Constelações de satélites. Astrónomos alertam que observação do espaço pode estar ameaçada

Na primeira semana de 2020, começa uma campanha para lançar milhares de satélites para a órbita da Terra. O objetivo é fornecer uma ligação à internet mais rápida. Atualmente existem cerca de 2200 satélites no espaço.

As "constelações" de satélites podem estar a ameaçar a observação do espaço, avisam astrónomos. Um alerta que surge antes da campanha de lançamento de milhares de satélites para a órbita da Terra, prevista começar na primeira semana de 2020, e cujo objetivo é fornecer um serviço de internet mais rápido através do espaço.

Um projeto da SpaceX, de Elon Musk, por exemplo, já lançou 120 destes satélites e planeia comercializar um serviço de internet de banda larga a partir do espaço no próximo ano. Mas estes objetos espaciais estão a dificultar a captação feita à noite de imagens do espaço. De acordo com a BBC, as imagens estão a surgir com faixas brancas brilhantes, provenientes dos satélites, que podem estar a ofuscar as estrelas.

"O que temos aqui é uma tragédia", diz, sem meias palavras, à estação de televisão britânica, Dave Clements, astrofísico do Imperial College London. É um dos cientistas que se mostram preocupadom com as futuras constelações em larga escala. Teme-se que os milhares de satélites lançados para o espaço possam interferir nas observações astronómicas e tornar obscuras as imagens captadas pelos telescópios óticos.

O objetivo destas futuras "constelações" de satélites é ter um acesso à internet de alta velocidade, sem fios ou cabos, a partir do espaço. Com muitos satélites na órbita da Terra, mesmo as regiões mais remotas do planeta podem ter acesso à internet.

Se atualmente existem cerca de 2200 satélites ativos, em 2020 serão muito mais. Tudo porque a constelação Starlink, um dos projetos da SpaceX, de Elon Musk, pretende lançar para o espaço grupos de 60 satélites, com intervalos de semanas.

O plano do magnata norte-americano é ter uma cobertura total da Terra, com uma rede de 12 mil satélites, de modo a tornar o acesso à internet universal. Tem sido, no entanto, avançado que Musk pediu autorização para lançar mais 30 mil satélites para fornecer internet de banda larga a todo o planeta.

Musk: "O homem que poluiu os céus"

A SpaceX já lançou 120, mas estes objetos espaciais estão já a dificultar o trabalho dos telescópios terrestres na observação do espaço, denunciam os astrónomos. Imagine-se o que farão milhares de satélites.

"Estou chocada", afirmou, no Twitter, Clarae Martínez-Vásquez, astrónoma do Observatório de Cerro Tololo, no Chile, a 18 de novembro. A cientista ficou surpreendida com a quantidade de satélites Starlink, um "comboio" de 19, que afetou o registo feito pela Câmara de Energia Escuras (DeCam). "Deprimente".

"Este problema pode ser incomum agora, mas quando toda a constelação [Starlink] estiver em órbita, será uma ocorrência diária", alertou Jonathan McDowell, investigador do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, de Massachusetts, EUA.

"Tenho a certeza de que Musk se considera um herói ambiental por vender carros elétricos, mas o seu verdadeiro legado permanente será o do homem que poluiu os céus", escreveu o astrofísico da NASA, Simon Porter.

Os satélites que estão a preocupar os cientistas são do "tamanho de uma mesa, mas os seus painéis refletem muita luz do sol", explica Dhara Patel, do Observatório Real de Greenwich, Inglaterra. Usam também ondas de rádio, o que "significa que podem interferir com os sinais que os astrónomos usam", acrescenta.

Riscos reais

Uma situação que acarreta riscos, alerta Dave Clements. O astrofísico afirma que estes satélites "atrapalham" a observação do espaço, porque acabam por ficar em primeiro plano, o que pode significar consequências reais. "Podemos deixar de ver o que está por detrás desses satélites, mesmo que seja um asteróide potencialmente perigoso próximo da Terra", exemplifica.

Perante as críticas e a preocupação demonstrada pelos cientistas, a SpaceX fez saber que está a trabalhar com os astrónomos de todo o mundo para minimizar o impacto da constelação Starlink. Aliás, a empresa revelou que um dos satélites, que irá ser lançado no início do ano, vai ter um revestimento especial de modo a que tenha menos reflexos com o objetivo de reduzir a interferência nas observações espaciais.

Mas não é só a empresa de Elon Musk que está na corrida à "internet do espaço". A empresa britânica OneWeb planeia colocar no espaço 650 satélites, mas este número pode aumentar para os dois mil, dependendo dos clientes. Já a Amazon tem como objetivo uma constelação de 3200 destes objetos espaciais.

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