Filipe era um ótimo aluno. Um rapaz popular, que costumava estar rodeado de amigos. Numa noite de verão, e porque não cabiam todos num carro, decidiu ir a casa buscar a moto para ir até ao Museu dos Presuntos, no Porto. Foi no dia 9 de julho de 1998. "Tinha 17 anos quando teve o acidente e sofreu um traumatismo cranioencefálico (TCE) gravíssimo. Ficou 15 dias em coma profundo. Os médicos diziam que não ia sobreviver, mas eu tinha esperança", recorda a mãe. Passados 20 anos, Clarisse Pinto sorri para falar sobre o renascer do filho: "Foi um milagre, um êxito." E Pipa, como é carinhosamente tratado pela mãe, confirma: "Não esperavam que estivesse como estou. Tive muita sorte, porque levava capacete.".Marcamos encontro na Junta de Freguesia de Ramalde, no Porto, onde Filipe trabalha na área administrativa há cerca de dez anos. Até chegar aí, recorda Clarisse, o caminho foi longo. "Esteve um ano em estado vegetativo. As perspetivas eram negras." Mas a família nunca desistiu. "O cérebro é como um computador. Há células que se desligaram, mas umas podem fazer o trabalho das outras. Falávamos muito com ele, tentávamos estimulá-lo de todas as maneiras." Um ano e dois meses depois, Pipa começou "a despertar, a emitir alguns sons". E a esperança dos familiares e amigos na sua recuperação ia aumentando. Como a lesão cerebral lhe afetou o lado direito do corpo, teve de ser submetido a onze cirurgias. Passou mais de três anos numa cadeira de rodas. Mas "reaprendeu a andar, a falar, a comer"..Filipe não tem qualquer memória do acidente, nem dos dois anos anteriores. "Lembro-me de estar numa cama, no Hospital da Prelada, com as mãos e as pernas dobradas", conta. Naqueles anos, lembra mãe, a família não teve qualquer apoio psicológico. Já em 2010, a irmã viu na televisão que existe uma associação - a Novamente - que apoia traumatizados cranioencefálicos e as suas famílias. Após alguns contactos, a família acabou por impulsionar a extensão da estrutura para o norte do país. Hoje, a associação desenvolve trabalho em Cascais, Lisboa, Porto e Vila Nova de Gaia e apoia, em média, 400 famílias anualmente, das quais 200 de forma mais intensa..Por ano, estima-se que existam seis mil traumatismos cranianos em Portugal, dos quais cerca de um terço são graves a muito graves. Em muitos casos, as famílias sentem-se desorientadas, pelo que uma das áreas de atuação da Novamente é na prevenção dos problemas que os cuidadores podem vir a ter, fornecendo apoio jurídico, emocional e social. Vê, por exemplo, se há seguros a acionar, empréstimos para tratar, e quais as respostas que o Estado disponibiliza.."Quando recebemos um telefonema a dizer que o nosso marido ou filho sofreu um acidente e está a lutar pela vida, a nossa vida fica em suspenso", diz Vera Bonvalot, diretora da associação, destacando que a família é apoiada ao longo dos anos. Existem grupos de pares para doentes e cuidadores, workshops temáticos, projetos de inserção profissional. E, anualmente, a Novamente organiza um encontro com os representantes das várias entidades que lidam com o TCE, que se realiza nesta segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, para discutir o que está a ser feito e o que é preciso fazer na área do dano cerebral adquirido.."Ficou tudo virado de pernas para o ar".As quedas são a causa mais frequente do TCE, seguidas de acidentes de viação, de desporto e agressões. Foi precisamente uma queda que transformou a vida de António Maria. Marcamos encontro com o jovem no Clube de Ténis do Porto, onde treina padel há vários meses. "É o maior", diz-nos Diogo Vilaça, o treinador, enquanto lança as bolas para o jovem, que responde com precisão. A mãe, Teresa Sousa Tavares, não tem dúvidas: "Foi um autêntico milagre. Tem algumas limitações, mas é perfeitamente autónomo.".António sofreu um TCE em 2011, na sequência de uma queda, quando se encontrava a frequentar o quarto ano do curso de Engenharia Civil. "Estava na noite, em Lisboa. Com uma cerveja a mais, pendurou-se num camião do lixo. Quando o condutor percebeu que estavam pessoas atrás, travou. O António caiu, bateu com a cabeça e teve uma hemorragia interna", recorda a mãe..António esteve mais de uma semana em coma induzido. Quando acordou, "não falava, não comia, não andava, não conhecia ninguém". "A nossa vida mudou radicalmente. Ficou tudo virado de pernas para o ar." Ainda em Lisboa, Teresa soube da existência da Novamente, que começou por lhe dar um livro, no qual explicava o que era a doença e como se devia preparar para o futuro. "Sei-me mexer, mas a associação apoia-me em tudo. A formação para cuidadores, por exemplo, é muito útil para troca de informações." Já o António reúne-se semanalmente com outras pessoas que passaram por um TCE para discutir temas sob a orientação de neuropsicólogos..Dois anos após o acidente, Teresa viu-se obrigada a deixar de trabalhar. "A vida modifica-se completamente. Como trabalhava por conta própria, vendi o que tinha para ficar a 100% com ele." Segundo o estudo "Impacto sociofamiliar do traumatismo crânio encefálico", publicado em 2014 pela Novamente, quatro meses após o acidente, 56% dos cuidadores informais estão desempregados..Teresa não tem dúvidas de que António é um caso de sucesso. Depois de fazer um curso cognitivo, conta-nos o próprio, voltou à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto "para fazer um estágio no arquivo". É monitor num campo de férias de crianças, e descobriu entretanto a paixão pelo padel. Mas ainda não abandonou a ideia de concluir os estudos. "Passa-me pela cabeça. Ainda nesta semana disse a uma colega que estava a pensar retomar", conta pausadamente ao DN..Na casa da família Sousa Tavares, aprenderam a viver "um dia de cada vez", sempre com fé. "É ela que nos tem ajudado a ultrapassar tudo o que aconteceu." Tal como na casa de Filipe. "Nunca perdi a fé nem nunca me revoltei. E tenho de agradecer o apoio da família e dos amigos. Os médicos dizem que 98% da recuperação se deve à família", afirma Clarisse.."Histórias de amor extraordinárias".Histórias como as de António e Filipe são, como diz Vera Bonvalot, "histórias de amor extraordinárias". De pessoas que regressam à vida "depois de terem estado muito tempo fora de jogo". Embora não tenha ficado com sequelas, a diretora da Novamente também sofreu um traumatismo cranioencefálico, quase há 20 anos, após um acidente de carro. "Não tenho qualquer memória do que aconteceu", indica..Nesta segunda-feira, a associação volta a reunir numa mesa-redonda representantes de vários órgãos da saúde: da secretaria de Estado da Saúde, da Direção-Geral da Saúde, do Instituto de Reabilitação Social, do Instituto Nacional de Reabilitação, entre muitos outros. Está confirmada, ainda, a participação de três especialistas de Espanha e da Dinamarca, que irão partilhar as experiências desenvolvidas nos seus países na área do dano cerebral adquirido: Jaume Morera Guitart (responsável pelo plano governamental da nova estratégia de tratamento à reintegração do dano cerebral adquirido em valência); Morten Lorenzen (presidente da federação dinamarquesa de apoio às vítimas e famílias de quem sofre dano cerebral adquirido); e Luciano Fernández Pintor (presidente de Fedace, responsável pela negociação da aplicação da estratégia de valência para toda a Espanha).