Bombeiro de Elite: Subir o Bom Jesus em menos de seis minutos e com 30 quilos às costas

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Bombeiro de Elite: Subir o Bom Jesus em menos de seis minutos e com 30 quilos às costas

800 bombeiros participam este sábado na 3.ª edição daquela que já é a maior competição europeia. Paulo Santos é de Santarém, tem 32 anos e é profissional em Lisboa. É bicampeão na subida dos 566 degraus do Bom Jesus

Cinco minutos e 44 segundos. Este foi o tempo que Paulo Santos demorou no ano passado a subir os 566 degraus do escadório do Bom Jesus do Monte, em Braga, com... 30 quilos de equipamento às costas. Um recorde que vai ser posto à prova este sábado por 800 bombeiros, muitos deles de outros países.

Paulo Santos, 32 anos, venceu as duas primeiras edições do Bombeiro de Elite, em 2017 e 2018, e detém o recorde da cronoescalada do escadório do Bom Jesus. Este sábado, terá a forte concorrência dos polacos, mas quem já ganhou provas europeias e mundiais para polícias e bombeiros olha para as maiores dificuldades deste ano como uma motivação para ganhar e melhorar o seu registo.

Esta será mesmo a maior prova da Europa. Os campeonatos de polícias e bombeiros não ultrapassam os 100 atletas. O Bombeiro de Elite, agora, já vai em 800. "A projeção da imagem é importante: em dois anos, aumentou oito vezes, é fundamental para mostrar que o bombeiro está bem preparado, logo é melhor no socorro. Se não estiver bem preparado fisicamente, em vez de uma vítima temos duas. Aumenta a confiança dos cidadãos nos bombeiros profissionais e voluntários", resume o homem que persegue o tri este sábado no Bombeiro de Elite, em Braga.

Esta será mesmo a maior prova da Europa. Os campeonatos de polícias e bombeiros não ultrapassam os 100 atletas. O Bombeiro de Elite, agora, já vai em 800


Natural de Santarém, Paulo começou cedo a prestar socorro. Na verdade, metade da vida passou-a como bombeiro - e a outra metade como filho de bombeiro. "O meu pai é comandante dos Voluntários de Carcavelos e São Domingos de Rana. Foi comandante em Alcanede, Santarém. O bichinho vem do meu pai", assume o sub-chefe de 2.ª classe da 3.ª companhia (Alvalade) do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa.

"Comecei como bombeiro aos 16 anos. Comecei a frequentar o quartel de Alcanede em 2003 e, em 2010, passei a profissional em Lisboa, depois de um ano de recruta", explica o bombeiro-atleta que já venceu provas nacionais e internacionais e integra uma equipa de BTT da Benedita - Roodinhas Santos Silva. E também tem o sucesso desportivo que consegue nas provas para bombeiros? "Estou há três anos na equipa, mas não consigo ganhar. Até entrar nos dez primeiros é muito difícil porque há malta profissional da coisa", ri-se.

"Fui bombeiro de 3.ª classe nos voluntários. Acumulava com o trabalho. Fui carteiro, motorista de autocarro escolar e conciliava com o voluntariado nos bombeiros. Em 2009, quando soube que abriram as inscrições no Regimento de Sapadores de Lisboa, tornei-me profissional, após o ano de recruta. Antes, fiz o curso da Escola Nacional de Bombeiros para entrar nos Voluntários de Alcanede", explica.

Para Paulo Santos, não há divisões entre o bombeiro e o atleta. "Noutros países é possível ser-se apenas bombeiro-atleta. Em Portugal, não sei se é possível. Mas eu não gostava, porque gosto do que faço e se deixasse de ser bombeiro deixava de fazer sentido", faz questão de dizer.

No entanto, a competição está-lhe na massa do sangue. "Surge nos voluntários com os passeios de bicicleta. Depois, comecei a meter-me mais a sério em 2014, já nos Sapadores. Começámos a frequentar algumas provas e obtive bons resultados", contextualiza.

