Uma noite de cinema que incluiu todos na história

Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência lembra que há público para as versões tradaptadas

Na sala de cinema entram pessoas acompanhadas por cães guia e quem não ouve vai perceber quando há música triste, alegre ou alguém buzina. O filme "Uma vontade Cega", baseado numa história verídica, vai ser dos poucos que todos podem dizer que viram. E aqui o ver quer dizer que assistiram e perceberam a história, porque este vai ser difundido - estreia hoje - com uma versão tradaptada (áudio-descrição, áudio-legendas e língua gestual) em dois cinemas do país.

A antestreia no Cinema City do Campo Pequeno, na terça-feira, contou com a presença da secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, que gostava que existissem mais distribuidoras de filmes disponíveis para apostarem nas versões inclusivas. Nas próximas semanas, no Campo Pequeno, em Lisboa, e no Cinema Nos Parque Nascente, em Gondomar, vão haver duas sessões por dia tradaptadas do filme distribuído pela Cinemundo. Em Lisboa, já há horários: às 15.25 e às 17.35.

A expectativa antes do arranque do filme acabou por ser confirmada no final. "Gostei. Tem bastante emoção, porque mostra como dar a volta e ultrapassar os obstáculos." Helena Fonseca, invisual, não tem muitas oportunidades para ir ao cinema, mas desta vez ficou satisfeita com a experiência e espera que seja cada vez mais comum.

"Já tinha assistido à "Gaiola Dourada" no mesmo formato, ter a áudio-descrição ajuda a perceber melhor os diálogos e podemos tirar mais partido do filme." Helena elogiou também o facto de haver mais do que uma sessão transmitida de forma inclusiva pelos cinemas, o que permite "às pessoas virem quando lhes é mais conveniente".

A sessão acabou por ser verdadeiramente inclusiva, uma vez que o filme, cuja sala estava quase cheia, teve assistência de quem não precisa dos suportes adaptados. Como foi o caso de Marilene Correia. "Foi a primeira vez que assisti a um filme tradaptado e achei que foi uma experiência interessante", admitiu a espetadora no final. Embora tivesse estranhado "no início e não sabia se ia conseguir manter o interesse até ao fim, mas agora acho que devia haver mais opções deste género".

Uma opinião partilhada pela secretária de Estado Ana Sofia Antunes. A governante confessou que foi "uma experiência fantástica" e que "adoraria poder ter esta oportunidade em qualquer filme". Para isso, é preciso convencer as distribuidoras de que estes filmes têm público. "Cada vez mais há público para formatos alternativos, nomeadamente público que vê pior e que ouve pior e que de repente precisa de facto deste tipo de auxiliares", sublinhou.

"É preciso demonstrar às distribuidoras que o investimento que fazem compensa e que há público para ver, há público que rentabiliza o investimento que se faz em introduzir estas tecnologias alternativas", defendeu Ana Sofia Antunes. Neste caso, o filme tinha áudio-legendagem e áudio-descrição das cenas em simultâneo para todos os espetadores, mas há casos em que esta opção é transmitida apenas para quem precisa, através de auriculares. Desta forma, quem não consegue ver as cenas vai percebendo a ação do filme - os desafios do jovem Saliya que consegue um estágio num hotel de luxo escondendo de quase todos que é praticamente cego. A governante admite que "não haja de repente uma adesão massiva de toda a gente que vem ao cinema a querer ver filmes neste formato", mas acrescenta que se a opção de adaptar o formato for disponível para quem precisa, "iam chegar à conclusão que há muito mais gente que viria ao cinema".

É essa falta de contexto que impede mais pessoas de irem ao cinema. "Ao longo da minha vida vi muito poucos filmes e vim muito poucas vezes ao cinema, porque não tenho acesso ao conteúdo dos filmes de facto e não faz sentido vir nessa condição", reconheceu Ana Sofia Antunes.

"Começa logo pela parte da áudio-legendagem. O facto de estar no cinema a ver um filme, neste caso em alemão, e ter legendas em português. Eu não consigo ler as legendas e certamente há pessoas, não necessariamente por serem cegas, mas por verem mal que não conseguem ler e que agradeceriam bastante ter a opção da áudio-legendagem e a áudio- descrição é importante porque há passagens no filme que se não houvesse a áudio-descrição, só com as legendas nós não percebíamos o que se estava a passar. Adorei a experiência."

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