Editorial

Opinião da direção

Do século XIX ao século XXI

Estive diretor do Diário de Notícias pouco mais de um ano e meio, uma gota de água num oceano de século e meio de existência deste jornal, que foi fundado por Eduardo Coelho e teve Eça de Queirós como repórter. Os 153 anos de vida são uma história de todas as pessoas que o fizeram, os de agora e os dos outros tempos. A todos os que trabalharam comigo neste ano e meio agradeço o esforço e desejo a melhor sorte do mundo. Mas nunca podem perder de vista que a sorte se conquista. Nada acontece sem muito trabalho.

Editorial

Com o dedo do meio esticado

A foto da capa revela uma opção editorial. O politicamente correto não serve para tratar de assuntos que nenhuma sociedade deveria tolerar. Devemos a Hollywood esta discussão que se faz à escala global. De lá choveram denúncias, algumas com décadas de atraso, outras de dias recentes, sobre assédio sexual. As leis proibindo que qualquer pessoa seja importunada sexualmente existem nos Estados Unidos e em Portugal, mas a coragem para fazer todas estas denúncias precisa muitas vezes de que uma figura pública dê o primeiro passo e precisa igualmente de que aconteçam movimentos como aquele que dá a volta ao mundo com uma hashtag no Twitter a dizer Me Too (eu também). Nas redes sociais não há apenas porcaria, há igualmente uma capacidade única de tornar globalmente conhecida uma indignação que estava condenada a morrer no segredo de cada vítima.

Editorial

Assim não dá para ir à escola

Não teria sido necessário sair de Lisboa para fazer uma reportagem sobre o frio que faz na sala de aulas de algumas escolas e que, obviamente, prejudica as condições em que estes alunos aprendem(?) a matéria. Ir a Serpa também não foi uma opção do acaso. O título deste editorial e a reportagem que temos nas páginas do Diário de Notícias são igualmente uma homenagem à imprensa regional. Devemos dizê-lo, foi no Diário do Alentejo que nos inspirámos para ir à escola de Serpa, que esteve na primeira página deste jornal, mas para ir também a Coimbra ou ficar por Lisboa e mostrar exemplos de escolas degradadas, em que os alunos que aqui estudam estão em condições de forte desigualdade em relação a muitos outros.

Editorial

Um continente de dúvidas. A certeza da obrigação da mudança

Chegar à viragem do ano com dúvidas sobre o que será a evolução da Europa no ano seguinte é um cenário que, infelizmente, se tornou cada vez mais habitual. Desde o início da crise financeira - e sobretudo da crise das dívidas soberanas - que o projeto europeu tem vindo a mostrar as suas fragilidades e a fazer nascer todas as dúvidas sobre a capacidade de a Europa funcionar enquanto bloco único. Poderá questionar-se o leitor então sobre o porquê de, nesta edição, estarmos a lançar o desafio de refletir sobre o que será o futuro da Europa. A resposta é simples: é que as dúvidas que colocávamos ao longo dos últimos anos tinham uma base essencialmente financeira, sobre a solidez do euro ou a capacidade de financiamento dos Estados. Dúvidas que foram parcialmente dissipadas com a intervenção do Banco Central Europeu. E neste final de 2016 o problema é claramente mais abrangente do que a questão financeira.