Resultados bons e relevantes, em campeonatos europeus e mundiais de polícias e bombeiros, por exemplo. "São uma espécie de jogos olímpicos de polícias e bombeiros, com todas as provas", esclarece. "Em 2017, fui campeão mundial de ICM em Los Angeles. O ICM são umas maratonas de bicicleta com pendentes. São quatro voltas a um circuito de 7 quilómetros, 28 no total. Em 2018, ganhei o mundial só para bombeiros, na especialidade de duatlo, em França, onde fui vice-campeão europeu de ICM", puxa dos galões competitivos o bombeiro. "Quem ganhou foi o meu colega Ricardo Vicente, do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, da 1.ª companhia, na D. Carlos I", junta Paulo Santos.

"Este ano, no campeonato europeu para polícias e bombeiros, em Algeciras [Espanha], fui vice-campeão de contra-relógio em linha de 30 km em bicicleta. E recentemente, ganhei o 3º Challenge Up 360º, nas Amoreiras", continua a desfiar o bombeiro-atleta. Esta última prova é aberta a todos os interessados, que competem em traje de atletismo, e consiste na subida cronometrada dos 17 andares da Torre 1 do Shopping Amoreiras, em Lisboa, que implica galgar 380 degraus. A 8 de setembro, Paulo conseguiu-o em 2 minutos e 22 segundos, menos um segundo do que o 2.º classificado, Evandro Barata, igualmente dos Sapadores de Lisboa.

Das escadas para o escadório

Dos 380 degraus nas Amoreiras, Paulo Santos passa para um senhor escadório. "O Bombeiro de Elite é abismal, assustador", analisa. Primeiro, é um contra-relógio contra 566 degraus em 615 metros e com um desnível de 116 metros. Depois, são os 30 quilos às costas.

"O nosso equipamento pesa cerca de 30 quilos. É composto pelas botas, pelas calças, pelo casaco, pela cógula [máscara parecida com as da Fórmula 1], luvas, capacete e a arica (o nosso aparelho respiratório)", discrimina.

Mas há mais: o escadório do Bom Jesus, que há dois meses foi classificado como Património da Humanidade pela UNESCO, não está fechado ao público. E abundam os turistas e curiosos pelas escadas abaixo e acima. "Talvez seja melhor não andarem nos escadórios [risos]", alerta. "É bom que vão aplaudir, para dar mais visibilidade e entusiasmo aos atletas. Se tivermos pessoas a dar-nos força é melhor para nós, mas que não atrapalhem", pede.

Até porque o crescimento de 100% do Bombeiro de Elite (de 400 para 800 competidores) já vai trazer mais obstáculos. Dificuldade em chegar ao tri? "Talvez. As partidas vão ser menos espaçadas, porque há mais bombeiros a subir o escadório e vamos ter de fazer mais ultrapassagens, o que torna tudo mais difícil", antevê.

E bater o recorde, que lhe pertence há um ano - subiu em 5 minutos e 44 segundos? "É difícil, mas vamos ver se consigo. O ano passado cheguei ao final para lá do limite físico. Não acredito que se consiga baixar o meu recorde, mas este ano foi o ano em que me preparei melhor", diz o bicampeão (a prova é dividida em sete escalões, masculinos e femininos, mas campeão é quem obtiver o melhor tempo absoluto).

"Fiz treinos específicos para subir escadas, em busca do tri. No nosso trabalho, da parte da manhã temos alguma preparação física, e esse tempo foi aproveitada para subir escadas e melhorar o VO2 máx [trata-se do volume máximo de oxigénio que o corpo consome durante o exercício físico; quanto maior é o VO2 máximo, mais limitado é o desempenho do atleta]", prossegue Paulo Santos, que acha que um fator é determinante "a capacidade pulmonar é o que vai fazer diferença".

