Três meses depois do regresso, a família de Joana e Miguel recorda os momentos em Manjacaze, os amigos

Voluntariado

Do Porto para Moçambique, para levar água, râguebi e vida, muita vida...

Joana e Miguel tinham um sonho desde que começaram a namorar na faculdade: fazer uma missão de voluntariado. Concretizaram-no agora, já com quatro filhos, em Manjacaze, Moçambique. Na bagagem, apenas o essencial, sobretudo o conto africano O Macaco e o Peixe. A quem pense como eles, dizem: "Vão, não tenham medo."

Quando falam de Inês, a jovem que é ndota, líder, porque é gentil, de Júnior, a criança que é como a filha Joaninha, que tem trissomia 21, de Jenny, de Rosa e de tantos outros, os olhos brilham e a voz embarga-se-lhes. São nomes com história, que carregam lições de vida e que a família de Joana e de Miguel aprendeu numa missão de voluntariado, em Manjacaze, na província de Gaza, em Moçambique.

Falar do que ali viveram e experienciaram é para eles "uma alegria", assume Joana na conversa com o DN, já no Porto, três meses depois do regresso a Portugal, mas é sobretudo pelo testemunho, para que possam incentivar outros a fazer a mesma viagem, porque o que de lá se traz é "muito forte", "toca profundamente", e, obviamente, "muda".

Mas o que lá se deixa, de uma forma ou de outra, também faz a diferença. Não só pela presença, pelas pontes que se criam ou pelos encontros que se guardam na memória, porque o mais importante, acredita a família de Joana e Miguel, é "partilhar vida para gerar vida".

O furo de água que vai fazer a diferença

E Joana e Miguel acreditam que foi isso que deixaram na missão das Irmãs Concepcionistas do Apostolado Católico, situada a 300 quilómetros da capital Maputo. Ali, não têm dúvidas, deixaram muitos amigos, alguns até lhes enviam fruta ou cartas por quem apanha o avião com destino a Portugal, mas deixaram também outras coisas, que, acreditam, podem gerar mais vida ou levar a um futuro diferente.

É que o trabalho que Joana e Miguel, de 38 e 43 anos, e os filhos, Henrique, de 15, Leonor, de 12, Teresa, de 10, e Joaninha de 5, ali fizeram, juntamente com os outros voluntários portugueses que lá estavam, permitiu à aldeia ter um furo de água. O furo da diferença, conseguido através de financiamento de um crowdfunding, e que fará que crianças de 2, 3 ou 4 anos não tenham de andar mais de meia hora a pé para matar a sede. O furo que vai permitir criar hortas, ter alimentos e dar à população mais do que uma refeição ao dia.Porque em Manjacaze "a fome e a sede são visíveis, e isso dói", afirma Joana.

Para os mais novos talvez tenha sido esta a realidade visível que mais os impressionou. "A nossa filha mais nova ao deparar-se com esta realidade tão diferente chorou muito, não parava, perguntei-lhe se queria falar do assunto, disse que não, mas, no dia seguinte, chegou ao centro onde estávamos a trabalhar, saiu do carro, descalçou-se e foi buscar água como qualquer outro menino, brincou com eles, deixou que lhe afagassem o cabelo, fez tranças como eles e tornou-se um deles, tornou-se peixe", conta Joana, lembrando o conto africano O Macaco e o Peixe que levavam no pensamento e como bagagem principal, e que para eles se resume em: "Onde fores torna-te um deles e não atrapalhes."

Joana confessa ainda que a atitude da filha a fez pensar: "Quando for grande quero ser pequenina, quero ter esta capacidade, porque isto é o máximo do que se pode fazer em cooperação e desenvolvimento."