Opinião da direção

Crescer mesmo

Primeiro foram os sindicatos, depois o PCP e agora Jerónimo de Sousa reafirma que o salário mínimo tem de subir já para os 600 euros. António Costa, que além de negociar com os partidos que o apoiam tem de mostrar as contas em Bruxelas, tem uma visão mais morna da coisa e prefere esperar pelo fim da legislatura para atingir essa fasquia. E as empresas, a braços com níveis de alavancagem incomportáveis e com o investimento a custar a arrancar, começam a fazer contas aos 44 milhões que lhes custaria subir o salário mínimo para esse valor já no próximo ano. Mesmo sem aquele incremento nos custos, nos primeiros oito meses deste ano foram 5002 a fechar as portas, mais 9% do que até agosto de 2015, e o ritmo de criação de novas empresas baixou em 3,5 pontos. E enquanto isso, Bruxelas vai avisando que uma remuneração mínima de 600 euros num país em que um quinto dos trabalhadores recebe por essa bitola é prejudicial para o emprego. É verdade que há ainda muitas dificuldades que o país e as empresas têm de ultrapassar, mas se olharmos para os números que mostram que o consumo está estagnado, a poupança atingiu níveis historicamente baixos e o endividamento se mantém demasiado alto, só podemos concluir que há algo de errado nesta equação. Usar os salários baixos como fator de competitividade não resulta. Já se percebeu. É preciso que o país invista na educação e na especialização para melhorar as suas hipóteses de sucesso. Que crie condições para captar investimento - mexer nos impostos a cada 15 dias está longe de ser uma fórmula de sucesso. E é preciso que as empresas continuem a reinventar-se, a reduzir a alavancagem e a fazer um esforço de procura de novos mercados para terem condições de beneficiarem desse talento acrescido e de o pagarem a um preço justo. Enquanto continuarmos a contar tostões não será possível encontrar caminhos que nos levem ao verdadeiro crescimento económico.

Opinião da direção

Pedir de mais

Em menos de um ano, o governo repôs a semana de trabalho de 35 horas na função pública, recuperou os quatro feriados perdidos com o executivo de Passos Coelho, subiu o salário mínimo. Desde que a troika saiu de Portugal, o salário médio aumentou para 838 euros, o valor mais alto de sempre - ainda que em demasiados casos longe do que seria uma compensação justa e capaz de melhorar o nível de vida das famílias portuguesas. Agora, as estruturas sindicais preparam-se para reclamar mais dias de férias para os trabalhadores e a CGTP ameaça voltar à carga com o salário mínimo para 600 euros. Não há nada de errado em tentar melhorar a vida dos trabalhadores. O problema é querer fazê-lo demasiado depressa, artificialmente, impondo às empresas mínimos que muitas delas não têm estrutura para aguentar. E fazendo orelhas moucas aos alertas dos empresários. O tecido empresarial português não é uma associação de malfeitores que esconde lucros chorudos enquanto escraviza os trabalhadores. As mudanças que teve de encaixar nos últimos tempos tiveram um preço. E a esse custo é preciso somar outros fatores determinantes para a saúde do tecido empresarial: continua a haver demasiada alavancagem, há parcas perspetivas de crescimento - o consumo interno que demora a arrancar e as exportações a desacelerar -, o ritmo de investimento tem muito pouca expressão. E a desconfiança que persiste em relação à capacidade de Portugal para cumprir as metas com que se comprometeu em Bruxelas é mais um escolho no caminho das empresas. Provocar mudanças quando não há condições reais para que aconteçam é sempre má ideia. Impor ao setor privado regras que dificultam a sua missão num momento de fragilidade económica e em que o país tanto precisa que recupere a pujança comporta demasiados riscos. Para o emprego, para o consumo, para o crescimento. O Estado não tem condições para se substituir às empresas - nem sequer para complementar o seu papel. Exigir-lhes o que não podem dar ou que pode comprometer o seu futuro é o caminho certo para o desastre.

Editorial

O populista perfeito

Luís Nuno Rodrigues é doutorado em História Americana. E fez o curso no Wisconsin, uma parte da América longe de Washington, Nova Iorque ou Los Angeles. Das suas leituras e investigação, e da vivência nos Estados Unidos, resulta uma capacidade de interpretação da realidade que só nos ajuda a compreender as eleições presidenciais deste ano, em que um dos grandes partidos tradicionais acabou por escolher um candidato mal-amado e que as sondagens preveem que seja perdedor. Conclui o professor do ISCTE-IUL que "A América de Trump sempre existiu", título aliás do ensaio que hoje publicamos no DN.

