Elevado pelo Papa Francisco, José Tolentino de Mendonça já é cardeal

É o quinto cardeal português que fica com assento no Colégio Cardinalício, sendo o 46º português a chegar a este patamar da hierarquia do Vaticano.

"Quando ele se abeirou de mim, eu disse-lhe, baixinho: 'santo padre, o que é que me fez?'", disse aos jornalistas Tolentino Mendonça, sobre o encontro com o Papa Francisco na sacristia da Basílica de São Pedro, onde o líder da Igreja Católica cumprimentou cada um dos 13 novos cardeais. Francisco riu e disse: "Olha, a ti eu digo aquilo que um poeta disse, 'tu és a poesia'".

O arquivista e bibliotecário do Vaticano, Tolentino Mendonça, hoje investido cardeal, referiu que são palavras que guarda no coração: "No fundo, para dizer-me uma coisa essencial. A Igreja conta com uma determinada sensibilidade, uma atenção a um determinado campo humano que é o campo da cultura, das artes, da estética, e o santo padre considera que esse campo é também importante para a missão da Igreja e para aquilo que ela hoje é chamada a ser no mundo contemporâneo".

Tolentino de Mendonça considera que "a vida de um cardeal é pesada" como a vida de um operário, de um desempregado ou de um refugiado.

"A vida vai-nos dando, pela mão de Deus, os caminhos, mais do que pesos, porque a vida de um cardeal é pesada, mas a vida de um pai de família também é, a vida de um operário, a vida de um desempregado, a vida de um homem sobre a terra, a vida de um refugiado, a vida de alguém que constrói a sociedade", afirmou aos jornalistas Tolentino Mendonça.

O poeta e estudioso da Bíblia falava depois de ser investido cardeal pelo papa Francisco na Basílica de São Pedro e antes da de sessão de cumprimentos, no Palácio Apostólico, no Vaticano.

"A visita é difícil para todos, também será para um cardeal, mas também é bela, também é entusiasmante e é nisso que eu penso. Partilho a humanidade dos meus irmãos e faço com eles um caminho crente, um caminho de fé", declarou.

Tolentino Mendonça, de 53 anos, tornou-se no sexto cardeal português deste século e no 46.º da História. Na cerimónia foi anunciado que a igreja de Roma que lhe era atribuída era a de São Jerónimo da Caridade, mas Tolentino Mendonça corrigiu nesta ocasião que se tratava da Igreja de São Domingos.

O mais recente cardeal trazia ao peito uma cruz que foi abençoada pelos bispos eméritos do Funchal -- Teodoro Faria e o seu sucessor António Carrilho -- e o atual prelado da diocese, Nuno Brás, que foi colega de Tolentino Mendonça no seminário.

"Pedi-lhes que abençoassem a cruz e trago-a hoje em sinal também da história que me trouxe até aqui", acrescentou. Natural de Machico, Madeira, o futuro cardeal entrou no seminário aos 11 anos. Doutorado em Teologia Bíblica e antigo vice-reitor da UCP, é um nome de destaque da poesia portuguesa contemporânea, tendo já recebido vários prémios.

Sobre o momento da investidura como cardeal, no altar da basílica, o cardeal português afirmou que sentiu "a responsabilidade de cada passo" e que "é uma coisa maior" do que si próprio.

"Evidentemente, isso são as experiências-chave da nossa vida. Em determinados momentos, todos, crentes, laicos, padres, cardeais, pais de família, sentimos que a vida é maior e estes foram passos conscientes, não foram uns passos quaisquer", adiantou.

Um entre 13 novos cardeais

José Tolentino de Mendonça foi elevado a cardeal na tarde deste sábado. O português foi o segundo dos 13 novos conselheiros do Papa Francisco a ser elevado a cardeal na cerimónia que decorre no Vaticano. Recebeu o anel e o barrete, símbolos cardinalícios, numa cerimónia que teve uma intervenção do Papa Francisco a anteceder a elevação do português. Minutos antes, o espanhol Ayuso Guixot foi o primeiro a tornar-se cardeal. A partir de agora, D. Tolentino de Mendonça é mais um cardeal que pode vir a ser eleito papa.

O bibliotecário natural da Madeira é, aos 53 anos, o sexto cardeal português a ser nomeado no século XXI, e é um dos cinco que permanecem conselheiros do Papa - o ex-patriarca de Lisboa José Policarpo, nomeado em 2001, morreu em 2014. Os outros cardeais são António Marto, Manuel Clemente, Manuel Monteiro de Castro e José Saraiva Martins.

A cerimónia teve início às 15.00 locais (16.00 em Roma), na Basílica de São Pedro. Ayuso Guixot foi o primeiro cardeal a receber o anel e o barrete, seguido por Tolentino Mendonça. Depois foi a vez de Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo, arcebispo de Jacarta, na Indonésia; Juan de la Caridad García Rodríguez, o arcebispo cubano de Havana; Fridolin Ambongo Besungu, o arcebispo de Kinshasa, da República Democrática do Congo; Jean-Claude Höllerich, arcebispo do Luxemburgo; Alvaro L. Ramazzini Imeri, bispo de Huehuetenamgo, da Guatemala; Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, em Itália; Cristóbal López Romero, o espanhol que é arcebispo de Rabat, em Marrocos; e Michael Czerny, o subsecretário da secção Migrantes do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral (Santa Sé). Há 10 eleitores e três não eleitores num futuro conclave.