"Vão ser cerca de 600 metros a subir 566 degraus. Basicamente, é subir escadas em contra-relógio. As maiores dificuldades são as físicas e a presença de turistas e competidores atrasados", antecipa do ponto de vista estrutural e ambiental. Mas do ponto de vista competitivo, há outra grande dificuldade: os polacos. "Não trabalham como bombeiros, competem apenas. Fizeram o curso de bombeiros e formaram uma equipa de competição, a Firefighters Team Poland. O ano passado, em 2.º ficou o Mateusz Drozda, acho que a seis segundos", aponta o bicampeão em direção aos grandes rivais. Na verdade, Drozda fez mais dez segundos. Mas, mais segundo, menos segundo, em princípio os polacos são mesmo os grandes rivais do campeão.

Transmitir confiança aos cidadãos


No entender de Paulo Santos, há muitos ganhos com a realização de provas que atingem este patamar de interesse e qualidade. "É importante testar o limite de um bombeiro. É fundamental para saber como se comporta no teatro de operações. Normalmente, nós vamos por onde as outras pessoas fogem. Nós vamos para as salvar, costumamos ter um bocado mais de coragem, o que não quer dizer que não tenhamos medo. E se nos virem em forma, as pessoas ficam mais confiantes na capacidade dos bombeiros".

E por falar em medo, como se lida com ele? "Tenta-se contornar, manter a calma e com a experiência torna-se menos complicado", explica. "Até porque com o tempo de serviço percebemos que às vezes é preciso um pouco de improviso para a vítima ter o melhor socorro possível. Por vezes, tudo o que aprendemos na escola não é literal, uma mudança de local altera tudo e temos de meter uma nova ferramenta para melhorar as possibilidades de sucesso", comenta o bombeiro.

"Vêm de muitos países, como Espanha, França, Croácia, Ucrânia ou Brasil. Mais de 120 são mulheres e a dias da competição continuamos a receber pedidos de inscrição"


O Bombeiro de Elite é uma das quatro provas que se realizam em Portugal. "Há o Bombeiro de Ferro, que já vai em seis ou sete edições, que conta com cerca de 120 participantes da Federação dos Bombeiros do Distrito do Porto. O Firefighter - Tower Run, na torre da RTP em Vila Nova de Gaia, o Monte da Virgem, que não costuma ter 100 inscritos. E o Superbombeiro, organizado em Sete Rios, Lisboa, mas que não se realizou em 2018 e este ano", explica o organizador, e também participante, Ricardo Fernandes, que é profissional na Companhia de Bombeiros Sapadores de Braga e secretário regional do Norte da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais.

"Braga tinha um diamante por lapidar, porque não havia nenhuma prova em ambiente natural. Em 2017, lancei o evento em mês e meio. Igualámos o Bombeiro de Ferro em número de participantes no primeiro ano e, em 2018, crescemos para 468 atletas. Este ano, tivemos de fechar as inscrições a 30 de Agosto, porque decidimos que 800 é o número que faz sentido nesta fase do Bombeiro de Elite. Queremos crescer de forma sustentada e com qualidade", contextualiza o participante - simbolicamente - número 800 do Bombeiro de Elite 2019. A grande novidade deste ano é que os concorrentes usarão um chip que controlará eletronicamente os tempos, garantindo maior transparência numa competição em que cada segundo pode ser fundamental.

A terceira edição conquistou o interesse de mais bombeiros e de mais países. "Vêm de muitos países, como Espanha, França, Croácia, Ucrânia ou Brasil. Mais de 120 são mulheres e a dias da competição continuamos a receber pedidos de inscrição. Estamos muito orgulhosos do que conseguimos, sabendo que podemos ainda fazer mais e melhor. E sem pedir um cêntimo ao município, que nos ajuda logisticamente, como com o transporte dos participantes", acrescenta Ricardo Fernandes.

O bombeiro sublinha que com um orçamento de cerca de 15 mil euros suportado exclusivamente por patrocinadores, o Bombeiro de Elite gera impacto na economia de Braga e da região. "Mais de 100 participantes vêm instalar-se na hotelaria, o que rende milhares de euros, além do dinheiro que deixarão noutras atividades, uma vez que alguns deles estão cá cinco a seis dias. A importância deste evento foi reconhecida pelo Presidente da República que, não podendo estar presente por se encontrar nas Nações Unidas, enviará uma mensagem através de um representante da Presidência, que estará no evento".

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