Uma vida dedicada a promover língua e cultura russas

Vladimir Pliassov é professor universitário, responsável pelo Centro de Estudos Russos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vive na Cidade dos Estudantes desde 1988

O destino tem destas coisas: foi em Moçambique, em meados dos anos 80, que Vladimir Ivanovitch Pliassov percebeu que, além da pátria Rússia, "o único país da Europa onde poderia viver era Portugal". O convívio com os portugueses emigrados, como ele, na antiga colónia (que então sofria na incerteza de uma longa guerra civil) mostrou-lhe os encantos lusos. E o professor, que trabalhava como tradutor na companhia ferroviária moçambicana, voou até Coimbra: é aí que, desde 1988, ensina a língua e a cultura da terra natal, num espaço que se tornou, em 2012, o primeiro Centro de Estudos Russos (CER) da Península Ibérica.

A história de Vladimir Pliassov é a de uma vida dedicada a promover língua, história e cultura russas além-fronteiras: uma tamanha missão que o faz querer falar mais do CER - instalado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com base num acordo de cooperação com a Fundação Russkiy Mir - do que do percurso e das quase três décadas que leva em Portugal. Mas, no fundo, os dois temas ligam-se, naquelas salas onde se promove a literatura, cultura e história russa junto de estudantes universitários portugueses e se ajuda imigrantes russófonos a preservarem a língua materna.

Vladimir, hoje sexagenário, estaria longe de imaginar essa evolução quando aterrou em Portugal, a 15 de agosto de 1988. "Nesse dia, estava tudo fechado. Entrámos numa loja, saímos com dois sacos de plástico e lá estava metade do meu salário mensal. Pensei: "como vou viver até ao fim do mês?"", recorda, entre risos - uma constante no seu discurso, intervalado por anedotas e curiosidades da história da Rússia. Esse impacto não o fez vacilar. "O mais importante é não ter ilusões falsas. Eu sabia bem como era o país para onde vinha", garante.

Então, já aprendera a simpatizar com Portugal em Moçambique. "Lá, os portugueses viviam com as mesmas condições que nós. Partilhávamos carnes, cervejas, as coisas que tínhamos. Tínhamos uma relação aberta. Por exemplo, com os alemães que moravam no nosso prédio não era a mesma coisa", conta. Por isso, Coimbra - para onde foi enviado ao abrigo dos acordos de cooperação entre Portugal e a União Soviética - pareceu--lhe uma opção natural.

O ensino de russo rapidamente ganhou o seu espaço na cidade dos estudantes. Vladimir ficou com o horário preenchido, a 100%, a partir de 1991 (desde 2012, que os 12 módulos lecionados juntam mais de 200 alunos ano). "Fui bem recebido, acreditaram no meu profissionalismo e, hoje, ajudam-me em todas as atividades", garante o "responsável" pelo Centro de Estudos Russos - "não quero ser chamado de diretor, não estou aqui para dar ordens para as funcionárias do centro", nota.

Esse jeito de bem receber ou capacidade para deixar os imigrantes sentirem-se em casa (numa palavra, hospitalidade) é das qualidades portuguesas que Vladimir Pliassov mais elogia. "Portugal é um país excelente por uma razão: nunca tenta assimilar os imigrantes", explica. Talvez por isso o docente universitário - que vinha a pensar "ficar só dois ou três anos" - tenha decidido fixar a família por cá, enquanto a Rússia se reerguia dos escombros da União Soviética.

País tolerante, apesar das diferenças

Afinal, portugueses e russos podem ter as suas diferenças de personalidades ("nós não sorrimos na rua, somos fechados, mas entre família e amigos somos muito mais abertos"), mas têm humores parecidos ("também gostamos muito de anedotas") e a mesma capacidade de tolerância... até certo ponto. "Quando acaba a tolerância, aparece a revolução de outubro ou o 25 de abril", ri Vladimir.

O retrato do seu povo continua nítido: todos os anos, o professor universitário regressa à Rússia, para reencontrar os amigos, ora na Moscovo natal, ora em Ekaterimburgo (no centro do país), ora em Vladivostok (no extremo oriente, junto ao mar do Japão). O maior país do mundo, estendido da ponta da Europa até ao oceano Pacífico, reúne "muitas etnias e culturas diferentes, mas somos tolerantes entre todos, como no tempo da União Soviética", garante Vladimir Pliassov.

Nas férias, também é tempo de o docente matar saudades de uma das bebidas prediletas: não o vodka ("só bebo cinco ou seis vezes por ano, em momentos especiais) mas o chá ("temos muitos chás diferentes que não se encontram por cá"). Quanto a língua, história e cultura russas, já se sabe, é mais fácil manter os laços. No Centro de Estudos Russos as portas estão sempre abertas para fazer iniciativas com as escolas e associações de imigrantes de leste da região. E faz-se também tradução de textos e legendagem de alguns filmes "de culto", para exibição no Clube de Cinema Russo, lá sedeado e em outros espaços culturais da cidade. É essa a missão a que Vladimir tem dedicado a vida.

Para entender a Rússia

Clichês "Todos pensam que Rússia é "vodka, matrioskas, Sputnik, Putin...", mas é mais do que isso."

Geografia É um país gigante, que "está dividido em três grandes partes, europeia, Sibéria e Extremo Oriente".

Política "Os russos votam mais pelos líderes do que pelos partidos e gostam de quem defenda a imagem do país."

Literatura "É uma referência desde o século XII. É tudo sobre o nosso carácter."

Individualismo "O que junta os russos são as grandes desgraças. No dia-a-dia são individualistas, cada um no seu cais."

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