Este verão "tem a assinatura das alterações climáticas"

Ondas de calor potenciadas por secas no norte da Europa, recordes de temperatura um pouco por todo o lado. Isto é o planeta com mais um grau de temperatura média. Como será com dois graus a mais?

Ondas de calor intensas e incêndios na Escandinávia e na Grécia, o Reino Unido dias a fio com temperaturas acima da média para a época e sem um pingo de chuva em junho, tradicionalmente, ali, o mês mais chuvoso, Portugal sem verão digno desse nome. E, noutras regiões do hemisfério norte, idênticos desacertos: recordes de temperatura em Toronto, no Canadá, no Japão, na Argélia... a lista impressiona de tão longa, e deixa uma certeza: as alterações climáticas já moram aqui.

Na prática, quase todo o hemisfério norte, tanto na Eurásia, como na América, está nesta altura com temperaturas acima da média. "São muitos recordes juntos", nota Francisco Ferreira, professor e investigador da Universidade Nova de Lisboa, e presidente da associação ambientalista Zero. "Não se pode individualizar cada uma destas situações e falar de alterações climáticas, mas quando se olha para todas em conjunto, as campainhas soam", diz. "O que estamos a observar está em linha com os piores cenários traçados pelos modelos climáticos".

Ricardo Trigo, que lidera o grupo de climatologia do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, também não tem dúvidas de que se está perante "a assinatura das alterações climáticas". Ondas de calor e secas, "sempre houve", sublinha, mas "isto já inclui alguma assinatura das alterações climáticas, porque a sua maior frequência e magnitude é compatível com aquilo que os modelos indicam com grande fiabilidade nos últimos dez anos", garante.

As secas e ondas de calor tornaram-se mais frequentes e mais intensas ao longo dos últimos anos e isso é exatamente o que os modelos já previam há dez anos, quando se lhes introduzia os dados das emissões de gases com efeito de estufa.

A maior frequência e magnitude das secas e ondas de calor é compatível com o que os modelos indicam com grande fiabilidade nos últimos dez anos


E se é assim agora, numa altura em que a temperatura média do planeta já ganhou mais um grau Célcius em relação à era pré-industrial - em Portugal, já é mais de um grau, e no norte da Europa já vai em 2,5 - "como será quando esse aumento for de dois graus?", questiona-se Francisco Ferreira.

O que se sabe de ciência certa é que as temperaturas mais altas potenciam e amplificam os fenómenos meteorológicos extremos, e daí se observar já o seu aumento, concordam todos os especialistas. Um deles é Pedro Miranda, também investigador do Instituto Dom Luiz, da Universidade de Lisboa. "Isto é o resultado de um mundo que está a aquecer", diz. Na prática, "verifica-se o que os modelos têm previsto, com anos sucessivos, na última década, a bater recordes de temperatura média, e com o aumento dos fenómenos extremos, como estes".

Para o futuro, os modelos estimam que tudo isto se agrave. Em 2050, diz por sua vez Ricardo Trigo, ondas de calor como a de 2003 - o chamado verão que veio do futuro - que deixou um rasto de milhares de mortos na Europa, "poderão ocorrer a cada cinco ou dez anos".

Norte da Europa em onda de calor

Na Europa, este verão em quase tudo atípico, com o norte da Europa a suar de calor e a enfrentar incêndios inéditos, como acontece na Suécia, e a Península Ibérica com temperaturas frescas e uma nebulosidade teimosa, a origem da situação está na "circulação atmosférica, que não é a habitual para esta época do ano", explica ao DN Ricardo Trigo.

"Normalmente, no verão o anticiclone dos Açores está ligeiramente mais para norte, sobre o oceano, e um pouco mais junto da Europa, mas esta situação tem estado profundamente alterada nas últimas semanas", conta o especialista, sublinhando que "um anticiclone de bloqueio se tem mantido parado, muito para norte, e tem impedido que as depressões que vêm do Atlântico cheguem à Europa", nas latitudes do Reino Unido ou mais para norte, como é usual acontecer.

Resultado: há cerca de dois meses que não chove no Reino Unido e na Escandinávia, e com as temperaturas ali anormalmente elevadas, aumenta também de forma inédita o risco de incêndio - na Suécia os fogos florestais não têm dado tréguas.

Em contrapartida, a Portugal continua a chegar nebulosidade que vem do mar. "As depressões continuam a atravessar o Atlântico, e quando chegam perto do Reino Unido, nesta situação, são empurradas para aqui para a Península Ibérica", explica Ricardo Trigo.

A dar uma ajuda a tudo isto, as correntes de jato, os ventos atmosféricos que correm de Oeste para Leste e que são determinantes para as condições meteorológicas na Europa, estão também nesta altura mais a Norte do que é habitual, e enfraquecidos, o que contribui para que os padrões deste verão europeu anómalo se vão mantendo, dia após dia.

Já a situação na Grécia, com uma onda de calor e uma secura prolongada de semanas, que desembocou nos incêndios devastadores às portas de Atenas, que já causaram pelo menos 74 mortos, não decorre deste mecanismo específico que afeta a frente europeia atlântica." Ali, a onda de calor, que deverá, aliás, abrandar nos próximos dias, "é causada por ar quente continental, vindo do nordeste", adianta Ricardo Trigo.

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