabe que essa frota de quatro navios fazia parte de uma missão que o rei Luís XIV organizara para se estabelecer uma colónia francesa no Golfo do México, com o objetivo de observar a atividade das minas espanholas de prata e preparar uma invasão.

Ainda se sabe que a frota era comandada pelo explorador francês Robert Cavelier e que foram muito poucos os que regressaram com vida, pois todos os navios afundaram. O La Belle foi o último a naufragar, devido a uma tempestade, quando Cavelier tentava regressar a França - antes foi morto pela tripulação que se amotinara - e dentro do qual estava o "famoso" Bob. Os outros três navios não tiveram melhor sorte; o Saint-François foi atacado por corsários e nem chegou ao destino. O Aimable encalhou na costa do Texas e só o Joly voltou ao porto de origem, com a tripulação que sobreviveu.

Bob foi um dos que morreu e em 1995 o seu esqueleto foi descoberto na baía texana de Matagorda quase por acaso. É que os dispositivos de um barco da Comissão Histórica do Texas observou um desvio magnético nos seus aparelhos e após a busca de vários mergulhadores, o La Belle foi encontrado em muito bom estado, bem como os objetos metálicos que deram a conhecer a lua localização, como um canhão de bronze, entre milhares de artefactos.

Como a profundidade era pouca, edificaram uma barreira à volta do La Belle, bombearam a água do mar e puseram à vista a embarcação e todo o equipamento que trazia para edificar a colónia a mando do rei. Entre várias armas, crucifixos, barris de vinho, estava um esqueleto sobre a proa, cujo crânio continha ainda o cérebro de quem veio a chamar-se Bob.

Se a maioria dos marinheiros tinham o nome numa lista oficial francesa que os identificava, este esqueleto manteve-se anónimo e o seu nome nunca foi encontrado. Até que uma cientista forense analisou uma amostra de ADN da tíbia que surpreendeu pelos resultados: era de um passageiro clandestino. A partir dessa descoberta, a grande questão resumia-se a como entrara no navio?

Foi então que a leitura do diário de bordo de um dos soldados de Cavelier, Henri Joutel, que conseguiu regressar a França, parecia resolver o mistério ao confirmar que existia na tripulação um indígena: Nika. No entanto, o mistério ainda ficou mais difícil de resolver, porque se o cromossoma Y desse alegado indígena é frequente entre os índios Karankawa também o é entre 80% das populações do litoral atlântico da Catalunha, do País Basco, de Gales, da Irlanda e das Terras Altas da Escócia.

A análise forense do indígena, a leitura do diário de Joutel e a lei que protege os restos mortais dos nativos americanos, obrigaram os cientistas a procurar uma saída para a identificação definitiva do esqueleto de Bob, e o próximo passo vai ser comparar o seu ADN com prováveis descendentes em França e Espanha. Mas uma coisa já é certa para a equipa, terá mesmo vindo do outro lado do Atlântico, tinha cerca de 40 anos e media 1,60.

De posse de todas estas informações, os cientistas decidiram dar de imediato o nome correto a Bob, o que se pensa que teria, e já foi rebatizado como Barangé, nome frequente na região atlântica das costas referidas após confirmação através do ADN de que tinha um perfil europeu. Ou seja, depois do funeral do esqueleto realizado em 2004, irá ser inscrito na lápide que está na sua campa o nome Barangé em vez do simples Bob.

Feitas as contas, 333 anos após a sua morte, o passageiro clandestino deixe de ser um mero Bob e ganha o nome de Baragé, com um pedigree europeu.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG