Editorial

Rosália Amorim

Antecipar é preciso

Se a pandemia poderia ter sido evitada, como alertaram ontem peritos mandatados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), imagine-se o que poderia ter sido acautelado na noite em que o Sporting se sagrou campeão! Vamos ao primeiro tema, a pandemia: segundo os entendidos e personalidades que compõem o Painel Independente, a convite da OMS, é urgente fazer vastas reformas dos sistemas de alerta e prevenção para evitar novas pandemias. Num relatório, o mesmo painel considera que a OMS demorou demasiado tempo a fazer soar o alerta e que teria sido possível evitar a catástrofe classificada como "Chernobyl do século XXI", que já custou a vida a pelo menos 3,3 milhões de pessoas e provocou uma crise económica mundial. "É claro que a combinação de más escolhas estratégicas, falta de vontade de atacar as desigualdades e um sistema mal coordenado criaram um cocktail tóxico que permitiu à pandemia transformar-se numa crise humana catastrófica", revela o mesmo relatório. Um ataque feroz às autoridades de saúde mundiais. Os peritos reforçam: "Muito tempo se passou" entre a notificação de um foco epidémico na China, na segunda quinzena de dezembro de 2019, e a declaração, a 30 de janeiro pela OMS, de uma emergência de saúde pública de âmbito internacional. Isto enquanto a China foi acusada de camuflar a epidemia.

Joana Petiz

Um governo sem limites

Mais de um ano de pandemia parece ter deixado tiques perigosos num governo que sempre desejou ter mais capacidade de intervenção do que lhe permitem as regras de um Estado democrático. E mesmo passado o Estado de Emergência que lhe dava margem para certos movimentos limitativos das liberdades e direitos individuais, parece determinado a exceder-se - para cúmulo, enquanto sacode a água do capote quanto a responsabilidades. O que vemos em Odemira é um bom exemplo - e o (ir)responsável político, infelizmente, o do costume.

Rosália Amorim

Viagem de Odemira ao Porto

O teletrabalho, ontem amplamente debatido na Assembleia da República, não pode ser pretexto para abusos por parte das entidades empregadoras. Não pode permitir, sem lei, a invasão do espaço privado nem dizimar o pouco que resta do equilíbro desiquilibrado que tantos portugueses vivem no que toca à relação entre tempo de trabalho e tempo de qualidade para a família. Durante mais de um ano, os agregados familiares aguentaram uma realidade nova e imposta e suportaram, com sacrifício, no orçamento doméstico despesas inesperadas, como a aquisição de computadores portáteis, avultados custos com telefones, internet, água e luz.

Leonídio Paulo Ferreira

Uma língua que cresceu 27 vezes

Em meados do século XIX, um navio americano com um embaixador itinerante a bordo aportou ao reino do Sião, a atual Tailândia, e pediu para se estabelecer relações diplomáticas. O monarca siamês, depois de algumas peripécias negociais, lá aceitou assinar um tratado de paz e amizade, mas além de escrito em tailandês e inglês o documento teria também obrigatoriamente versões em duas línguas internacionais importantes, o mandarim e o português. O diplomata dos Estados Unidos aceitou sem hesitar. E seguiu depois viagem para outros destinos asiáticos, só não indo ao Japão falar com os xóguns, porque morreu doente em Macau antes dessa etapa.

Rosália Amorim

As boas notícias também merecem um título

Quatro boas notícias: 1) há quase sete meses que não havia tão poucos internados por covid-19 nas unidades hospitalares de cuidados intensivos; 2) podemos ter imunidade de grupo em junho, se seguirmos o plano de vacinação à risca, disse o bastonário da Ordem dos Médicos ao Diário de Notícias; 3) a União Europeia acaba de fechar um acordo para a compra de mais 1,8 mil milhões de doses da vacina da Pfizer, tratando-se do terceiro acordo entre a UE e o consórcio Pfizer/BioNTech para a aquisição de doses da vacina contra a covid-19. Com o novo acordo para a vacina da Pfizer será possível inocular com esta vacina (que ainda necessita de duas doses) os 450 milhões de habitantes da UE nos próximos dois anos. E 4) na área económica há também uma boa nova: a criação de um novo centro de dados em Sines que vai gerar 1200 postos de trabalho - altamente qualificados. O contrato foi assinado ontem. Trata-se de um novo investimento na área tecnológica, que passa por um centro de armazenamento de dados informáticos e que implicará uma aposta até 3500 milhões de euros. O projeto denomina-se Sines 4.0 e é desenvolvido pela empresa Start Campus, detida por um fundo de investimento norte-americano e por uma empresa britânica especializada em infraestruturas. Este investimento quer dar resposta à crescente procura dos gigantes mundiais da tecnologia, fornecedoras de serviços de streaming, redes sociais, comércio eletrónico ou videoconferências. Um negócio do presente e do futuro.

