A mulher de 50 anos "fica acabada"? Ainda há "padrões diferentes", diz Júlio Machado Vaz

O escritor Yann Moix disse que não era capaz de amar uma mulher de 50 anos. A frase rompeu fronteiras, provocou reações indignadas e incendiou redes sociais, nomeadamente em Portugal. Mas porquê? O psiquiatra Júlio Machado Vaz ajuda a explicar.

Yann Moix. Quantos portugueses conheciam até ontem este nome? Poucos, decerto. Em França, é importante. Escreveu dez romances e um livro de poesia, ganhou um Prémio Goncourt (o mais importante prémio literário francês), realizou filmes, entre os quais um documentário sobre Calais, apresenta um programa de televisão e tem 50 anos.

Numa entrevista à revista Marie Claire deste mês, a propósito do seu último romance, Rompre, disse que não seria capaz de amar uma mulher de 50 anos. Talvez quando tivesse 60 conseguisse. Agora não. Preferia corpos de 25, que são «extraordinários», ao contrário do que são, aos seus olhos, os que têm o dobro da idade. [isto apesar de, na mesma entrevista, uma resposta antes, ter elogiado Fanny Ardant, 69 anos, «extraordinariamente bela»].

As redes sociais incendiaram-se e os jornais foram atrás. O fogo começou em França e alastrou-se a outros países, nomeadamente Portugal, onde, apesar de poucos saberem quem é Yann Moix, caiu mal que o homem dissesse assim que, quando se trata de mulheres, só tem olhos para as de 25. De tal forma que o escândalo esteve mano a mano, nas manchetes online e nas redes sociais, com a polémica comunicação telefónica entre o Presidente da República e Cristina Ferreira em direto na SIC e a recente inclinação de Manuel Luís Goucha para convidados fascistas e neonazis.

Mas porque uma afirmação destas incomoda tanta gente e ganha esta importância e repercussão? A idade é o novo grande tabu? E se ele tivesse dito que só gostava de homens? Ou que só gostava de mulheres com mais de 50, porque as miúdas eram invisíveis para ele? O que se passa? Melindramo-nos demasiado? Ou lidamos mal com o envelhecimento, sobretudo das mulheres? O aspeto físico continua a ser a forma mais eficaz de estas se tornarem visíveis (sim, um dos contra-ataques foi mostrar como há mulheres bonitas e desejáveis, e por isso visíveis, com mais de 50)? É o olhar masculino que as valida? O amor, o desejo e o sexo têm prazo de validade?

O psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz, co-autor com Inês Meneses do programa O Amor É, na Antena 1, ajuda a responder a algumas destas perguntas

Antes de mais, diz, o «caso resulta de vivermos tempos de reação em cadeia. O homem disse uma coisa idiota, contra o politicamente correto, e em vez de o ignorarmos, damos-lhe um megafone, ao reagirmos exageradamente.» Mas, e este é um mas enorme, a questão é que «ao dizer uma coisa destas, o tipo está a tocar numa ferida que ainda sangra», diz o psiquiatra.

«Não se iluda, há muita gente a pensar assim, homens e mulheres, o que mostra que continua a ser muito na arena do aspeto físico que a mulher é avaliada. Dizem que sou pessimista e estou desatualizado quando falo no duplo padrão, mas este caso, infelizmente, é a prova de que este continua a existir. Persistem padrões diferentes para homens e mulheres».

Padrões que ditam que uma mulher (não estrela de cinema) a partir dos cinquenta, a não ser que cuide bem do aspeto físico, começa a «ficar acabada», a «perder valor de mercado», expressões menos utilizadas no masculino. Isto tem importância porque, diz Júlio Machado Vaz, somos cada vez mais os maiores de 50 e de 60 e de 70. «À quantidade de vida é essencial acrescentar qualidade de vida. O problema é este: o peso da idade está a mudar, há hoje muito mais gente, depois dos sessenta, a ter uma vida sexual ativa e muito satisfatória ou a refazer a vida amorosa, mas parece que ainda não caiu a ficha a esta sociedade que não nos ensina a envelhecer, ensina-nos a fingir que não somos velhos».

Talvez esteja na altura de aprender. E de deixar de procurar validação no olhar do outro. Seja homem ou mulher.

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