Maria de Lurdes Rodrigues: "Praxes devem ser condenadas e combatidas"

A reitora do ISCTE fala das praxes e de como a sua instituição lida com elas. Acérrima opositora da prática, acabou por ter de compreender o fenómeno, mas continua a não aceitá-lo.

Como é que vê as praxes, do ponto de vista da reitoria?
Como reitora, considero que tenho a responsabilidade de deixar claro o que penso sobre as praxes: são práticas e rituais de humilhação que devem ser condenadas, que nada têm que ver com os valores da universidade.

Acha que devia haver uma legislação sobre o assunto que permitisse aos reitores tomar uma posição com mais "legalidade"?
Como reitora, para afirmar a minha opinião sobre as praxes não necessito de qualquer legislação especial. Para condenar publicamente tais práticas e para as proibir nas instalações da universidade também não é necessária legislação especial.

A sua opinião mudou desde que assumiu o cargo?
A minha opinião não mudou desde que assumi o cargo. Estou, hoje, mais confrontada com a exigência de compreender por que razão uma parte dos jovens adere voluntariamente à praxe, confrontada com a exigência de encontrar alternativas de acolhimento para os jovens que preferem a liberdade à humilhação, confrontada com a exigência de não fugir ao diálogo com os jovens estudantes aderentes das praxes, para os convencer que os seus rituais são contrários aos valores da liberdade e da autonomia e, portanto, da universidade.

Qual acha que possa ser o efeito das praxes na socialização dos jovens? Bom e mau...
Os jovens estudantes que defendem e praticam as praxes no ISCTE dizem-me que o efeito na sua formação é positivo. Não consigo compreender como pode a praxe ter um efeito positivo, pelas razões que já referi. No passado também se acreditava que bater nas crianças para corrigir os seus comportamentos era bom para a sua formação. Hoje sabemos que não. Praxar jovens estudantes ou bater em crianças são para mim práticas igualmente erradas. Não posso aceitar nem uma nem outra.

Quais são as regras no Iscte?
As praxes são proibidas no interior do campus do ISCTE. Em alternativa, desde há alguns anos que os directores das escolas, os professores e estudantes mais velhos, promovem um programa designado IULcome com iniciativas de acolhimento e actividades de voluntariado que se prolongam por uma semana.

Se pudesse proibia as praxes?
Não sei se as praxes podem ou devem ser proibidas, mas sei que podem ser combatidas. Muitas das práticas e rituais das praxes já são proibidas por lei, algumas configuram mesmo crime quando praticadas no espaço público. Não são necessárias mais proibições, é apenas necessário atuar sempre que as praxes ultrapassem os limites da legalidade. Apraxes são rituais de humilhação e de submissão, são práticas violentas, brutais, que apelam ao que existe de pior em todos nós. Os estudantes defensores das praxes argumentam que estas os preparam para a vida futura de trabalho em organizações burocráticas que exigem disciplina e capacidade de aceitação de regras e de obediência. Estes argumentos baseiam-se numa visão dessa vida futura na qual a liberdade, a autonomia, a democracia e, sobretudo, a capacidade de resistência a poderes autoritários e discricionários não existem. Ora, a universidade deve, justamente, transmitir aos jovens aqueles valores, que são o contrário daqueles em que assentam as praxes. Por essa razão, considero que, por parte das autoridades e instituições académicas, não pode haver equívocos. Nós precisamos de compreender por que razão um número significativo de estudantes adere voluntariamente às praxes. Mas compreender não pode significar aceitar. Devemos compreender para responder às expectativas de integração dos jovens estudantes que chegam pela primeira vez às instituições do ensino superior, oferecendo iniciativas que valorizem a sua dignidade.

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