Acordo de Paris. Apenas 20% dos países estão em vias de cumprir as metas

Estados Unidos anunciaram retirada e um estudo agora revelado mostra que são poucos os países que estão no bom caminho para respeitar as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa. "É demasiado pouco, demasiado tarde", refere o ex-presidente do IPCC

O anúncio de que os EUA deram início formal ao processo de retirada do Acordo de Paris provocou uma onda de condenações públicas de vários líderes mundiais, que saíram em defesa do pacto de combate às alterações climáticas assinado na capital francesa em 2015.

Da China à Rússia, passando pela União Europeia, foram várias as vozes que se levantaram em defesa do Acordo de Paris, mas a realidade é que entre as declarações públicas e as medidas concretas existe uma distância considerável.

Segundo um relatório publicado pela Fundação Ecológica Universal (FEU), e liderado por Robert Watson, ex-presidente do IPCC (Painel InterGovernamental para as Alterações Climáticas, da ONU), menos de 20% dos 184 países que apresentaram planos de redução de emissões de gases com efeitos de estufa estão em vias de cumprir as metas acordadas. Isto é, os planos apresentados pela esmagadora maioria dos Estados é considerada insuficiente para cumprir as metas de redução de gases a que se comprometeram para o período de dez anos a iniciar em 2020, até 2030.

"Com poucas exceções, as promessas tanto dos países ricos, como dos de 'classe média' e dos 'pobres' são insuficientes para lidar com as mudanças climáticas", disse Robert Watson."Tal como estão, as promessas significam muito pouco, demasiado tarde."

As emissões de gases que causam aquecimento do planeta devem cair 50% até 2030 e atingir o nível de neutralidade carbónica - sem carbono adicional a entrar na atmosfera - em meados do século, para que o objetivo do tratado de Paris, de limitar o aquecimento a 1,5/2,0 graus Celsius, possa ser atingido.

E, no entanto, 2018 viu uma poluição global de carbono sem precedentes no planeta: mais de 41 mil milhões de toneladas, dois por cento mais do que em 2017, que também já tinha sido um ano recorde.

As temperaturas globais aumentaram 1ºC acima dos níveis pré-industriais - o suficiente para aumentar o impacto de ondas de calor mortais, inundações e tempestades - e estão a caminho de subir mais dois ou três graus até o final do século.

"Não reduzir drasticamente e rapidamente as emissões resultará num desastre ambiental e económico", disse o co-autor do estudo James McCarty, professor de oceanografia da Universidade de Harvard.

Mais da metade das emissões de gases com efeito estufa provenientes de energia, indústria, agricultura e desmatamento - os principais fatores do aquecimento global - vieram de quatro países no ano passado: China, Estados Unidos, Índia e Rússia.

Ora, representando 13,1% do total, os EUA renunciaram ao acordo de Paris. Robert Watson espera que os outros países mais poluidores tomem a liderança desta luta: "China e Índia podem agora dizer 'caramba, vamos demonstrar ao mundo que somos líderes climáticos'", disse Watson à AFP.

União Europeia é o bom exemplo

Entre os 20% dos Estados que estão no bom caminho há uma clara predominância do bloco de países da União Europeia (UE). Aos 28, entre os quais se inclui Portugal, juntam-se a Islândia, Lichtenstein, Mónaco, Noruega, Suíça, Ucrânia e República da Moldávia.

Todos eles, de acordo com essa análise patrocinada pela Fundação Ecológica Universal (FEU), têm planos de redução de emissões de pelo menos 40% até 2030, em comparação com os níveis de 1990. No caso da UE, Liliana Hisas, diretora executiva da FEU, estima que algumas projeções sugerem que as medidas aprovadas levarão a uma redução de até 58% dessas emissões.

O Acordo de Paris obriga todos os Estados que aderiram ao pacto a apresentar planos para reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa, de forma a que o aumento médio da temperatura no planeta seja inferior a dois graus em comparação aos níveis pré-industriais e, tanto quanto possível, abaixo de 1,5 até final do século XXI.

"Estamos numa situação crítica", alerta Pablo Canziani, membro do IPCC. A soma de todas as contribuições atuais levará a um aumento de mais de três graus da temperatura média, como a ONU já alertou. "Isso significa que as medidas para enfrentar as mudanças climáticas devem duplicar ou triplicar na próxima década para reduzir as emissões em 50% até 2030", explica o relatório da FEU.

"E quanto mais adiadas as medidas, maiores os custos económicos e socioambientais", acrescenta Canziani. O relatório da FEU lembra, por exemplo, que os prejuízos económicos provocados pelos 690 eventos climáticos extremos ocorridos em 2017 situaram-se na ordem dos 330 mil milhões de dólares [cerca de 298 mil milhões de euros]. Até 2030, alertam os pesquisadores, estima-se que estes prejuízos possam duplicar se não for acelerado o combate dos países contra as alterações climáticas.

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