Editorial

Leonídio Paulo Ferreira

Soares, Cavaco e Eanes? Um maior do que os outros?

Quem foi o político de maior sucesso neste nosso quase meio século de democracia? Pelos votos, afinal o direito que todos conquistámos a 25 de abril de 1974, pode arriscar-se dizer Cavaco Silva, que é neste sábado entrevistado no DN, fotografado frente ao CCB, que mandou construir na década em que foi primeiro-ministro de Portugal. Afinal, o professor de Finanças, hoje com 81 anos, foi seis vezes a votos a nível nacional e ganhou cinco. E dessas cinco vitórias quatro foram com mais de 50% dos votos: duas como candidato do PSD à chefia do governo (1987 e 1991), duas como candidato presidencial (2006 e 2011).

Opinião da direção

Do século XIX ao século XXI

Estive diretor do Diário de Notícias pouco mais de um ano e meio, uma gota de água num oceano de século e meio de existência deste jornal, que foi fundado por Eduardo Coelho e teve Eça de Queirós como repórter. Os 153 anos de vida são uma história de todas as pessoas que o fizeram, os de agora e os dos outros tempos. A todos os que trabalharam comigo neste ano e meio agradeço o esforço e desejo a melhor sorte do mundo. Mas nunca podem perder de vista que a sorte se conquista. Nada acontece sem muito trabalho.

Editorial

A gula política pode resultar em suicídio

A bomba que Pedro Passos Coelho lançou ontem, em visita à zona do incêndio em Pedrógão Grande, estourou-lhe nas mãos. Tivesse havido suicídios e as declarações seriam igualmente más, seriam igualmente irresponsáveis. Não havendo suicídios, um que fosse, passou a haver, pelo menos, uma tentativa de suicídio político. Com isso, o líder do PSD deu espaço ao governo para respirar. Tão depressa nos apresentaram Passos Coelho como mensageiro das más notícias como o apresentaram no papel de vítima, dizendo-nos que essa falha incompreensível do líder da oposição resultou de informação falsa, fornecida pelo candidato do PSD à Câmara Municipal de Pedrógão Grande. Uma adenda à irresponsabilidade política de Pedro Passos Coelho, apenas diminuída pelo pedido de desculpas feito algumas horas depois. Um político tem de saber fazer gestão rigorosa da informação que recebe. Confirmada que tivesse a informação de um suicídio, ou de vários suicídios por "falta de apoio psicológico" como disse Pedro Passos Coelho, o líder do PSD tinha duas opções: ou não fazia aproveitamento político da desgraça alheia, recusando-se comentar, ou exigia saber se tinha havido o necessário apoio de psicólogos àquelas populações, sem imputar a essa eventual falha a causa específica dos alegados suicídios. O que se torna evidente, com o infeliz episódio de ontem, é que existe o receio de que o tempo a passar leve ao esquecimento, à indisponibilidade das pessoas para ajustes de contas entre políticos. Tão grande foi a tragédia, tantas foram as falhas do Estado, que há pressa em encostar o governo às cordas. A verdade é que a dimensão da tragédia de Pedrógão Grande deveria levar todos os partidos políticos, apoiantes do governo ou da oposição a libertar-se da hipocrisia política, bem evidente na posição que cada um assume. Como não estranhar as falas mansas dos dirigentes do PCP e do Bloco nestes dias, comparadas com as declarações inflamadas perante incêndios menos graves mas que aconteceram com estes partidos na oposição? Como não estranhar que o PS no governo exija uma contenção que raramente teve quando estava na oposição? Não deixa de ser igualmente estranho que tenha sido o PSD, que se vinha mantendo num registo elogiado por vários setores da sociedade, a dar este tiro no pé. É cada vez mais certo que há setores do PSD a sofrer do pecado da gula, tanto querem tirar proveito político desta tragédia que acabam a aconselhar muito mal o líder do partido.

Editorial

Não queremos ter desculpa 

A foto que o DN publica hoje na primeira página é uma foto chocante. Foi publicada em primeira mão pela CNN e ninguém nos pode garantir que seja verdadeira. A história recente, aliás, está carregada de exemplos de manipulação que deixaram o jornalismo ficar mal. Mas então porque é que o DN a publica? Porque não temos a mínima dúvida da perseguição de que são vítimas os muçulmanos rohingya na Birmânia (análise deste conflito no link abaixo).