Editorial

Pedregulhos

Apesar de as intenções para o futuro serem as melhores, os níveis de investimento direto estrangeiro no país sofreram um tombo sério. Nos primeiros seis meses do ano, são menos 40% do que até junho do ano passado e para piorar as coisas quase um terço do valor que entrou terá de ser devolvido a prazo - são empréstimos que regressarão à origem mais cedo ou mais tarde. Nesta semana, vários bancos internacionais e jornais estrangeiros - sobretudo alemães - fizeram soar sinais de alerta. As contas portuguesas estão a resvalar, o futuro dos bancos continua incerto - entre vendas que tardam em concretizar-se e crédito malparado difícil de desfazer -, os investidores, cautelosos, estão a adiar decisões, a única agência de rating que garante que o BCE continua a comprar dívida portuguesa tem dúvidas quanto ao futuro do país. E por tudo isto, dizem, será difícil cumprir as metas que foram acordadas com Bruxelas. Apontam nuvens negras no horizonte que podem indiciar a tempestade: a necessidade de novo resgate. É verdade que há problemas aqui dentro, mas também é certo que muitos dos monstros que projetam sombras sobre nós não são de produção nacional. A começar pelo efeito que esta avalancha de notícias negras e maus auspícios tem sobre a economia do país. Mas há muito mais. É preciso não esquecer o estado débil em que se encontra toda a zona euro - o crescimento anémico ainda mais enfraquecido pelo brexit. E não se pode ver como pormenor o que está a acontecer com os nossos principais parceiros económicos: falta pouco para Espanha cumprir um ano sem governo e continua a não se vislumbrar solução - ainda que Madrid esteja a crescer a mais de 3%, as grandes decisões económicas e financeiras estão na gaveta. Os baixos preços do petróleo travaram a fundo a economia angolana. O Reino Unido está concentrado no processo de transformação e adaptação pós-brexit. E o consumo interno, já se viu, não é capaz de levar sozinho o país às costas. O Banco de Portugal conclui, no seu boletim económico, que a economia portuguesa continua muito vulnerável a choques internos e externos. É verdade: o país tem um caminho a percorrer e é bom que não se desfoque das reformas e ajustes indispensáveis à sobrevivência, sem os quais voltará a bater no fundo. Mas há que reconhecer que estamos a fazer essa caminhada em condições especialmente difíceis. Não é o caminho das pedras, é o dos pedregulhos, o desafio que temos pela frente.

Editorial

A nova vida da TAP

Como muitos anteciparam que aconteceria, as coisas mudaram mesmo na TAP, desde que deixou de ser gerida pelo Estado. No entanto, tirando o desgosto de já não ver partir do Porto tantos voos, as diferenças que vemos um ano depois de a companhia passar para as mãos de privados não deixam pintar o quadro negro que tantos anteciparam como certo. Nestes meses, foram encomendados novos aviões, anunciadas novas rotas - com particular foco no aumento da oferta de e para os Estados Unidos -, atingidos novos recordes de passageiros. Até os trabalhadores estão contentes: ao fim de seis anos de salários congelados, vão ter aumentos e com retroativos a janeiro deste ano. E se os resultados ainda não chegaram a terreno positivo, os prejuízos foram já consideravelmente reduzidos - de cem para 28 milhões de euros no primeiro semestre do ano -, e é bem natural que nos seis meses que incluem verão, Natal e fim de ano se consiga finalmente atingir os lucros na companhia de bandeira. O que significa que estamos a ponto de viver um momento histórico: a TAP pode começar a dar dinheiro ao Estado. Claro que ainda há problemas, há uma dívida para pagar, há um processo de recapitalização em curso, há custos acrescidos com as novas aeronaves que vão chegar nos próximos anos. Mas mais dia menos dia chegaremos lá. Porém, tudo isto está dependente de dois fatores importantes. Em primeiro lugar, que o processo de privatização se encerre sem mais solavancos - o que, incrivelmente, não só ainda não aconteceu como, mais espantoso ainda, o regulador ainda está a analisar os pressupostos do negócio que previa que 61% da companhia ficasse nas mãos de Pedrosa e Neeleman. Em segundo, que a reconfiguração acionista salomónica que o governo socialista negociou - 50% para cada lado tem sempre riscos associados - não resulte na tentação de interferir numa gestão que está, aparentemente, no caminho certo.