Os seis, um a um, à sua maneira, entraram na realidade que tinham à frente dos olhos. Uns como se sempre lá tivessem estado, outros digerindo o dia-a-dia, mas sempre com a certeza de que queriam era ser "peixes" e "não macacos", dizem a rir, explicando então o conto: "Era uma vez um macaco, que cheio de boas intenções resolve ir a um lago para ajudar os peixes. Vê um e diz: 'Vou salvar este peixe que está a morrer afogado. Pega nele e retira-o da água. O peixe começa a tremer e o macaco pensa: 'Ele está tão contente porque o estou a ajudar", mas, de repente, o peixe deixa de se mexer e ele diz: 'Não cheguei a tempo'."

"Conheci este conto através de um professor, numa aula sobre cooperação e desenvolvimento, e foi o nosso mote. Em casa, antes de partirmos, brincávamos com isto, 'não queremos ser macacos, queremos imenso ser peixes", conta Joana. Foi o que lhes serviu de preparação para esta missão, foi o que os ajudou a saberem estar, a saberem descalçar-se e, sobretudo, a saberem ser "mais um entre todos, o viver em comunidade".

Joana e Miguel casaram-se cedo, ela com 23 anos terminava o curso de Direito na Faculdade do Porto, ele com 28 já de curso terminado e depois de namorarem cinco anos. Nessa altura já tinham o sonho de um dia "fazer uma missão de voluntariado", mas os filhos começaram a chegar e o sonho ficou suspenso. Só que "foi sempre uma coisa que esteve dentro de nós, em que pensávamos e falávamos muito, o tempo é o tempo e as fases são as fases, mas, desde que temos a Joaninha, que estamos muito abertos ao sim, e achamos que era o momento", confessam.

"Conheci o conto do macaco e do peixe através de um professor numa aula sobre cooperação e desenvolvimento e foi o nosso mote de preparação. Brincámos muito cá em casa, repetíamos 'não queremos ser macacos, queremos imenso ser peixes'."

Isto porque, neste ano, a vida também lhes deu as circunstâncias de que precisavam e que os levou a voltar a pensar a sério no sonho de jovens.

Joana, que sempre trabalhou na área dos Direitos Humanos, inclusive para o Comissariado das Migrações da ONU, está com licença sem vencimento, apesar de ser uma apaixonada pelo que faz, desde que a filha mais nova, Joaninha, Jojô ou Maria Joana, com trissomia 21, entrou na vida deles há quatro anos, quando foi adotada aos 8 meses. Miguel vendeu uma empresa e está em transição para novos projetos. Portanto, "havia disponibilidade de tempo e económica para estarmos todos juntos durante as férias escolares".

E não pensaram muito. Falaram com amigos que já tinham feito voluntariado e que conheciam o trabalho que as Irmãs Concepcionistas fazem em Moçambique. "Um dia ligámos-lhes e dissemos-lhes que éramos um casal com quatro filhos que estava disponível para trabalhar com elas durante um mês e meio, se tal fizesse sentido para a congregação, porque isso estava em primeiro lugar. Trocámos e-mails, fomos a uma reunião a Lisboa e receberam-nos com um 'bem-vindos'."

Ao ouvirem isto sentiram que a decisão era para partirem. Só faltava tratar da logística, passagens e vacinas, esperar que as aulas dos filhos acabassem, porque o resto era com as irmãs. "Eu sou uma idealista, sonho muito, mas o Miguel é muito melhor do que eu a executar e a concretizar os meus sonhos", diz Joana a rir. Miguel explica: "Somos mais do género, quando surge a oportunidade, não vale a pena perder muito tempo a pensar e a ponderar."

Falaram com os filhos para saberem o que pensavam, apesar de estes "nunca terem sido um obstáculo para fazermos o que entendemos, pelo contrário, sempre foram um incentivo de companheirismo", afirma Joana. "Os mais velhos acolheram bem a ideia, apesar de não saberem bem ao que iam, para ser sincero, nós também não, mas depois ficaram encantados."

