Fugiram para Portugal em busca de um sonho, acabaram na prostituição

Ervi, 17 anos, da Nigéria, entrou em Portugal pela mão de um amigo de infância. Ele disse-lhe: "Vens para a Europa, arranjo-te um emprego e vais conseguir dinheiro suficiente para ti e para a tua família". Com ela vieram outras seis raparigas. Acabou espancada e forçada a prostituir-se em bares e nas ruas.

Ervi é uma das vítimas de tráfico de seres humanos com quem Cláudia Pedra se cruzou. Especialista em direitos humanos, diretora da Associação de Estudos Estratégicos e Internacionais (NSIS -Network of Strategic and International Studies), concluiu, através dos estudos que realizou, que 60 % das vítimas conhecia bem o traficante: era familiar ou amigo da família, a pessoa com quem namorava ou com quem era casada.

É autora de dois textos do livro "Tráfico de Seres Humanos, Testemunhos e Documentos", editado pela Cáritas Portuguesa, com a coordenação de António Silva Soares. E que será apresentado esta quinta-feira, às 18.00, no Espaço Santa Catarina da Junta de Freguesia da Misericórdia, em Lisboa.

Explica Cláudia Pedra que Ervi - nome fictício como o de toda os testemunhos do livro - acabou acompanhada por uma Organização Não Governamental (ONG) mas não é a sorte de muitas outras vítimas, uma maioria e que acaba por nunca denunciar o traficante, "com o terror de que faça mal a elas ou à família". E, segundo estudos internacionais, 50 % das vítimas voltam a ser traficados.

A Safira, também da Nigéria, tinha 15 anos quando chegou a Portugal, vinha acompanhada de uma irmã, de 17. Perdeu-se-lhe o rasto. Foi um tio que convenceu os pais a deixá-las vir. Muitas vezes são vendidas pelas famílias mas também é verdade que muitas vezes estas são enganadas, diz Cláudia Pedra.

Um outro caso relatado pela perita da NSIS, envolve Marilena, de Angola, que se apaixonou por um português. Viveram juntos durante um ano e ele trouxe-a para Portugal. Depois foi fechada numa casa e forçada a prostituir-se durante 12 anos. Está com problemas do foro psiquiátrico graves. "As vítimas de tráfico, frequentemente sofrem de stress pós-traumático, o que normalmente só afeta os sobreviventes de conflitos armados", explica a investigadora.

Formas de recrutamento

O namoro é uma forma de recrutamento, seja através de um contacto pessoal ou das redes sociais. "Muitos dos traficantes dedicam meses a estudar o que as suas vítimas dizem nas redes sociais". Conhecem as suas vidas: família e os amigos; os sonhos e aspirações; se estão tristes ou deprimidas. Depois, abordam-nas recorrendo à estratégia do loverboy, chegando a namorar seis meses a um ano antes de as traficar. Também podem ganhar a sua confiança enquanto amigo virtual, ainda como empresas de recrutamento de mão-de-obra.

No fundo, transporta-se para o digital as estratégias usadas no mundo real. Por exemplo, estar à porta de uma escola dizendo que pertencem a uma agência e que estão a recrutar modelos ou que são olheiros e pretendem selecionar jogadores para determinado clube.

Cláudia Pedra critica as medidas para combater o tráfico de seres humanos, que no seu entender deveriam apostar na prevenção, através de campanhas dirigidas dirigidas a cada perfil de vítima. Sublinha que são recrutadas todo o tipo de pessoas e não apenas as mais pobres e instrução. Há também jovens licenciadas.

Têm que ser feitas campanhas, a nível nacional e internacional. Denunciar as estratégias usadas pelos traficantes, as técnicas que usam e que são de acordo com cada país e perfil da vítima que pretendem. Nomeadamente através das redes sociais".

Estudante universitária

Andra, da Roménia, 19 anos, estudava inglês, no 1.º ano da universidade. "A minha família garantia a minha educação, proporcionando-me uma vida decente (...). Comecei a juntar-me a uns rapazes da minha cidade pensando que podiam ser meus amigos. Mas, não foi assim", conta, concluindo que se "aproveitaram" da sua inocência. Venderam-na a um homem de outra cidade.

