Editorial

Rosália Amorim

Menos romantismo, mais realismo

Lisboa foi palco, nos últimos dias, de duas grandes conferências. Uma sobre as alterações climáticas e os novos modelos económicos, organizada no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia, e, antes, uma outra sobre o futuro dos oceanos, organizada pelo Clube de Lisboa. Em ambas participei como moderadora convidada - acreditando que também assim se faz serviço público e é possível dar um contributo para o debate de matérias tão importantes para o futuro da humanidade - e, nas conclusões, sobressaiu uma mensagem comum e clara: é preciso menos romantismo e mais realismo. Os desafios do clima devem inquietar-nos a todos e todos os dias. Em cada ato podemos estar a ajudar ou a prejudicar o ambiente. Em decisões tão simples quando reciclar o lixo, usar fontes de energia renovável ou, simplesmente, comprar uma peça de roupa em fibra natural e reutilizável. O realismo é igualmente determinante na definição e na aplicação das políticas públicas e na relação do país e da Europa com outros mercados comerciais, que fazem orelhas moucas aos gritos do planeta.

Rosália Amorim

Duas grandes figuras portuguesas

De pequeno, Portugal só terá a dimensão geográfica, além de algumas mentalidades pequeninas e limitadas, mas não são essas que aqui me trazem hoje. Duas grandes figuras portuguesas, cada uma no seu estilo e no seu campo político, têm demonstrado do que são feitos os melhores de nós. António Guterres está a desempenhar a missão da sua vida, ao liderar as Nações Unidas até ao dia 31 de dezembro deste ano. Durão Barroso destacou-se como presidente da Comissão Europeia e agora volta a assumir um papel importante para todos: o de presidente do conselho de administração da Gavi, The Vaccine Alliance.

Joana Petiz

Um país debaixo de água

Mais de seis milhões de euros a mais por dia. É esta a dimensão do monstro do endividamento das famílias portuguesas desde que chegou a pandemia. Não é só crédito novo, boa parte deste valor global - que engorda as dívidas dos portugueses para um bolo que só há quatro anos teve dimensão semelhante - chega à boleia das moratórias, que adiam pagamentos para depois de setembro. Mas a questão é precisamente essa: quando o prazo das moratórias terminar, as prestações têm de voltar a ser pagas. As do momento, acrescidas do que ficou para trás - que em muitos casos engloba juros e capital emprestado. E cuja fatura vai chegar, em muitos casos, a famílias que perderam rendimentos ou ficaram mesmo sem o emprego.

Leonídio Paulo Ferreira

Eanes, o Império e a Catalunha

"Sem Império dificilmente teríamos mantido a independência em certas épocas. Seríamos uma Catalunha "menos"", disse o general Eanes, reagindo à retirada dos brasões coloniais da Praça do Império. Mesmo proferida noutro contexto, a afirmação do antigo Presidente sobressai quando se está em fim de semana eleitoral na Catalunha, região de Espanha em que, em vez de escolher um governo, cada votação se tornou um braço-de-ferro entre os campos espanholista e independentista. O eleitorado costuma partir-se quase ao meio, mas o sistema tende a dar uma ligeira maioria no parlamento de Barcelona à soma dos partidos que defendem o corte com Madrid e desta vez não deverá ser diferente, mesmo que o socialista Illa, até há pouco ministro espanhol da Saúde, seja o favorito.

Rosália Amorim

A república, a ética e a moral

Ainda não é hora de baixar os braços. Muitos portugueses assinalam já a descida do número de infetados e de mortos por covid-19, em Portugal. Os casos baixaram do pico dos 15 mil para cerca de seis mil infetados por dia e as vidas perdidas já não são três centenas diárias, mas estão lá perto: 258. A estatística da pandemia continua a colocar-nos no patamar dos piores quando comparados com outros países do mundo. Ontem foi atingido um novo máximo nos cuidados intensivos: há 904 doentes nesses serviços de fim de linha. São dados oficiais e atualizados da Direção-Geral da Saúde que devem continuar a pôr-nos em sentido.

Editorial

A fatura será paga pelos mais novos

Não tocar, não brincar, não correr, não abraçar, não beijar, não sair, não conviver, não aprender. São prenúncio de desgraça os princípios que dominam a educação das gerações que crescem na Europa em pandemia. Não são só os mais pequenos, que hoje temos de persuadir a estar permanentemente em casa, sem os amiguinhos, sem as lições e sem gastar energias. A quem temos de convencer que estão de férias quando é época de aulas - mas não podem fazer nada do que costumavam, no máximo jogar consola ou ver televisão - e a quem obrigaremos a passar horas à frente do computador a aprender a lição, quando deviam estar a brincar ao Carnaval. São também os adolescentes que estariam a fazer amigos para a vida, a viver as primeiras paixões e corações partidos. São os universitários que deviam estar a viver os melhores anos das suas vidas, entre festas e viagens de mochila às costas, sem medos e com poucos limites.

Joana Petiz

Chega de navegar à vista

Não, ninguém inveja a posição de quem tem de tomar decisões neste momento. Quem está nessa posição, porém, e não a rejeitou, continua a ser responsável pelo que faz - e pelo que opta por não fazer. E não pode justificar-se com a dificuldade da posição em que aceitou estar e permanecer. O tempo de avaliar quem está aos comandos não é este. Mas é o de decidir e assumir responsabilidades. De dar a cara e as explicações - obrigação de quem se senta nessas cadeiras - em momentos de rutura como terça-feira à noite, quando, ignorados os avisos de quem está no terreno, o sistema de oxigénio de que depende mais de uma centena de doentes colapsou.

Rosália Amorim

Desígnios de um país "doente"

As altas figuras do Estado vão ser vacinadas a partir da próxima semana. Defender o contrário para ser popular, irreverente ou jogar no campo das demagogias ou ideologias não é sério. Quem lidera, dirige, administra um país em pandemia tem de estar sempre na linha da frente. Não se trata da mesma linha da frente em que estão médicos, enfermeiros e auxiliares - que, obviamente, devem todos ter via verde para a vacinação, no público e no privado, bem como bombeiros e forças de segurança envolvidas no combate à covid-19. Mas, cada um, na sua missão, precisa de continuar a lutar. Sem parar. O Diário de Notícias revelou ontem, em primeira mão, o despacho assinado pelo primeiro-ministro, bem como as cartas enviadas aos órgãos de soberania no sentido de começarem a ser definidas as prioridades de vacinação, consoante as disponibilidades.

Rosália Amorim

Um novo normal exige um novo tipo de voto

A pandemia tem o mérito de acelerar processos que há muito estavam por decidir. Por isso, esperava-se mais no que toca à gestão do voto nas próximas eleições, uma vez que estamos a viver em plena catástrofe da covid-19, mas também na era mais digital de todas. E se acrescentarmos a isso o facto de que estamos a poucas horas de um novo confinamento - já antecipado pelos médicos, em virtude do alívio das restrições no Natal -,então era necessário ter planeado e modernizado o processo eleitoral há muito.