O regresso a Maputo foi como estar em Nova Iorque

Joana, Miguel, Henrique, Leonor, Teresa e Joaninha aterraram em Maputo a 28 de junho. A cidade, diferente de tudo a que estavam habituados na Europa, entristeceu-os pela degradação e pela falta de manutenção, mas quando lá voltaram três semanas depois, já "era maravilhosa. Os miúdos diziam a brincar que estavam em Nova Iorque", contam. "A perspetiva muda muito com as vivências", comenta Joana.

Um dia depois da chegada rumaram a Manjacaze, Gaza, no sul de Moçambique, passaram pelo interior, por um mundo muito diferente daquele a que estão habituados, até chegarem à missão das irmãs, onde, dizem, "foram de um acolhimento extraordinário, de uma doçura incrível, o que para nós representou uma aprendizagem cultural muito grande", sublinham.

Foi ali que ficaram a viver, numa casa que lhes atribuíram, em caniço e telhado de colmo, onde a luz faltava todos os dias, onde a água era pouca e fria, mas à qual chamaram rapidamente casa, porque "casa é aquela onde está o nosso coração". Das irmãs, que não conheciam, dizem ser "um exemplo de serviço ao outro, com tal humildade e simplicidade, que é muito tocante. Fazem tanto com tão pouco. Nós gostávamos muito de assim ser na nossa vida", desabafa Joana.

Manjacaze foi a terra que os fez sentir que, ali, não eram pai nem mãe, eram missionários, tal como os filhos e muitos outros. Ali, o dia começava sempre cedo, o tempo não dava tréguas, não parava um minuto, nem aos fins de semana, o ritmo era intenso, tal como as emoções.

Mesa de São Nicolau dá refeições a 200 crianças, para algumas é a única por dia

Assim que chegaram souberam ao que iam, as irmãs tinham um jardim-infantil, um centro nutricional, para mães e bebés subnutridos, e uma cantina escolar - a Mesa de São Nicolau, em Macassalane - onde servem uma refeição diária a 200 crianças, para muitas a única - e foi nesta última que ficaram.

Antes deles, voluntários que já lá estavam há seis meses tinham feito um diagnóstico sobre as necessidades, e definiram onde era preciso atuar. "Ficou decidido que daríamos apoio à Mesa de São Nicolau, que estava a precisar de ser repensada e de ter uma componente que não fosse só de assistência à refeição, mas também de capacitação dos jovens da aldeia, para que estes pudessem ajudar mais as 200 crianças que por ali passam e que, chegadas ao sétimo ano, desistem da escola, porque depois só a podem frequentar noutra aldeia, a mais de duas horas de caminho a pé."

Joana preocupou-se então com a formação dos jovens e Miguel com os arranjos no barracão que havia que tornar no espaço para Mesa de São Nicolau. "Quando chegámos as crianças recebiam a refeição na rua e comiam no chão. Agora, têm uma sala, com mesas e cadeiras", explicam. Para Miguel, o que fizeram foi dar apenas "um empurrãozinho em coisas que são prioridades, mas que a dureza do dia-a-dia nem permite pensar nelas." Ou seja, "facilitámos o trabalho a quem lá está e a quem lá trabalha", porque, dizem, "quando saímos de lá é como se não estivéssemos lá estado. O trabalho não parou connosco, continua, com as irmãs e com outros voluntários".

Hoje, já nas suas vidas, sentem que aquele trabalho teve princípio meio e fim. Numa zona em que a sede e a fome são o principal problema, o furo de água - conseguido através de financiamento de um crowdfunding criado pela missão e do apoio que veio do mecenato de uma paróquia italiana - permitirá à aldeia ter uma agricultura mais eficiente, ter hortas, alimentos, e permitirá, sobretudo, pensar no futuro e em desenvolver outras atividades.

Pelo meio, conseguiram ainda deixar em marcha outro projeto, que levavam já na bagagem de Portugal: a criação de uma equipa de râguebi."Levávamos daqui o compromisso de criar uma equipa em Manjacaze. Eu joguei râguebi, o meu filho joga e é um desporto que está a desenvolver-se muito em Moçambique. Há várias equipas em Maputo e no Xai-Xai, capital de Gaza. O CDUP e o CDUL forneceram material, a federação de râguebi também, e conseguimos levar tudo para fazer uma equipa. O objetivo é criar clubes satélites e o intercâmbio com Portugal."