Perguntaram-lhe se queria trabalhar num hotel em Espanha como empregada de limpeza. "Eu fiquei contente com a ideia, fascinada. Por fim, podia ser independente. Em Espanha, disseram-lhe que tinha de trabalhar... na rua. Perguntou o que iria fazer? "O que todos as mulheres fazerem na rua: sexo por dinheiro", responderam-lhe.

Chorou, recusou, levou tareia e ficou uma semana sem comer. Decidiu ser "amiga do demónio", a chefe do grupo, tão amiga que abrandaram a vigilância. Ela conseguiu fugir com um homem, ao fim de três meses. "Foram meses horríveis, três meses de pesadelos. Quem trabalha na rua ou nos clubes fica sempre com sequelas, tornamo-nos loucas e ficamos com baixa autoestima, não nos valorizamos".

É um testemunho recolhido pelas irmãs da Oblata do Santíssimo Redentor, em Espanha, mas também estão em Portugal. Vieram há 32 anos e este é um dos 15 países onde marcam presença, com a missão de acompanhar as mulheres que exercem prostituição e vitimas de tráfico com fins de exploração sexual.

Dimensão subavaliada

Aquelas e outras ONG's têm contactado com o tráfico de seres humanos, um fenómeno tão vasto e violento, que chega a ser difícil de acreditar. E a maior parte não denuncia. "As vítimas vivem um terror e as redes têm meios para manter essas pessoas no terror, chantageando-os com as suas vidas e da família. Depois existem as questões culturais, como a Nigéria e a crença no Vodu, acreditando estas mulheres no poder malévolo dos espíritos Quando falamos da violência praticada por traficantes, estamos a falar de uma violência muito severa, é tão severa que muitas vezes as pessoas que estão em lugares chave não acreditam. As pessoas são fechadas, maltratadas, violadas em grupo, uma violência atroz", explica Cláudia Pedra.

Pessoas que são compradas nos países de origem por 40 euros, depois vendidas e revendidas, chegando a atingir os 40 mil euros. Pessoas que chegam a ser condenadas por crimes que as obrigaram a praticar e que preferem cumprir pena a denunciar o traficante.

É por essa razão que a investigadora não acredita nos números oficiais, 150 presumíveis vítimas em 2017, indica o Relatório Anual de Segurança Interna, e a maioria não se confirmou no processo judicial, porque é difícil a produção da prova. Considera que o número está subavaliado, defendendo que são pelo menos três vezes mais. Entre os estudos que realizou, o mais detalhado é de 2015 e envolveu três e meio de investigação. Entrevistaram 115 vítimas de tráfico, os seus testemunhos indicaram outros casos, o que deu para contabilizarem 400. E apenas 11 tinham denunciado às autoridades.

"Os dados oficiais são muito limitados. Emanam essencialmente de vítimas encontradas pelas autoridades que são uma imensa minoria, como mostra a nossa investigação no terreno. A vasta maioria são encontradas por ONG's - padres, pastores, profissionais de saúde - não são encontrados pelas autoridades, mas têm meio de fazer denúncia, por elas e pelas suas famílias".

Em Portugal, quando a vítima colabora com a justiça é-lhe atribuída uma autorização de residência, mas esta terá se ser renovada quando termina o processo judicial, Além de "que o traficante facilmente descobre a morada de quem denuncia", denuncia a técnica.

As Nações Unidas indicam que existem 2,5 milhões de pessoas traficadas por ano, mas os números sobem aos 200 milhões nas contas das ONG's. "É muito difícil quantificar o volume real".

200 milhões de pessoas traficadas, segundo as ONG's

Cláudia Pedra contactou no país com vítimas maioritariamente dos 14 aos 26 anos, dependendo do fim a que se destinam. "Há todo o tipo de tráfico, adoção, tráfico de órgãos, exploração laboral, sexual, para servidão doméstica, para mendigar ou para praticar crimes. Por exemplo, as crianças entre os 10 e 16 anos são utilizadas para mendigar ou roubar, as mais novas para a adoção".

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