"1,7 kg e a evoluir bem". Nasceu Salvador, o bebé da mãe em morte cerebral

Bebé nasceu às 4.32 desta quinta-feira no Hospital de São João, com 1700 gramas e 40 centímetros. O filho de Catarina Sequeira, que está em morte cerebral desde dezembro, nasceu com dificuldades respiratórias e está internado no Serviço de Neonatologia. O pai da criança acompanha todo o processo.

O parto estava programado para esta sexta-feira, mas complicações com a respiração da mãe obrigaram a antecipá-lo. Salvador nasceu esta quinta-feira às 4.32 com 1,7 quilos e 40 centímetros, às 31 semanas e 6 dias de gestação. Depois da cesariana, o bebé apresentou dificuldades respiratórias, que obrigaram a ventilação mecânica, mas está evoluir bem e está internado no Serviço de Neonatologia do Centro Hospitalar Universitário São João, confirmam os médicos que têm acompanhado Catarina Sequeira, em conferência de imprensa. "O acompanhamento é o mesmo que em qualquer bebé prematuro", garantem os médicos que acompanham o recém-nascido. "Está a melhorar da parte respiratória".

A equipa do São João que desde 1 de fevereiro acompanhou Catarina Sequeira, de 26 anos, que estava em morte cerebral na sequência de um ataque agudo de asma, explica que a antecipação de um dia da cesariana foi justificada pela "deterioração das funções respiratórias" da jovem, que podiam colocar em causa o fornecimento de oxigénio ao bebé.

Segundo Carlos Lima Alves, diretor clínico do hospital de São João, "o bebé apresentou significativos problemas respiratórios na altura do parto, que obrigaram a iniciar ventilação mecânica". No entanto a sua evolução é favorável e pode mesmo deixar de estar entubado ainda hoje.

O pai acompanhou todo o processo e está com o filho, que os médicos dizem ter tido um parto semelhante a outro prematuro com o mesmo tempo de gestação. Hercília Guimarães, especialista do serviço de neonatologia do hospital, realça até que "o bebé nasceu com um peso muito bom para a sua idade gestacional" e afasta o risco de mortalidade nestes casos. As únicas reservas que se colocam, e das quais a família já foi avisada, têm a ver com possíveis consequências para a criança depois de a mãe ter entrado em morte cerebral durante a gravidez e de uma gestação em condições de risco.

Em relação a Catarina Sequeira, os médicos confirmam apenas que "está falecida". Segundo o JN, A família já se terá mesmo despedido da jovem no hospital.

Quase dois meses no São João

Maria do Céu Machado, pediatra e membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, explicou ao DN no início da semana que os cuidados com o bebé, partindo do princípio de que a evolução da gestação tem sido normal até agora, não serão diferentes dos que se tem com outros prematuros: Deverá ir para uma incubadora, para os cuidados intensivos, ligado a um ventilador. Nesta fase é fundamental melhorar a maturidade pulmonária. Isso faz-se com corticoides administrados à mãe, 24 a 48 horas antes do parto, para o pulmão estar mais maduro e ser mais fácil ventilar.

Catarina Sequeira teve um ataque agudo de asma às 12 semanas de gravidez, no final do ano passado. Depois de ter estado em coma induzido no Hospital de Santos Silva, em Gaia, ​​​​​​acabou por entrar em morte cerebral no dia seguinte ao Natal, numa altura em que o bebé, o seu primeiro filho, teria 19 semanas.

A jovem foi levada para os cuidados intensivos do Hospital de São João a 1 de fevereiro, onde foi mantida "em suporte orgânico até se atingirem as condições de maturidade fetal necessárias para a realização do parto", informou esta quarta-feira o centro hospitalar. Com o nascimento do filho, os cuidados que estavam a ser dados a Catarina devem agora ser interrompidos. O funeral da jovem deve realizar-se nos próximos dias em Crestuma, Gaia, onde vivia.

Este é o segundo bebé a nascer em Portugal com uma mãe em morte cerebral. O primeiro, Lourenço, nasceu em 2016 no Hospital de S. José, em Lisboa, depois de a respetiva comissão de ética ter concordado manter a mãe ligada às máquinas até às 32 semanas de gravidez.

Naquele caso, o feto sobreviveu 15 semanas na barriga da mãe que estava em morte cerebral depois de ter sofrido uma hemorragia intracerebral, tendo sido o período mais longo alguma vez registado em Portugal.

Uma atleta que queria "o alto nível"

Catarina Sequeira nunca deixou que a asma que a acompanhava desde a infância pusesse em causa a sua paixão pela canoagem. Conquistou 41 medalhas, 17 delas de ouro, em várias categorias, dos infantis aos seniores. Só se afastou da competição em 2014, quando a vida profissional a isso a obrigou.

"A Catarina tinha brio.Ou fazia a sério ou então não valia a pena". José Cunha, treinador que a acompanhou durante toda a carreira, primeiro no Clube Náutico de Crestuma (CNC) e depois no Douro Canoa Clube, contou ao DN que a jovem "queria o alto nível, não pretendia a mediocridade". Nos últimos anos perdeu o contacto com a antiga atleta e foi com surpresa que soube da notícia do seu internamento, através de um irmão gémeo, do qual era "muito próxima".

Segundo o JN, António, o gémeo de Catarina, estava com a irmã quando ela teve o ataque de asma. "Ele nunca mais recuperou", conta ao JN João Sequeira, outro irmão de Catarina. A decisão de prolongar a gestação partiu da mãe da jovem, de Maria de Fátima Branco, que está disponível para cuidar da criança.

Médicos e membros do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida defendem que prolongar artificialmente as funções vitais da mãe faz sentido, desde que a família concorde, uma vez que há um valor preponderante, que é o de uma vida, a da criança.

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