Mais dez dias de ondas de calor por ano. Assim será o clima daqui para a frente

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Mais dez dias de ondas de calor por ano. Assim será o clima daqui para a frente

Os especialistas uniram-se para analisar o país e responder localmente aos efeitos das alterações climáticas. Mas o calor, cada vez mais uma preocupação e causa de mortes, "ainda não faz parte das agendas", alertam.

Os termómetros vão subir já a partir desta quarta-feira acima dos 30 graus em quase todo o país. Lisboa, Leiria e Setúbal vão mesmo estar sob aviso amarelo nos próximos dias e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera informa que "os valores previstos da temperatura máxima estão cerca de 10°C acima do valor médio para o mês de maio".

O calor, cada vez mais frequente e intenso, levou a que na capital e no Porto já tenham sido criadas equipas para elaborar um plano de resposta para os efeitos das alterações climáticas a nível local. De acordo com o Plano Metropolitano de Adaptação às Alterações Climáticas (PMAAC), cujas conclusões só serão conhecidas na íntegra no final deste ano, a partir de 2020 os dias de ondas de calor devem aumentar entre 9 a 10 na Área Metropolitana de Lisboa (AML). Até 2100, podem mesmo já ter aumentado entre 12 a 23 dias. O DN falou com a comissão técnica por detrás deste relatório para saber, afinal, o que se pode esperar do clima em Portugal nos próximos anos

O verão ainda não começou e já várias semanas se passaram com o país a atingir estes números, num inverno e primavera que lançaram o alerta de seca em Portugal. As meias estações já não são o que eram, o calor que conhecíamos também não e os especialistas garantem que a tendência veio para ficar. E tem trazido consequências nefastas.

​Só na capital, desde a viragem do milénio até 2018 registaram-se 361 eventos extremos relacionados com as temperaturas elevadas, sendo os incêndios aqueles que surgem em maior número (quase 350), seguidos do aumento da morbilidade e mortalidade. E desde há décadas que os números estão a mudar. Entre 1971 e 2016, a AML sofreu uma subida das ondas de calor (mais 0,5 a 0,8 por década) e da sua duração (mais 2,5 e 3,5 dias por década). A partir daqui, a corpo técnico do Plano Metropolitano acredita que continue a aumentar.

"Mas são só projeções, porque não fazemos estimativas", frisa João Tiago Carapau, engenheiro agrónomo e um dos membros da Comissão Técnica de Gestão do Plano. No final deste mês, o meteorologista Tyler Roys alertava, através do site AccuWeather, que Portugal seria um dos países europeus a registar temperaturas históricas, já neste verão. Apontava para dias seguidos acima dos 43 graus Celsius. Mas João Tiago Carapau deixa a nota: "fazer previsões acima de dez dias, do ponto de vista técnico-científico, é quase futurologia". "O clima é um fenómeno com grande grau de incerteza. Portanto, nós trabalhamos com base em projeções e não com base em probabilidades ou estimativas", explica.

"Naquelas ondas de 2003, o número de mortes foi alto não só por parte do perigo, mas porque estávamos mal preparados"

Mas a verdade é que estas projeções têm mesmo sido "validadas com o passar do tempo". O aquecimento global, conta, "tem disso validado e até tem excedido aquilo que os modelos nos têm mostrado nos últimos 40 anos". Portugal é, à semelhança de um relatório da Comissão Europeia deste ano, "uma das áreas da Europa mais vulneráveis às alterações climáticas".

E já não é "só o facto de haver calor extremo, mas também de este ser cada vez mais frequente e duradouro", alerta João Vasconcelos, outro dos elementos do corpo técnico que está por detrás deste plano metropolitano, em Lisboa. "A própria estrutura do calor está a mudar e só isto já nos deveria deixar preocupados."

Foi com todas estas preocupações em mente que, no início do ano passado, uma equipa de geógrafos, climatólogos, engenheiros, economistas e profissionais da área da saúde se uniram para analisar o passado e o presente, ao mesmo tempo que propõem um futuro. Segundo Carlos Humberto, primeiro-secretário da Comissão Executiva Metropolitana de Lisboa, "são medidas que pressupõem o envolvimento de várias entidades", partindo do nível local para o nacional. "O Ministério da Saúde tem um papel importante, mas também as autarquias", nomeadamente "no planeamento de território, na construção de mais zonas verdes, de adaptação do urbanismo às necessidades", explica. No Porto, também se trabalha sobre o mesmo objetivo e já há vários planos municipais. Contudo, a conclusão dos planos só será conhecida em novembro deste ano.

