Zhong Zhong e Hua Hua. Os primeiros primatas clonados à la Dolly

Cientistas chineses apresentaram ao mundo os dois macacos nascidos pela técnica de clonagem que deu origem à Dolly. Caiu a barreira técnica que impedia a clonagem de primatas

Zhong Zhong e Hua Hua que, como se percebe, nasceram na China, foram apresentados ontem ao mundo e causaram uma grande sensação. Há bons motivos para isso: com oito e seis semanas de vida, respetivamente, os dois macacos, da espécie Macaca fascicularis, são os dois primeiros primatas clonados com recurso à mesma técnica que deu origem à ovelha Dolly, vai fazer 22 anos.

Não foi nada fácil. Basta dizer, que até agora, todas as anteriores tentativas de clonar primatas - que incluem macacos, chimpanzés, gorilas e humanos - com esta técnica, a chamada clonagem por transferência nuclear de células somáticas, tinha falhado sempre. O procedimento implica retirar a informação genética contida no núcleo de uma célula somática (no caso da Dolly, foi uma célula da pele), introduzi-lo num óvulo previamente "esvaziado" da sua própria informação genética e fazê-lo desenvolver-se até à fase de embrião, que depois é implantado numa fêmea da espécie.

No caso de Zhong Zhong e Hua Hua (cujos nomes juntos, Zhonghua, significam nação chinesa), houve mesmo assim uma diferença: o material genético nuclear não proveio de células somáticas adultas, mas de células fetais já diferenciadas, como os chamados fibroblastos. A equipa também testou a utilização de células adultas mas todos os clones produzidos dessa forma morreram pouco depois do nascimento.

Seja como for, Zhong Zhong e Hua Hua representam o derrube de uma barreira técnica que, certamente, vai abrir a porta a outras novidades e também a novos receios - do ponto de vista tecnológico, a clonagem humana humana torna-se definitivamente possível.

Talvez por isso, o grupo de cientistas chineses que conseguiu esta prémière mundial optou de imediato por pôr a tónica na oportunidade que o novo desenvolvimento técnico representa para estudar doenças humanas, sem esquecer a necessidade de observar regras éticas estritas no trabalho.

À questão referiu-se ontem o coordenador da equipa, Qiang Sun, que dirige o Laboratório de Investigação sobre Primatas da Academia das Ciências Chinesa, afirmando que "com este novo modelo" animal, "há uma série de questões relacionadas com a biologia dos primatas que podem ser agora estudadas". Quian Sun deu vários exemplos. "Pode-se produzir macacos clonados com o mesma genética de base, excetuando um determinado gene que se pretenda manipular, para criar modelos reais que permitam estudar, não apenas doenças neuronais genéticas, mas também outras doenças, como o cancro, patologias do metabolismo e do sistema imunitário, e com isso testar a eficácia de drogas para essas doenças antes mesmo da fase de ensaios clínicos".

Muming Poo, co-autor do estudo e diretor do Instituto de Neurociências da Academia de Ciências Chinesa, sublinhou, por seu turno, a dificuldade desta técnica aplicada aos primatas e de de como foi necessário fazer a otimização dos processos para chegar aqui, mas não esqueceu a delicadeza das questões éticas que agora se colocam. "O motivo pelo qual quebrámos esta barreira, foi para produzir modelos animais que nos serão úteis para medicina e para a saúde humana", disse. E vincou, bem vincado: "Não existe qualquer intenção de aplicar este método aos seres humanos". Poo não tem dúvidas, aliás, de que "o futuro da investigação científica com primatas não humanos depende de os cientistas seguirem regras éticas muito estritas".

Os dois macacos-clones estão a ser alimentados a biberão, explicou a equipa, que espera para breve o nascimento de mais uma série de irmãos gémeos de Zhong Zhong e Hua Hua. Com eles, eleva-se agora a 24 o número de espécies clonadas por esta técnica.

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