Opinião da direção

O acordo aguenta

Nem a reposição dos 10% cortados pela troika nem a atualização automática via indexante de apoios sociais. O PCP não aceita - e votará contra - que aos partidos políticos seja dado mais um cêntimo que seja de financiamento além do que está hoje previsto. E até acha que o valor atual devia ser reduzido. O que é curioso nisto nem sequer é a posição dos comunistas - numa altura em que ainda há tanto a fazer por quem sofreu na pele a austeridade imposta pelos nossos credores, estranho seria que os comunistas quisessem açambarcar para o partido dinheiro que poderia ser usado para ajudar os portugueses. Incrível é que o PCP é o único dos sete partidos com assento parlamentar que se pronuncia contra o aumento do financiamento aos partidos. Todos os outros, Bloco e PAN incluídos, ficam em silêncio, à espera de que alguém tome uma decisão. Tem sido assim desde que os partidos da esquerda assinaram a posição conjunta que permitiu ao PS ter maioria parlamentar. O PCP pouco ou nada cede naquilo que é a sua doutrina, mesmo que com isso ponha em risco a aprovação de projetos dos partidos que apoiam o governo que ajudou a legitimar - foi assim, por exemplo, com as barrigas de aluguer. O PAN olha em volta à espera de que algo aconteça. E o Bloco, fiel ao que vê como um acordo que favorece os seus objetivos para o país, só levanta a voz quando sabe que não pode estragar grande coisa. Claro que este exclusivo bloquista de quase perfeita harmonia com o PS está a deixar marcas. Uma delas é a aparente ascensão do Bloco a parceiro natural dos socialistas em futuras ocasiões de necessidade. Outra é uma certa irritação entre PCP e BE, que já vai aparecendo por aí em acusações trocadas em blogues e redes sociais. Nada que António Costa não vá conseguindo controlar. Por enquanto, o acordo resiste. Resta saber se sobreviverá ao Orçamento do próximo ano. Da parte do Bloco, é certo que sim. Do PCP, vamos ver.

Editorial

Só uma certeza: o Brasil é grande

Michael Reid, que é colunista da The Economist e foi correspondente da revista britânica no Brasil, tem um novo livro, recém-publicado em Portugal. Brasil - A Esperança e a Deceção é o título. E resume bem não só os anos recentes como o que tem sido a história do país. Não por acaso, Fernando Henrique Cardoso, que é sociólogo e foi presidente da República, disse uma vez que se havia um padrão brasileiro era o de "primeiro a esperança, depois a desilusão".

Editorial

O que resta

Os atentados que rebentaram na Europa, sobretudo no último ano, deixaram marcas profundas e não apenas nos europeus. E, por muito que nos custe admitir, a verdade é que esses ataques, levados a cabo com o objetivo de espalhar o medo, alteraram hábitos de vida. França persiste ainda como o primeiro destino turístico do mundo (85 milhões de estrangeiros no ano passado, bem à frente dos 78 milhões dos Estados Unidos), mas muitos dos que assistiram - ainda que à distância - ao terror do Bataclan, ao ataque em Nice e à degolação de um padre na Normandia estão a ceder ao medo. E a cada novo ato terrorista - em França, na Bélgica, mas também na Turquia -, mais pessoas, nascidas na Europa ou fora dela, se juntam ao grupo dos que acreditam que a melhor forma de evitar o perigo é manter-se longe dos que são alvos comprovados dos terroristas. O número de voos marcados por estrangeiros para França, para os meses de agosto e setembro, por exemplo, afundaram 20% relativamente ao ano passado; as noites reservadas em hotéis de janeiro a junho caíram 10%. E a tendência é de que se continue a perder clientes. Não é um exclusivo de França. Mas o sentimento de insegurança relativamente aos países onde o Estado Islâmico tem deixado as suas marcas e uma dose de receio irracional em relação a qualquer nação onde os muçulmanos vivam em maioria está a levar muitos turistas a preferir destinos em que acreditam haver menos riscos. Como Portugal, Espanha ou Itália - que têm visto o número de turistas subir também por este amargo motivo. O que a Europa ainda não entendeu é que não basta fugir de um lado para o outro. Há uma ameaça que se estende sobre todos os europeus, independentemente do país onde vivem. Materializou-se apenas em alguns, mas o risco de vir a acontecer em qualquer um dos outros é real. Terroristas declararam guerra à Europa. A toda a Europa. E a única maneira de os derrotarmos é combatendo-os em conjunto. Antes que não restem refúgios.

