Aumento de temperatura pode matar tanto quanto doenças infecciosas

As populações mais pobres e expostas às alterações climáticas irão sofrer mais se não investirem na adaptação, conclui estudo que analisa o aumento das temperaturas globais.

Os últimos seis anos foram os mais quentes alguma vez registados e 2020 deverá ocupar um lugar de topo nessa lista. Ao analisarem ao longo de anos as relações entre o aumento da temperatura, a idade, o rendimento e a mortalidade, investigadores do Clime Impact Lab concluíram que a taxa de mortalidade anual global no final deste século pode aumentar para 73 mortes por 100 mil pessoas apenas devido ao calor.

Este número corresponde aos valores atuisl de mortes de todas as doenças infecciosas, incluindo tuberculose, VIH/SIDA, malária, dengue e febre amarela. E é uma taxa de mortalidade comparável às 79 por 100 mil que o estado de Nova Iorque tem visto desde janeiro devido à covid-19.

"Os riscos de mortalidade decorrentes das alterações climáticas são muito mais elevados do que anteriormente entendido", diz Michael Greenstone, professor de economia na Universidade de Chicago e co-diretor do Climate Impact Lab à Bloomberg. "Penso realmente que isto não deve ser esquecido".

O Climate Impact Lab concebeu um cenário quase apocalíptico em que a taxa de calor-mortalidade pressupunha a ausência de crescimento económico das populações e condições de calor extremo. Neste cenário, até ao final do século a temperatura causa por ano mais de 200 mortes por cada 100 mil pessoas. Um valor comparável à atual taxa de mortalidade mundial por AVC e doenças cardíacas combinadas.

Os resultados sublinham o efeito benéfico do crescimento do rendimento para salvar vidas o que leva a investir na adaptação às alterações climáticas. O desenvolvimento económico pode reduzir a mortalidade prevista de calor extremo no final do século em cerca de 60%, segundo o Climate Impact Lab, uma descoberta que se traduz na possibilidade de salvar milhões de vidas.

Os investigadores climáticos destacam de todos os grupos populacionais as pessoas mais velhas como um indicador principal da mortalidade global por calor. A vulnerabilidade das populações idosas aumentou mais de 10% desde 1990 em África, no sudeste asiático e no Pacífico ocidental, segundo a Bloomberg.

"Muitos idosos morrem devido a efeitos indiretos do calor", disse Amir Jina, economista ambiental da Universidade de Chicago e co-autor do estudo, publicado pelo National Bureau of Economic Research. "É assustadoramente semelhante ao covid, as pessoas vulneráveis são aquelas que têm doenças pré-existentes ou subjacentes. Se tiverem um problema de coração e forem fustigadas durante dias pelo calor, vão ser arrastadas para o colapso", disse ao The Guardian.

Com dados de 40 países, a equipa de 16 investigadores analisou as relações entre idade, mortalidade e temperatura específicas de forma a extrapolá-los para os restantes países e fazendo uma previsão para o futuro.

"Descobrimos uma relação em forma de U em que temperaturas extremamente frias e quentes aumentam as taxas de mortalidade, especialmente para os idosos, que é achatada tanto por rendimentos mais elevados como pela adaptação ao clima local (por exemplo, sistemas de aquecimento robustos em climas frios e sistemas de arrefecimento em climas quentes)", lê-se no sumário da investigação.

Os investigadores estimaram os custos de adaptação e combinaram os dados em 33 simulações climáticas. "Num cenário de emissões elevadas [de gases com efeito de estufa], estimamos que o aumento médio do risco de mortalidade é avaliado em cerca de 3,2% do PIB global em 2100, com os locais frios de hoje a beneficiarem e os danos a serem especialmente grandes nos locais pobres e/ou quentes de hoje", concluem.

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