Medicamento usado para doença do coração será também terapia para o Alzheimer

Durante um ano uma equipa de investigadores do Centro Nacional de Investigações Cardiovasculares (CNIC), em Madrid, testou em ratos a ação direta de um anticoagulante oral e descobriu que este poderá atrasar o aparecimento da doença de Alzheimer.

Investigadores espanhóis descobriram que um medicamento já comercializado para doenças cardiovascular também pode atrasar o aparecimento da doença de Alzheimer. Até ao momento, o fármaco só foi testado em ratos, mas o sucesso dos resultados deixa a esperança de se ir mais além. Ou seja, se for testado em humanos, o medicamento poderá ajudar a manter os dois órgãos mais importantes saudáveis, o coração e o cérebro.

Segundo noticia o jornal espanhol El Mundo, trata-se de um medicamento com a substância ativa Dabigatran, um anticoagulante oral de ação direta que ao fim de 12 meses de tratamento demonstrou conseguir reduzir a inflamação cerebral, danos vasculares e depósitos de peptídeos amilóides, que são sinais característicos da doença de Alzheimer. Uma conclusão que está descrita num artigo publicado recentemente no Journal of the American College of Cardiology (JACC).

Nos últimos anos, alguns estudos em ratos apontaram precisamente que os vasos sanguíneos que nutrem o cérebro podem ser afetados pela mesma proteína que danifica as artérias que vão para o coração. Por esse motivo, as células cerebrais não recebem o oxigénio e os nutrientes necessários e morrem.

Uma das investigadoras Marta Cortés Canteli, hoje nos Estados Unidos a fazer o um segundo pós-doutoramento na Rockefeller University, em Nova York, explicou: "Começámos a estudar o aumento da trombose como um dos fatores cruciais no desenvolvimento da doença de Alzheimer".

Um dos estudos foi publicado na revista Neuron em 2010. Num outro trabalho, "descobrimos que em mais de 50% das amostras de ratos-domésticos com Alzheimer havia uma grande quantidade de uma proteína muito característica dos coágulos sanguíneos que normalmente não entrariam no sangue".

Tudo isto abriu uma porta para começar a trabalhar no tratamento da doença de Alzheimer a partir do campo vascular, especificamente com a ajuda de um medicamento anticoagulante.

Alguns grupos de pesquisa experimentaram os clássicos, que afetam várias proteínas, e "nós [do CNIC e em colaboração com a Universidade Rockefeller de Nova York] optámos por uma ação direta porque envolve menos efeitos colaterais", explica outro investigador, do CNIC, Miguel Servet.

Devido ao envelhecimento progressivo da população, estima-se que o número de pessoas que sofrem da doença de Alzheimer triplicará no ano de 2050. Atualmente, este tipo de demência afeta mais de 30 milhões de pessoas em todo o mundo.

Especialistas dizem que a cada três segundos ocorre um novo caso e, infelizmente, os tratamentos aprovados até o momento apenas ajudam temporariamente os problemas de memória, mas não conseguem impedir ou reverter os danos.

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