Editorial

Um ano difícil

Não me lembro de haver um arranque de ano escolar sem agitação - professores que não chegam, escolas que não abrem, colocações mal feitas, protestos de pais, professores, diretores. O cenário repete-se e repete-se sem que se aprenda que insistir em mudar tudo todos os anos só nos atrasa - não só no arranque do ano letivo mas sobretudo a nível da preparação que estamos a dar aos nossos filhos. Não me lembro, porém, de um novo período de aulas estar para arrancar com tantas promessas de tensão a lançarem sombras sobre as paredes do Ministério da Educação. E que vão além das falhas nas listas de colocação - que são incontornáveis -, dos professores colocados a centenas de quilómetros de casa e dos problemas com pessoal. A guerra dos colégios - os que ficaram sem contratos de associação - com Tiago Brandão Rodrigues, não parece estar perto de acabar. O ministro está irredutível na sua intenção de apenas financiar os privados que este ano lhe fazem falta para garantir que os miúdos em determinadas áreas não ficam sem lugar numa sala de aula. Os colégios, apoiados pelos pais dos miúdos que ali cresceram, garantem que a interpretação que a tutela faz dos contratos é errada e por isso vão abrir as turmas que Brandão Rodrigues disse que não pagaria e processar o Estado se dele não receberem o financiamento que acreditam que lhes é devido. A avançar, a decisão será feita caso a caso, escola a escola, consoante o juiz veja razão de um lado ou do outro - e nunca será um processo simples. E agora há mais uma pedra no caminho do ministro: onde pôr todas as crianças de 4 anos que já têm de estar no pré-escolar neste ano letivo? Em regiões como a Grande Lisboa, não há salas ou pessoal para recebê-las, mas é o próprio Estado que diz que elas têm de ser integradas. IPSS e Misericórdias chegarão para garantir uma solução? E virá a tempo do arranque do ano? Dificilmente. Há muita coisa no prato de Brandão Rodrigues. Resta saber se o ministro conseguirá resistir aos embates que tem pela frente.

Editorial

Premiar os melhores

Tratar diferente o que é diferente, premiar as melhores práticas e os melhores profissionais, fazer bem aproveitando plenamente os recursos. Há muitas coisas que funcionam bem na Saúde - a começar pela possibilidade que todos têm de se tratar, de aceder a serviços médicos de qualidade -, mas se não se alterar determinadas práticas corremos o risco de ver o Serviço Nacional de Saúde degradar-se até ao ponto em que só serve quem não tem no privado uma alternativa. Essa reforma tem de passar por um entendimento de que não se pode continuar a tratar como igual aquilo que é diferente - chama-se a isto discriminar positivamente e passa, por exemplo, por reconhecer e premiar o bom trabalho. Por criar incentivos para médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, por mostrar aos profissionais que aquilo que fazem vale a pena, que são fundamentais, e ter capacidade para segurar os melhores no serviço público. Constantino Sakellarides explica-o bem na entrevista que pode ler nas páginas anteriores a esta. Mas há uma outra face desta reforma que é igualmente fundamental: garantir que o dinheiro é bem distribuído. É preciso não esquecer que este serviço tem contornos especiais: não se trata de algo de que as pessoas podem simplesmente prescindir. São elas a prioridade absoluta, mas há que tratá-las com eficiência e eficácia. Ou seja, há que potenciar o Serviço Nacional de Saúde de forma a que falhe o mínimo possível - não permitir que se ultrapassem os prazos considerados aceitáveis para consultas, tratamentos e cirurgias, garantir que os meios (profissionais, salas, material) são utilizados sem desperdício. Se um hospital tem resultados melhores do que todos os outros da região, se consegue fazer mais, ter taxas de sucesso superiores, ponha-se os olhos no que ali se faz de diferente e aprenda-se com o exemplo. Replique-se noutros. E dê-se-lhe uma maior fatia do bolo orçamental para que possa cumprir ainda mais e melhor.