Ondas de calor refere-se ao período de pelo menos seis dias em que a temperatura máxima de todos eles é superior em 5ºC ao valor médio das temperaturas máximas diárias no período de referência (30 anos)

Analisar o país, de lés a lés

A equipa de João Tiago Carapau e João Vasconcelos não se ficou pela área metropolitana de Lisboa, embora seja esse o foco do seu trabalho. Estiveram em outros locais, como Viseu e Alentejo Central. O que concluíram é que, "em todos eles, de forma diferente, as ondas de calor vão aumentar", conta João Tiago.

E importa saber que as ondas de calor não são os dias mais quentes do ano, mas sim o período de pelo menos seis dias em que a temperatura máxima de todos eles é superior em 5ºC ao valor médio das temperaturas máximas diárias no período de referência. Sendo que o período de referência são sempre 30 anos. "Porque dizer que está calor é falar do tempo. Mas para dizermos que há um aquecimento, falando do clima, temos de validar com período de 30 anos", explica o engenheiro agrónomo.

"Quando existem ondas de calor, o número de mortes aumenta". Em 1981, registaram-se 1900 óbitos. Dez anos depois, foram mil. Em 2003, chegou mesmo aos 1953 e em 2013 registaram-se 1684 óbitos.

E falar de ondas de calor é lembrar duas franjas da sociedade mais vulneráveis: os idosos e as crianças. Porque "quando existem ondas de calor, o número de mortes aumenta", alerta.

Segundo um relatório do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge, nas últimas ondas de calor de 1981, 1991, 2003 e 2013, registou-se sempre um excesso de mortalidade acima dos mil óbitos. Em 1981, registaram-se 1900 óbitos. Dez anos depois, foram mil. Em 2003, chegou mesmo aos 1953 e em 2013 registaram-se 1684 óbitos. Esta relação entre a mortalidade e as ondas de calor é calculada tendo por comparação o número de óbitos esperados num determinado período e o excedente.

João Vasconcelos esclarece que "muito poucos casos é de morte direta, mas sim por agravamento de outras doenças a partir do calor", embora não levante dúvidas: "o calor mata". "Naquelas ondas de 2003, o número de mortes foi alto não só por parte do perigo, mas porque estávamos mal preparados", recorda. "Morreu muita gente que se veio a descobrir que eram pessoas idosas que viviam num sótão. E isto fez-nos pensar: não é só o facto de haver calor, a população de alguma forma mudou, os idosos vivem mais sozinhos do que antes e sem condições (para adaptação ao calor). Abre-se logo aqui a janela da vulnerabilidade", explica.

A forma como preparamos as nossas casas é tão ou mais importante do que o calor exterior.

E os idosos são os mais suscetíveis a sofrer com os excessos do clima. Muito devido ao que João Vasconcelos, responsável pela área da saúde humana no Plano Metropolitano, explica ser uma deficiência no hipotálamo. "O sensor ao calor todos temos (a pele), mas a forma como o cérebro processo é que é diferente de pessoa para pessoa. E, nos idosos, esta coisa que é o hipotálamo (que faz a ligação entre a sensação e o desconforto) não funciona muito bem. Por isso, naturalmente, pode estar muito calor, mas não conseguirão adaptar-se a ele porque não o sentem como nós." Por isso, não procurarão defender-se do calor com a mesma facilidade com que as faixas etárias mais resistentes farão, como beber água, recorrer a vestuário mais fresco e leve, ou mesmo procurar zonas de sombra. Os números expostos nas taxas de mortalidade pelo calor não são por ligação direta, por "desmaio" devido ao abafamento, mas sim por agudização de um estado de saúde mais débil, explica o especialista.

Mas lembra como a idade não é o único fator de vulnerabilidade. A forma como preparamos as nossas casas, diz, é tão ou mais importante do que o calor exterior. Segundo dados do INE, que João Vasconcelos faz questão de recordar, na Área Metropolitana de Lisboa, em 2011, 87% das casas não tinha ar condicionado. "E as pessoas dirão 'eu não necessito de ar condicionado, porque protejo a casa de outra forma'. Mas durante um período extremo, ter ar condicionado é o mesmo que estar próximo de uma fonte de água à qual nos podemos socorrer. Não ter é uma fragilidade", alerta.

