Editorial

Editorial

Aumentos no OE2023? Só se for nos impostos

Imune às tentativas do BCE de recuperar o controlo sobre a fera, a inflação mantém firme o ritmo de escalada, encaminhando-nos a passos largos para o buraco. O Eurostat revelava ontem os números do terror, que já quase dobram a esquina dos 9% na zona euro, mais de quatro vezes acima da fasquia de 2% que se aceita como limite do estado de saúde da região. Pondo os 27 do bolo europeu na balança, o monstro cresce ainda mais um ponto, para os 9,8%.

Leonídio Paulo Ferreira

Falta de energia

Em conversas com vários responsáveis de ministérios em Berlim, no início de junho, tive sempre a irreversibilidade do abandono do nuclear no final do ano como resposta à pergunta sobre se a guerra na Ucrânia e a redução de importação de gás russo (tanto a médio-prazo por decisão alemã, como imediata por retaliação russa) obrigaria a repensar o destino das três centrais ainda em operação. Não tive dúvidas de que a decisão estava tomada, mesmo que tivesse sido discutida a política do abandono nuclear pelos parceiros governamentais, ou seja sociais-democratas, verdes e liberais, assim que se aperceberam das primeiras implicações do choque entre o Ocidente e a Rússia. E uma das razões da minha convicção era que não só o nuclear nunca fora popular entre a população alemã, como a política de encerrar as centrais até 2022, que começou por ser um objetivo dos verdes, com a ex-chanceler Angela Merkel acabou por tornar-se quase unânime nos grandes partidos alemães.

Editorial

Dia de comprar um livro de Rushdie

Troquei umas palavras com Salman Rushdie em 2006, numa ida deste à Biblioteca de Santa Maria da Feira para debater o choque de religiões com o arqueólogo Cláudio Torres e o padre Anselmo Borges. O objetivo era uma entrevista para o DN que não chegou a acontecer, mas fiquei feliz por ver o escritor tão à vontade em Portugal. Creio que começava a perder o medo de ver concretizada a fatwa de 1989 que o condenava à morte por ofensas ao islão, pois afinal o Irão tinha-se comprometido a não aplicar o decreto do falecido ayatollah Khomeini depois de longas negociações com o Reino Unido (nascido na Índia, Rushdie era já cidadão britânico, à qual junta agora a nacionalidade americana).

Leonídio Paulo Ferreira

Climas de guerra

Numa recente reportagem com Helena Freitas, catedrática de Biodiversidade e Ecologia na Universidade de Coimbra, a atual diretora do Parque de Serralves, comentando o impacto das sanções a Moscovo por causa da guerra na Ucrânia, nomeadamente na substituição do gás russo por outros combustíveis fósseis mais poluentes, afirmava que "sobretudo o uso do carvão, é um risco e tudo dependerá do que vai acontecer nos próximos meses neste embate. As renováveis não conseguem, de momento, dar resposta. Mas podemos conseguir uma maior parcimónia na forma como usamos os recursos e ter investimento tecnológico maior. Há condições para isso, mas não é fácil, é preciso sintonia. De qualquer forma, penso que no final deste ano as emissões de carbono deverão ter aumentado. Só espero que esse retrocesso seja temporário".

Leonídio Paulo Ferreira

No tempo de Mao e Chiang era tudo bem mais simples

Tudo era mais simples no Estreito de Taiwan quando Mao Tsé-tung esperava apenas pelo momento certo para enviar tropas para a ilha sob controlo do Kuomintang e terminar de vez com a guerra civil a favor da República Popular da China, enquanto no outro lado, Chiang Kai-shek acumulava armamento para um dia tentar a reconquista do continente aos comunistas e restabelecer o domínio da República da China, interrompido em 1949. Tanto Mao como Chiang acreditavam numa só China, queriam-na toda sua e, claro, impor nela a respetiva ideologia.

Rosália Amorim

Dinheiro e energia não nascem nas árvores

Os preços da energia vão continuar a subir e o prolongamento da guerra arrastará esse efeito, depauperando ainda mais a carteira das famílias portuguesas e da generalidade das empresas. O presidente da Endesa admitiu, no último domingo, aumentos de 40% na eletricidade e o país ficou chocado. O governo chamou-lhe "alarmista". Mas todos sabemos que, quando acabar a subsidiação do gás e com o agudizar das alterações climáticas que deixam as barragens vazias, a eletricidade vai ficar ainda mais cara. Ninguém sabe é quanto, mas do aumento não nos livramos. Assim, temos todos fortes razões para estar preocupados, sejamos clientes deste operador ou de outro. Há um quadro geral e macroeconómico que não depende da Endesa, nem do governo, mas sim dos mercados, do ambiente e, acima de tudo, do risco geopolítico europeu.

Leonídio Paulo Ferreira

Oriente, Oriente

África, Brasil e Oriente. Sem dúvida que da era das Descobertas herdámos uma relação muito especial com estas partes do mundo, e certamente haverá portugueses que se identificam mais com uma do que com as outras. Pessoalmente, devo confessar que quando se trata da história de Portugal o meu fascínio é sobretudo pelos nossos contactos com o Oriente, no sentido não de Próximo ou de Médio, mas sim quase de Extremo, indo até ao Japão e começando na Índia ou até, se pensarmos bem, no golfo Pérsico, como ainda hoje testemunham as fortalezas no Irão, em Omã ou no Bahrein.

Leonídio Paulo Ferreira

Teste à democracia tunisina

Ficou célebre a imagem de Habib Bourguiba na televisão a beber um sumo de laranja em pleno Ramadão e a explicar aos tunisinos que o Islão e a modernidade eram compatíveis. Mas o maior legado do pai da independência da Tunísia (até à década de 1950 um protetorado francês) foi a emancipação feminina, pioneira no mundo árabe, e que explica o papel das mulheres nos protestos que em 2011 fizeram cair o regime de Ben Ali (que se exilou), sucessor de Bourguiba desde 1987, mas claramente sem o carisma do primeiro presidente e muito prejudicado na imagem popular pelo crescente nepotismo. Foi assim na pequena Tunísia que começou a famosa Primavera Árabe, com consequências terríveis para os ditadores líbio, egípcio e iemenita, todos depostos, e no caso de Muammar Kadhafi até morto por uma multidão.

Joana Petiz

O tempo da formação no Estado da Nação

Faltam pessoas no mercado do trabalho em Portugal. E entre as que ainda aqui persistem, muitas têm qualificações desfasadas das necessidades de hoje ou estão em funções que vão deixar de ser desempenhadas por mão humana ou simplesmente desaparecer nos próximos tempos. A reconversão e a requalificação de competências é um dos maiores desafios que o país enfrenta numa altura em que as fronteiras nacionais são mais ténues do que nunca no que ao emprego diz respeito, depois de a pandemia ter acelerado brutalmente os processos digitais e materializado as infindáveis possibilidades do trabalho remoto.

Rosália Amorim

Qual é o estado da Nação?

No próximo dia 20 vai a debate o estado da Nação. No Parlamento será discutido o raio-X do país. A recente crise política vai ser, certamente, arma de arremesso da oposição contra o governo, bem como o tema que desencadeou toda essa polémica: a localização do futuro aeroporto que vai servir a grande Lisboa. A decisão é urgente, o turismo está ao rubro e seria muito útil que o Partido Socialista e o Partido Social Democrata acelerassem as conversações em redor desse tema e não deixassem tudo para resolver só depois das férias de agosto. O país não pode parar e a nação precisa de avançar.