Com estes novos cardeais, a Europa perde a maioria no Colégio Cardinalício, onde se sentam os homens que escolhem os papas. Com este sexto consistório para a criação de cardeais, 88 países estão no órgão colegial, 66 deles com capacidade eleitoral, aberta aos elementos com menos de 80 anos. Tolentino, D. António Marto e D. Manuel Clemente são os portugueses com poder de voto.

Para Tolentino de Mendonça é o ponto mais alto de um percurso no Vaticano. Em fevereiro de 2018 dirigiu o retiro de Quaresma do Papa Francisco e da Cúria Romana e mais tarde assumiu a tutela da Biblioteca Apostólica e do Arquivo Secreto do Vaticano, por convite do Papa Francisco.

Dezenas de portugueses acompanharam a criação cardinalícia de D. José Tolentino Mendonça no Vaticano, relata a Agência Ecclesia, acrescentando que marcaram presença a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, e o presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque.

"O cardeal Tolentino Mendonça não é apenas um católico, não é apenas um religioso, é alguém que pensa, é um pensador e é um construtor de pontes, quer do ponto de vista ecuménico, quer do ponto de vista do diálogo inter-religioso", disse aos jornalistas Francisca Van Dunen, no Palácio Apostólico, no Vaticano, após felicitar Tolentino Mendonça.

Portugal teve até hoje com 46 cardeais, o primeiro foi o chamado Mestre Gil, escolhido pelo Papa Urbano IV (1195- 1264).

Marcelo envia "cumprimento caloroso e amigo"

O Presidente da República enviou um "cumprimento caloroso e amigo" a José Tolentino de Mendonça, que hoje foi criado cardeal pelo Papa Francisco.

"Gostaria de estar presente no consistório em que recebe os sinais da sua nova condição, mas na impossibilidade de o fazer, envio ao novo Cardeal um cumprimento caloroso e amigo e os desejos de que continue a ser uma referência para tantos, católicos ou não, que lhe reconhecem o valor cultural e humano de quem é, como o próprio se definiu, "um facilitador de encontros", escreve Marcelo Rebelo de Sousa numa mensagem publicada no sítio da Presidência da República.

O chefe de Estado cancelou a sua ida a Roma, no sábado, para a elevação de Tolentino Mendonça a cardeal, para estar presente nas cerimónias fúnebres do fundador do CDS e antigo ministro Freitas do Amaral.

O Presidente da República considera que José Tolentino de Mendonça - convidado para ser o Presidente das comemorações do próximo Dia de Portugal -, é um exemplo de alguém que procura ir mais longe e, ao mesmo tempo, estar com todos.

"Por isso o programa que define para si próprio - "Sentir a cada dia o apelo a ir mais longe, a baixar mais as defesas, a estar menos nos nossos obstáculos, na autorreferencialidade que muitas vezes nos enclaustra, e deixar-se ir atrás" daquilo em que acredita -- pode ser também um caminho para cada um e para todos nós como comunidade", frisou.

Marcelo Rebelo de Sousa relembra o que escreveu no dia em que foi conhecida a escolha de José Tolentino Mendonça para Cardeal, indicando que "essa honra traduz o reconhecimento de uma personalidade ímpar, assim como da presença da Igreja Católica na nossa sociedade, o que muito prestigia Portugal".

Papa critica indiferença

Na cerimónia, o papa Francisco criticou o "hábito da indiferença" e pediu aos novos cardeais, entre os quais se inclui o português Tolentino Mendonça, compaixão, que definiu como "requisito essencial" para a sua missão.

"A disponibilidade de um purpurado para dar o seu próprio sangue -- significado na cor vermelha das suas vestes -- é certa, quando está enraizada nesta consciência de ter recebido compaixão e na capacidade de ter compaixão. Caso contrário, não se pode ser leal", afirmou Francisco.

O líder da Igreja Católica disse na homília que "muitos comportamentos desleais de homens da Igreja dependem da falta deste sentimento da compaixão recebida e do hábito de passar ao largo, do hábito da indiferença".

Antes da imposição do barrete cardinalício, o papa argentino questionou mesmo os futuros cardeais se têm viva a consciência desta compaixão, que não é uma "coisa facultativa" ou um "conselho evangélico".

"É um requisito essencial. Se não me sinto objeto da compaixão de Deus não compreendo o seu amor. Não é uma realidade que se possa explicar, ou a sinto ou não", continuou o papa, acrescentando: "E, se não a sinto, como posso comunicá-la, testemunhá-la, dá-la?".

"Concretamente, tenho compaixão pelo irmão tal, pelo bispo tal, pelo padre tal? Ou sempre destruo com a minha atitude de condenação, de indiferença?", perguntou Francisco.

Antes, o papa referiu que, "muitas vezes, os discípulos de Jesus dão provas de não sentir compaixão", notando que basicamente dizem "que se arranjem".

"É uma atitude comum entre nós, seres humanos, mesmo em pessoas religiosas ou até ligadas ao culto. A função que desempenhamos não basta para nos fazer compassivos, como demonstra o comportamento do sacerdote e do levita que, vendo um homem moribundo na beira da estrada, passaram ao largo", prosseguiu, citando um excerto do Evangelho de São Lucas a propósito a um grupo de leprosos.

Francisco assinalou ainda que aqueles terão dito para consigo "não é da minha competência", lamentando que haja "sempre justificações - às vezes até se tornam lei, dando origem a descartados institucionais".

Para o papa, "deste comportamento muito humano, demasiado humano, derivam estruturas de não compaixão".

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