Alunos do IADE revolucionam grafismo da edição do DN deste sábado

Na semana em que cumpre meio século, o IADE instalou-se na redação do centenário Diário de Notícias. Uma enorme aula prática que está hoje nas bancas.

No primeiro dia parecia uma visita de estudo. No segundo dia começaram a tomar o pulso ao trabalho dos designers gráficos e dos jornalistas. Depois começaram a criar e a desenhar as páginas. Treze alunos do curso de Design e quatro professores do IADE trocaram as salas do edifício da D. Carlos I, onde habita a escola de artes e design, pela redação do Diário de Notícias, em Lisboa. Nos 50 anos da primeira escola de design portuguesa, um mergulho na realidade.

"Já tivemos alguns trabalhos de editorial, mas nada desta dimensão. Aqui temos regras. Nos projetos da faculdade conseguimos variar mais os estilos. Aqui temos de garantir que mantemos a identidade da marca. Temos algumas limitações que não temos na faculdade", diz Madalena, aluna do 2.º ano do curso de Design do IADE. Com o grupo de estudantes dos segundos e terceiros anos estão quatro professores e o diretor da instituição, desde 2017 integrada na Universidade Europeia, Carlos Rosa.

O trabalho começou com uma reunião com os responsáveis da direção editorial e da direção de arte do Diário de Notícias, a partir do qual foi definido um "estilo". Apesar das regras da linha gráfica do DN, que não podem ser quebradas - e que foram enquadradas pelo diretor de arte Pedro Fernandes e pela sua equipa -, a professora Sónia André acredita que os jovens conseguem, ainda assim, dar azo à sua criatividade: "Independentemente das regras, eles conseguem ser criativos e há sempre uma margem. É esse o desafio."

Para Alexandre Magalhães, professor de Design e Multimédia, é a margem de erro que faz toda a diferença: "Na escola nós proporcionamos o erro, eles podem errar para conhecer e melhorar, aqui não podem fazer experiências. Têm de começar e terminar."


Ferreira Fernandes confessa que a direção do DN "não sabia exatamente" no que ia resultar este encontro das duas instituições. "Mas o que vimos desde logo é algo assinalável nos dias de hoje no jornalismo: um conjunto de jovens interessadíssimos, empolgados por estarem a fazer um jornal, que é uma coisa tão bonita que deveria ocorrer todos os dias do ano em todos os jornais", diz o diretor do DN.

O que liga o IADE e o DN, além do gosto pelos jornais, é José Maria Ribeirinho, que foi aluno da escola de artes entre 1971 e 1973 e diretor de arte do periódico entre 1988 e 2004. "O IADE, é um instituto de design, uma forma de aplicação da imagem nos jornais, o IADE tem 50 anos e temos um ponto comum: o José Maria Ribeirinho, um homem do IADE, que foi um grande nome no desenho do Diário de Notícias", refere Ferreira Fernandes. Ganhou centenas de prémios de design com o DN, enfatiza Carlos Rosa, garantindo que Ribeirinho tem acompanhado os trabalhos que estão a ser desenvolvidos na redação para esta edição.

O IADE foi fundado em 1969 por António Quadros, que conheceu os responsáveis por uma escola de artes e design espanhola durante um cruzeiro à Rússia. Quadros, intelectual e funcionário das bibliotecas da Fundação Gulbenkian, convidou os grandes mestres da pintura e da arquitetura e abriu o IADE - então Instituto de Arte e Decoração - no Palácio Quintela, na Rua do Alecrim. O dia do IADE assinala-se a 21 de março, data da morte do fundador.

Além do grafismo de toda a edição impressa do caderno principal do DN, o IADE está também presente no suplemento 1864, nesta semana dedicado ao design, com vários textos de professores da instituição, e uma marca no grafismo da capa do suplemento.

Ferreira Fernandes já viu algum trabalho dos estudantes nas páginas do jornal: "Fiquei encantado com as páginas, espero que nos inspiremos nessas páginas e sobretudo espero que esta iniciativa venha trazer outros cruzamentos, outros Ribeirinhos, que se encontrem no Diário de Notícias", referiu.


E há uma semente que já foi lançada no IADE. Durante anos, a escola teve um centro editorial bastante ativo, com edição de uma revista de design e publicações de docentes, que entretanto estacou. Mas a atividade editorial vai regressar, garantem os professores Alexandre e Sónia. Há um jornal e uma revista na calha. Além disso, a escola investiu num laboratório de serigrafia e tipografia, onde quer privilegiar as artes gráficas tradicionais, como explicou ao DN o diretor Carlos Rosa, durante uma visita à instituição.

Para esta sexta-feira está guardada a tarefa que mais preocupa professores e alunos: o grafismo da primeira página do jornal. Já houve uma conversa inicial sobre os conteúdos, mas até ao fecho muito pode acontecer. "Vai ser mesmo na última hora, vai ser difícil prever", admite o professor Alexandre. Carlos Rosa diz que este é um dos grandes desafios em relação a outras colaborações que o IADE fez com outras empresas. "É um jornal, tem de acontecer. A relação do tempo com a criatividade, a dose da criatividade à medida que o tempo avança vai reduzindo também, porque isto tem de ir para o mercado", diz, confiante no resultado final.

"A primeira página do Diário de Notícias vai ser mesmo trabalhada em conjunto. A ideia inicial saiu já de uma discussão inicial que tivemos com os desenhadores, mas eu vou pagar para ver. Vou comprar o jornal no sábado para ver porque quero senti-lo em papel", garante Ferreira Fernandes, o diretor do jornal.

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