Navegar é Preciso

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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João Gobern

O regresso ao desconhecido

O descalabro económico e a rutura da paz social na Venezuela - que nos impressiona ainda mais porque o carácter quase exemplar daquele país, sobretudo no quadro sempre adiado da América Latina, não vem da era dos nossos pais ou antepassados, antes se constitui como uma memória própria - ameaçam tocar-nos mais de perto do que parecia lógico e possível. O êxodo começou há algum tempo e a comunidade portuguesa, que inclui os lusodescendentes, não pode escapar-lhe. Começamos a ouvir falar em "planos de contingência" que alguns, em nome uma oportunidade (ou oportunismo?) para angariar dividendos políticos, reclamam ver revelada publicamente, sem se darem ao trabalho de pensar que, em matérias de salvação e de resgate, vale mais ser discreto e eficaz. De qualquer forma, e embora deva sempre falar mais alto o valor da vida (e, se possível, da qualidade de vida), os números impressionam: 400 mil cidadãos nacionais, estimativa que triplica se entrarem na estatística filhos e netos daqueles que decidiram emigrar. Por aquelas paragens, depois do Brasil, foi precisamente na Venezuela, com quase 32 milhões de habitantes até há dois anos, que mais portugueses se fiaram.

João Gobern

Navegar é Preciso - O génio acidental

Afinal, Ingrid Bergman não achava qualquer graça a Humphrey Bogart e a "química" atribuída à dupla, um dos trunfos decisivos do filme Casablanca, nunca existiu. A atriz sueca, a quem se atribuiu vários romances com parceiros de cena, não via talento especial no homem que precisara de tantas oportunidades para se revelar em Relíquia Macabra e gozava com a circunstância de Bogart precisar de usar sapatos com plataformas para se tornar mais alto do que ela. Além disso, Ingrid cumpria em Casablanca um "empréstimo" - sob contrato com David O. Selznick, fora temporariamente cedida à Warner Bros. Mas ansiava pelo começo do trabalho no filme que realmente a motivava, Por Quem os Sinos Dobram, ao lado de Gregory Peck. No livro The Making of Casablanca - Bogart, Bergman and World War II (ed. Hyperion, 1992), o autor, Aliean Harmetz, dá conta de que os dois atores só se encontraram uma vez fora dos cenários, na ocasião em que aceitaram um convite para almoçar de uma amiga comum, Geraldine Fitzgerald. Esta contaria, mais tarde, que a conversa de ambos se centrou na melhor forma de escaparem ao filme, que consideravam "inconsequente" e cheio de "diálogos ridículos". E Bogart ainda tinha de lidar com as cenas de ciúmes que a sua cara metade à época, Mayo Methot, repetia insistentemente, acusando-o de ter um caso com Bergman...