Leonídio Paulo Ferreira

Obrigado fuzileiros pela coça que deram a Napoleão

Obrigado a transferir a capital do Império português para o Rio de Janeiro para escapar à captura pelas tropas napoleónicas, o príncipe-regente D. João ordenou já com a Corte no Brasil a conquista de Caiena, a capital da Guiana francesa, que caiu em janeiro de 1809. Nessa ação militar, destinada a tirar desforço dos franceses que tinham invadido Portugal e chegado a entrar em Lisboa em finais de 1807, participaram "cerca de 300 infantes de Marinha, embarcados nos brigues Infante D. Pedro e Voador", como contou há três anos num artigo na Revista da Armada o Almirante Silva Ribeiro, hoje Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Ora esses "infantes" que integravam a então Brigada Real da Marinha são, embora sob outra designação, os nossos fuzileiros, corpo militar de elite que ontem celebrou 400 anos, tendo sido criado em 1621 com o nome original de Terço da Armada Real da Coroa de Portugal.

Editorial

Proibir os carros para acabar com os acidentes

Mais de 300 mil acidentes de carro fizeram na última década meio milhão de feridos - grande parte deles em estado grave e com consequências para a vida - e milhares de mortos nas estradas portuguesas. São números negros que as associações que lutam pela segurança rodoviária realçam ano após ano, pedindo esforços adicionais na legislação, na fiscalização, na manutenção das vias e sinalética, na atenção das autoridades e até a colaboração dos construtores automóveis. E com efeitos crescentemente eficazes, porque aprendidos e incorporados na realidade - do uso do cinto de segurança aos airbags. O que nunca lhes passou pela cabeça foi pedir que se proibisse a circulação de veículos motorizados. Todos temos consciência de que seria medida artificial e de efeitos limitados ao tempo dessa proibição, um paliativo de efeito pífio que apenas poderia justificar-se enquanto resposta a uma situação urgentíssima, muito bem demarcada e limitada no tempo e no espaço - até mesmo pelo que implicaria de agressão a liberdades individuais.

Leonídio Paulo Ferreira

Falcão palestiniano

Condenado a cinco penas de prisão perpétua por terrorismo em 2004, Marwan Barghouti tem dedicado os anos detido em Israel a aprender hebraico. Dedicar-se à língua do inimigo é um pormenor que aqueles que o comparam a Nelson Mandela gostam de realçar, pois nas quase três décadas passadas atrás das grades o político sul-africano, campeão da luta contra o apartheid, também aprendeu africânder, o idioma derivado do holandês que falavam os mais convictos defensores do regime racista branco que durou oficialmente até às eleições multirraciais de 1994.

Editorial

Saúde, mas pouca

"Apelámos aos médicos e 6800 disponibilizaram-se para ajudar o Serviço Nacional de Saúde, uma percentagem significativa de reformados e alguns disponíveis para apoiar sem receber", relata Miguel Guimarães, em entrevista ao DN. Explica depois o bastonário que, em mais um momento revelador do que tem sido a atitude da ministra da Saúde, em plena pandemia de covid. De uma ministra que consegue, apesar de todos os solavancos, atrasos e casos, fazer "um balanço muito positivo da campanha de vacinação" em Portugal.

Rosália Amorim

Xadrez político e jogadas de antecipação

Cumprir e fazer cumprir a Constituição, afirmou António Costa. O primeiro-ministro fez uma declaração ao país visando o Parlamento, porque sabe que um governo minoritário não consegue, pura e simplesmente, governar se tiver todo o Parlamento contra ele. Costa terá avisado a Assembleia da República de que há aqui uma questão de governabilidade perante a aprovação de legislação de apoios sociais a sócios gerentes e trabalhadores independentes (o que implica aumento de despesa), prontamente promulgada pelo Presidente da República. O Executivo remeteu a legislação para o Tribunal Constitucional, o que era suposto ser Belém a fazer.