Um outro aspeto de defesa é "o comportamento", da sociedade em geral, mas principalmente das entidades competentes pela monitorização da população. "Muitas delas dizem que concordam connosco (sobre as estratégias de prevenção), mas que isto é da competência da Direção-Geral de Saúde (DGS) e do Ministério da Saúde. Não é. A necessidade de sombreamento nas escolas ou de jardins (por exemplo) não é competência da DGS", reitera. A monitorização da população vulnerável, faz questão de frisar, "depende de cada freguesia saber que tem áreas ou franjas de pessoas mais frágeis - através dos centros de saúde, GNR, etc. Atores que, embora lhes interesse o panorama nacional, trabalham localmente". A saúde, como diz, "não é exclusiva do Ministério da Saúde e, embora a resposta da DGS à urgência esteja bem pensada, o que falta mesmo é a prevenção". "Se formos ao hospital, o médico vai tratar-nos bem, mas a razão que nos levou a ir ao hospital é que tem de ser trabalhada. Ainda estamos muito expostos ao calor."

O engenheiro agrónomo João Tiago Carapau não tem dúvidas de que Portugal viverá num clima "cada vez mais agressivo", mas admite que o país ainda está apenas "numa fase de consciência" e "tentar perceber como é que se pode responder a isto". Contudo, garante que a solução passa por olhar para um "problema global" através da "ação local".

O que propõem

Desde o início de 2018 que esta comissão técnica tem trabalhado junto dos municípios, a fim de elaborarem respostas práticas para o dia-a-dia. Organizam workshops e despoletam campanhas de sensibilização. Quanto às medidas a serem aplicadas em cada município, essas só serão conhecidas no final deste ano, assim que concluído o documento. Mas João Tiago Carapau e João Vasconcelos adiantam algumas propostas que deixaram em cima da mesa.

As soluções físicas têm de ser ponderadas e "a lógica do sombreamento é muito importante", sublinha João Tiago Carapau. "Os agentes públicos e locais devem promover a arborização e não cortar árvores (muitas vezes destruídas pela sujidade que causam nas ruas ou porque incomodam exatamente onde estão). Mas deve perceber-se que as árvores têm um papel fundamental, principalmente nestas épocas."

Além das campanhas de sensibilização, nas alturas de maior calor, propõem uma maior monitorização da população. João Vasconcelos dá um exemplo que já está em prática: a Guarda Nacional Republicana tem o Programa de Apoio 65 - Idoso em Segurança, com pelo menos uma equipa por destacamento designada para este serviço, através do qual os agentes se dirigem à porta dos idosos da localidade para alertar sobre determinados cuidados a ter. Entre outras coisas, aconselham sobre como se protegerem para os maiores períodos de calor e também em caso de incêndio. "Mas (este serviço) ainda não está massificado o suficiente", lamenta João Tiago.

"O calor ainda não faz parte das agendas (locais)"

João Vasconcelos concorda e acrescenta até que este trabalho deveria ser intercalado com outras entidades, como os centros de saúde e até o pároco da zona. "Nós propúnhamos que houvesse um fórum onde todos os atores locais tenham reuniões periódicas. E não é difícil, porque isso já existe para a Proteção Civil, há fóruns municipais. Mas o calor ainda não faz parte das agendas."

O investigador lembra a importância do acompanhamento por parte dos centros de saúde, através dos médicos de família. "Em 2018, tínhamos quase 472 mil pessoas na Área Metropolitana de Lisboa sem médico de família. E, sem isso, aquela necessidade que uma pessoa tem de monitorização e que ajuda à prevenção está fragilizada."

Ainda que considere que há um longo caminho a percorrer, está otimista quanto à receção dos agentes locais às propostas. "Há uma predisposição, mas agora falta encarar isto como um desígnio nacional em vez de apenas uma conversa de circunstância", frisa. "A mensagem fundamental é que isto não é um processo a curto prazo, é um processo a médio e longo prazo. A partir de 2020, há que comunicar e há que trabalhar junto da população."

A partir desta terça-feira, e até dia 31 de maio, Lisboa recebe a 4.ª edição do European Climate Change Adaptation (ECCA 2019), no Centro Cultural de Belém, onde vários especialistas internacionais divulgarão propostas para adaptação às alterações climáticas. É a primeira vez que este evento é realizado numa cidade do sul da Europa - tendo, em anos anteriores, sido acolhido em Hamburgo, Copenhaga e Glasgow. A capital portuguesa foi eleita pela Comissão Europeia para ser a anfitriã deste ano.

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