Navegar é Preciso

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NAVEGAR É PRECISO. Quinhentinhos

Os computadores, sobretudo os pessoais e caseiros, também nos trouxeram isto: a acessibilidade da "memória", através do armazenamento, cronológico e quantificado. O que me permite - sem esforço - concluir, e partilhar, que este é o meu texto número 500 no Diário de Notícias. Tendo trabalhado a tempo inteiro e colaborado em muitas outras publicações, "mais do que prometia a força humana", nunca tive, em quatro décadas de peças assinadas, uma oportunidade semelhante de festejar algo de semelhante, fosse pela premência do tempo útil sobre o "ato contemplativo" ou pela velocidade inusitada com que ia perdendo os trabalhinhos, nem por isso merecedores de prolongamento do tempo de "vida útil". Permitam-me, pelo ineditismo da situação, esta rápida viagem que, noutro quadro e noutras plataformas, receberia a designação (problemática, reconheça-se) de egosurfing.

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Opinião

Navegar é preciso. Geração espontânea

O seu a seu dono: o mote para esta crónica foi-me "oferecido" por Luísa Sobral, uma artista cujo crescimento, múltiplo, tenho a sorte de acompanhar a par e passo, a uma distância "prudente" (para ambos) mas com a atenção plenamente justificada pelos méritos acumulados. Falávamos, desta vez, das gerações e das mudanças de circunstância que - também - ajudam a caracterizá-las. O que me levou a mais uma viagem no tempo, direitinho à época em que, sobretudo no rock nacional (o tal que conseguiu escapar, por causa do talento e persistência dos músicos, ao destino de "galinha dos ovos de ouro", depois de um período em que passar à porta de um estúdio quase equivalia a um convite para gravar...), a rivalidade era parte integrante da roda de alimentos. Não se tratou, entenda-se, de um exclusivo nacional e basta recordar o que muitos viveram, cerrando fileiras em torno dos Beatles ou, por oposição, mergulhando na trincheira ao lado dos Rolling Stones. Ou, muitas luas mais tarde, como tantos se ocuparam a tomar partido pelos Blur contra os Oasis, ou vice-versa.

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João Gobern

O IVA contra a gripe

Com mais convicção ou maior resignação, fomo-nos habituando ao jargão que nos impôs termos como "empreendedorismo" ou, menos mal, "iniciativa". Não há, que eu conheça, tecnocrata que lhes resista, independentemente do quadrante político em que enfileire. Bem vistas as coisas, são palavras que enchem a boca e que, ditas sem mais, ainda impressionam e acabam por soar como bandeiras de suporte para outra, a da "modernização". Para algo completamente diferente, também nos foi entrando pelo catálogo das ideias incontestáveis, pela mão de cientistas, espontâneos ou "partes" comercialmente interessadas, a caracterização de Portugal (fora os outros) de um país que contacta pouco com a natureza, que não se apega ao ar livre, que assume rotinas sedentárias, sem espaço para a surpresa e para as alternativas. Tudo jóia.

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João Gobern

Simone e outros ciclones

O mais fácil é fazer coincidir com o avanço da idade o crescimento da necessidade - também um enorme prazer, em caso de dúvida - de conversar e, mais especificamente, do desejo de ouvir quem merece. De outra forma, tornar-se-ia estranho e incoerente estar às portas de uma década consecutiva em programas de rádio (dois, sempre com parceiros que acrescentam) que se interessam por escutar histórias e fazer eco de ideias e que fazem "gala" de dar espaço e tempo a quem se desafia para vir falar. Não valorizo demasiado a idade, porque mantenho intacta a certeza de que se aprende muito com os mais novos, e não apenas com aqueles que cronologicamente nos antecederam. Há, no entanto, uma diferença substancial, quando se escuta - e tenta estimular-se aqueles que, por vias distintas, passaram pelo "olho do furacão". Viveram mais (com o devido respeito, "vivenciaram" fica para os que têm pressa de estar na moda...), experimentaram mais, enfrentaram batalhas e circunstâncias que, de alguma forma, nos podem ser úteis muito além da teoria. Acredito piamente que há pessoas, sem distinção de sexo, raça, religião ou aptidões socioprofissionais, que nos valem como memória viva, num momento em que esta parece cada vez mais ausente do nosso quotidiano, demasiado temperado pelo imediato, pelo efémero, pelo trivial.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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João Gobern

Primeiro prémio

Há livros que saem melhores do que a "encomenda". Aquele que entra em cena nas próximas linhas permite manter uma tradição muito lá de casa: aproveitar as escolhas que o júri do Man Booker Prize, prémio britânico que corresponde a um cheque de 50 mil libras e a um crescimento exponencial das vendas, elabora e daí eleger (pelo menos) um. O processo de selecção não podia ser mais egoísta, uma vez que parte simplesmente de uma análise das sinopses, via rápida para, em função dos interesses, partir à descoberta. Não se olha a nomes nem a currículos, ou quase - em caso de "empate" no interesse pelos sumários, privilegia-se os autores que ainda não se conhecem. Como acontece, agora, com a canadiana Esi Edugyan e com o contagiante Washington Black (ed. Serpent's Tail). O que revela, de imediato, a primeira falha: há pouco mais de meia dúzia de anos, a Porto Editora lançou por cá Um Blues Mestiço (Half Blood Blues, no original), mas terá sido um dos que se escaparam na malha da rede, empírica e desregrada, que vai servindo de padrão, à falta de melhor. Até porque a recuperação do "tempo perdido" é possível, quase sempre.

João Gobern

Fake, fancaria e fantasia

Será difícil começar melhor do que com um recurso assumidamente reverencial à sábia, acutilante e provocadora Agustina Bessa-Luís: "As boas ficções fazem as realidades mais saborosas, e, se não fosse o que os outros nos fazem errar sobre eles, a vida era menos interessante. A verdade, que eu saiba, não é virtude" (do livro Eugénia e Silvina, 1989). De uma forma mais elegante e mais envolvente, assim se estende a velha máxima que recomenda que não devemos deixar que a verdade estrague uma boa história. Para subscrever esta ideia, ou estas propostas, basta pensar como seria o mundo, mais aborrecido e menos palpitante, sem as ficções de García Márquez, de Borges, de Juan Rulfo, só para nos mantermos no universo mágico da América Latina. Há, no entanto, uma ressalva que merece vir desde já à superfície: se Agustina é uma das nossas grandes estetas, arquiteta de conceitos, espeleóloga de palavras - apesar de a ter ouvido dizer, com ironia: "sei que sou das escritoras portuguesas mais conhecidas, nem por isso das mais lidas..." -, a escritora amarantina nunca foi jornalista, embora tivesse exercido funções de diretora de um jornal, do Porto, e impressione com uma imensa colaboração em publicações periódicas.