"Sistema alimentar deve ser lucrativo com ética laboral e ambiental"

"Produzir comida nutritiva através de métodos ambientalmente sustentáveis e distribuir a riqueza gerada de forma justa por todos" é a tese de Corinna Hawkes, investigadora que veio a Lisboa falar sobre o desafio alimentar, na quarta edição da iniciativa da Missão Continente.

É preciso redesenhar o sistema alimentar de modo a ser uma aliança entre saúde, ambiente e economia. Foi com este desafio em mente que Corinna Hawkes, diretora do Centre for Food Policy da Universidade de Londres, e a sua equipa desenvolveram o estudo "Connecting food systems for co-benefits: how can food systems combine diet-related health with environmental and economic policy goals?".

O relatório encomendado pela Presidência do Conselho da União Europeia foi apresentado nesta semana na quarta conferência Portugal Saudável, uma iniciativa da Missão Continente que agrega todos os projetos de responsabilidade social e de desenvolvimento sustentável do Continente. O debate centrou-se nos temas ligados a alimentação, saúde e sustentabilidade e realizou-se no Capitólio, em Lisboa.

"Num sistema alimentar ideal, os agricultores, empreendedores, pequenas e médias empresas e grandes organizações geram emprego e distribuem eticamente a riqueza que produzem, não só entre si mas localmente e pela economia nacional", defendeu a investigadora.

Este ideal pressupõe um setor económico vibrante que gera postos de trabalho e riqueza distribuída de forma justa e equitativa. Como? "Produzindo e vendendo comida nutritiva, que é a parte central do sistema alimentar", responde. "Em vez de produzirmos comida cheia de açúcar e sal, devíamos produzir comida nutritiva, a um preço acessível, recorrendo a uma força de trabalho que é paga de forma justa."

E mais: usando métodos ambientalmente sustentáveis que protegem a biodiversidade, os solos e o ar que respiramos. Métodos que reduzam o desperdício alimentar, a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera e garantam altos níveis de bem-estar para os animais, sintetiza o estudo.

Para chegar a esta visão do sistema alimentar, Corinna Hawkes acredita na importância de beneficiar todas as partes interessadas, dos vários setores económicos aos governos e às comunidades. Isto para produzir uma mudança profunda num sistema que não funciona como gostaríamos.

"A indústria alimentar é um setor económico muito forte. Quando produzimos comida estamos a afetar a natureza, o ambiente, a biodiversidade." Mas o sistema tanto é fonte de problemas como gera oportunidade para a economia, a saúde e o ambiente. Se produzirmos bem, teremos um impacte positivo no planeta e na coesão social.

"A comida pode contribuir para atingir todos os Objetivos do Milénio definidos pelas Nações Unidas", defendeu a oradora convidada, acrescentando que "o desafio é saber como". É que, explicou, as conexões no sistema alimentar são imensas, bem como os intervenientes, e é inevitável que os conflitos entre a sustentabilidade da saúde e a economia aconteçam.

Uma das soluções passa pelas medidas fiscais lançadas pelos governos com impacto no setor agroalimentar por igual, para que todos funcionem com as mesmas regras. Como reduzir o consumo de bebidas açucaradas, por exemplo? Corinna Hawkes sugere a introdução de impostos do lado da produção industrial.

Do lixo para a mesa

A falar sobre desperdício alimentar esteve Ruth Osborne, fundadora da Retired Hen e embaixadora do ReTaste (Estocolmo). "Um negócio sustentável deve ser rentável", disse a empreendedora, para quem "os consumidores têm um enorme poder porque "o que consumimos determina o que será produzido e distribuído."

Contou que a sua equipa na Retired Hen trabalha no terreno a produzir a mudança localmente. Por exemplo, junto de grandes supermercados em Estocolmo - que, por lei, têm de pagar para se desfazerem do desperdício -, ajuda a aproveitar o que iria para o lixo. Reutilizam o que sobra para produzir novos produtos que sejam vendáveis. De lixo, os produtos sofrem um upgrade para gerarem receitas. No âmbito do movimento ReTaste, que também opera na capital da Suécia, conceberam um menu inteiro com desperdício de dois supermercados locais. "Foi um desafio para os chefs, que criaram pratos deliciosos a partir de restos. Aprendemos que o desperdício tem imenso valor." Por fim, partilhou um projeto de storytelling, ferramenta que considera ser a chave para produzir mudanças profundas. A iniciativa vai decorrer em Estocolmo, no próximo mês de junho, e chama-se Zero Waste Week (Semana do Desperdício Zero).

Saúde em todas as políticas

Guilherme Duarte, adjunto da secretária de Estado da Saúde, abriu a quarta edição da conferência, que juntou diversas figuras da política, do ensino, da saúde, do retalho e da sociedade. Falou da "Saúde em todas as políticas", uma estratégia da Europa desde 2006 que quer incluir considerações no âmbito da saúde na própria formulação de políticas dos diferentes setores, mas que influenciam diretamente a saúde.

O responsável defendeu que o valor da saúde deve estar presente em todas as políticas, não só nas da área da saúde como nos transportes, na agricultura, no comércio ou na habitação.

"Saúde em todas as políticas" é também a missão da Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável implementada por sete ministérios deste governo, preocupados em promover bons hábitos alimentares e prevenir as doenças crónicas.

Conversas à roda da alimentação

O encontro terminou com um alargado painel de especialistas, que trouxeram a sua visão da cadeia alimentar, desde a origem dos produtos à sua distribuição.

A conversa, moderada por Catarina Furtado, embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População e fundadora e presidente da associação sem fins lucrativos Corações com Coroa, procurou ajudar a população portuguesa a melhorar a sua alimentação, bem como o seu estilo de vida. A falar da origem dos produtos esteve Carla Simões, da Frutalvor, e Henrique Gomes, da Biofrade. No tema da cozinha, ouvimos os conselhos de duas chefes, uma sénior e outra júnior - Maria Manuel, vencedora do Júnior Masterchef.

Como trazer a alimentação saudável às nossas vidas? Os apresentadores de televisão João Manzarra e Isabel Silva, bem como Sónia Morais Santos, jornalista e blogger, partilharam os seus hábitos alimentares e estilos de vida.

João Ramos, do programa da RTP Diga Doutor, e Helena Real, secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição, deixaram conselhos e dicas para o dia-a-dia. E ainda falaram Ondina Afonso, presidente da Comissão Alimentar do EuroCommerce, e Ana Alves, diretora comercial de Marcas Próprias Continente.

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