Quando a presença de alguém faz que se tire de casa um filho desconhecido

Para Joana foi tudo importante, "voltava amanhã", confessa, mas o que mais a tocou foram os encontros com as famílias com crianças como a Joaninha. "Se a deficiência num mundo como o nosso ainda não é aceite, ali, onde há crenças, até de maldição, nunca imaginei que a reação das pessoas fosse tão grande", explica.

"A Joaninha chegou e integrou-se de imediato, ela falava com toda a gente, era conhecida na vila, acreditamos que, de facto, abriu corações. Tínhamos dito às irmãs que estávamos disponíveis para falar com famílias com crianças com deficiência e acabámos por ter vários encontros que nos marcaram muito. Talvez tenha sido o que mais nos marcou neste tempo como família", dizem.

Assim que souberam que ali estava uma família com uma menina com deficiência, muitas pessoas começaram a chegar à missão sem aviso prévio, apenas para falarem delas, das suas vidas, dos seus medos e das alegrias com os filhos. "Se fechássemos os olhos e estivéssemos a ouvir-nos uns aos outros, éramos todos iguais, porque o que sobressaía era o amor supremo aos nossos filhos", comenta Joana.

Eles ficaram surpreendidos e as irmãs também, porque "não esperavam esta reação. Aliás, elas não sabiam sequer que muitas das famílias que ali apareceram tinham filhos com deficiência, porque os escondiam em casa". A presença de Joaninha, e de toda a família, teve "este mérito, pelo menos, o de criar pontes, e sem termos feitos nada, sem termos nada para dar a não ser a nossa presença".

Os encontros acabaram por se estender a outras aldeias. "As irmãs disseram-nos que estava a correr bem e que deveríamos ir a outras aldeias. "Fomos a Machiche, no Xai-Xai. As irmãs esperavam que aparecessem cinco ou seis pessoas, mas estiveram mais de 50. Mães e pais com filhos com deficiências provocadas por acidentes ou genéticas. Conhecemos um jovem que tem a cara toda marcada, é esquizofrénico e não tem medicação para tomar. Quando cai aleija-se, está cheio de marcas", conta Joana, apontando para uma fotografia de grupo.

Inês, uma jovem 'ndota' (líder), disse-lhes: "Sou líder porque sou gentil com todas as pessoas." E eles pensam: "Como o resto do mundo deveria ouvir isto."


Por isso, quando lhes perguntam sobre o que foi este mês em Moçambique e o que os marcou, falam da Inês, do Júnior, da Rosa, da Jenny e de tantas outras pessoas com história e que precisam de ser vistas pela sociedade.

Quando lhes perguntam por Moçambique, dizem que o balanço vai sendo feito aos poucos, com testemunhos, com conversas com os filhos. Em Manjacaze, na hora da despedida, todos choraram, ainda o fazem sempre que dali falam, mas por emoção, alegria e saudade.

A missão voluntariado em família, dizem, é para continuar, quer seja em África, em Portugal ou em outro sítio. Até porque, e como lhes disse uma das filhas, "nunca fomos tão felizes", e sem telemóveis, internet ou televisão.

Quando lhes perguntam, se isto os mudou, dizem: "Certamente. É difícil dizer o quê, mas ganhamos sempre quando se conhece outras realidades, e, ao mesmo tempo, se percebe que temos em comum tantas semelhanças."

Deixam um conselho a quem possa pensar como eles: "Vão, não tenham medo. Perdemos muito pelos medos que temos, mas há riscos em todo o lado, o ficar em casa também os tem. O que vamos descobrir e o que vamos ganhar compensam os riscos que possam existir."

Artigo publicado originariamente na edição impressa do DN de 2 de novembro

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