Uma em cada cinco mulheres sofre de enxaqueca

Pode durar entre quatro e 72 horas, com dor forte e pulsátil, acompanhada de náuseas e, por vezes, vómitos, e repetir-se em vários dias da semana. Esta é uma doença muito incapacitante, mas à qual a sociedade ainda não atribui a importância merecida. Como Viver com enxaqueca esteve em discussão numa iniciativa do DN com o apoio da Pfizer.

Não escolhe idades ou géneros e pode ocorrer em qualquer altura da vida, sem aviso. Pode surgir depois de uma noite mal dormida ou, pelo contrário, de horas excessivas de sono, manifestar-se após a ingestão de algum tipo de alimento ou bebida, ou depois de muitas horas sem comer. Os gatilhos que provocam a enxaqueca variam de pessoa para pessoa, mas em comum têm o resultado: uma dor de cabeça forte e incapacitante, que pode prolongar-se por várias horas ou, até, dias, e que causa náuseas, vómitos, sensibilidade à luz, ao barulho, e ao movimento. "Estas características são distintivas desta dor de cabeça e, quando não existe mais nada que possa explicar, é isto que faz chegar ao diagnóstico de uma enxaqueca", explica Filipe Palavra.

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Para o médico neurologista no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), a repetição destes sintomas deverá sempre motivar uma visita ao médico pois quanto mais cedo for feito um diagnóstico, mais rápido e adequado será o tratamento desta doença neurológica crónica. "Este primeiro passo de reconhecer que a dor tem características com impacto no dia-a-dia é importante para que a causa seja identificada, porque é isso que leva as pessoas à procura de ajuda médica".

Estima-se que, em Portugal, cerca de um milhão e meio de pessoas sofram de enxaqueca crónica. Um número que, como explica Filipe Palavra, se baseia num estudo epidemiológico de referência realizado nos anos 90, que considerava que aproximadamente 16% da população teria diagnóstico de enxaqueca. "Diria que pode acontecer que tenhamos uma prevalência superior, porque o momento do diagnóstico depende do passo inicial. Se formos suficientemente sensíveis para as queixas que podem corresponder ao diagnóstico de uma enxaqueca, é provável que até possamos ter mais diagnósticos", salienta o neurologista que participou na Talk Viver com enxaqueca, uma iniciativa do Diário de Notícias, com o apoio da Pfizer, que decorreu segunda-feira, mas a que ainda pode assistir no site do jornal. Em estúdio esteve também Inês Carvalhão, doente de enxaqueca, e membro dos órgãos sociais da MiGRA Portugal, Associação de Doentes com Enxaquecas e Cefaleias.

Género feminino é mais afetado

Apesar de não existir um perfil específico para o doente de enxaqueca, Filipe Palavra explica que, na idade adulta, a doença é muito mais prevalente no género feminino do que no masculino. Genericamente, reforça, "assumimos que uma em cada cinco mulheres poderá ter o diagnóstico". No entanto, no género masculino, as estimativas apontam para que esta patologia afete um em cada dezasseis homens e, na população pediátrica, a prevalência será na ordem de uma em cada onze crianças. Neste caso, adianta o neurologista, "na população pediátrica vemos que, antes da puberdade, o diagnóstico faz-se essencialmente em meninos, mas depois da puberdade é mais nas meninas". Isto acontece, essencialmente, devido aos fatores hormonais relacionados com a adolescência que são críticos para mudar este perfil epidemiológico da doença.

Para muitos doentes, o mais complicado é a desvalorização da enxaqueca pela entidade patronal. Dizer que "é só uma dor de cabeça" é uma das respostas mais ouvidas.

Outro elemento a ter em conta no diagnóstico da enxaqueca é o fator hereditário. "Quando já existem casos na família, é importante que esta hipótese seja sempre considerada assim que existam queixas", alerta Filipe Palavra. Os sintomas podem começar na infância, até mesmo no primeiro ano de vida, e depois, na adolescência, pode surgir uma dor de cabeça com características já sugestivas de diagnóstico de uma enxaqueca. Ou seja, salienta o neurologista, "o momento em que abordamos esta pessoa pode ser crítico para conseguirmos ou não fazer o diagnóstico, apesar de que, se for mais cedo, poderá ser mais difícil".

O caso de Inês Carvalhão espelha precisamente esta dificuldade. Toda a vida teve dores de cabeça angustiantes, mas apenas foi diagnosticada aos 45 anos. "O meu pai sofria igualmente de enxaqueca, mas sempre achei que fazia parte da vida e que era preciso aguentar", revela. Um pensamento que, na opinião de Filipe Palavra, continua a ser uma questão cultural. "Mas não tem de ser assim e, portanto, é fundamental perceber que por detrás de queixas de dor de cabeça pode estar o diagnóstico de uma doença que não é curável, mas é tratável", alerta.

Ainda assim, e apesar de muitos diagnósticos demorarem anos, a cefaleia é o principal motivo de consultas de Neurologia e, "se olharmos para os dados que resultam dessa mesma atividade assistencial, quantos deles não serão efetivamente enxaquecas?", aponta o médico.

Sociedade ainda não reconhece impacto

Com um diagnóstico tardio, Inês Carvalhão passou mais de metade da vida a sofrer as consequências da enxaqueca. Hoje, entre a medicação e a aprendizagem pela experiência, consegue evitar algumas crises, e recuperou parte da qualidade de vida. Ainda assim, reconhece que a doença tem um impacto enorme no dia-a-dia profissional, social e familiar. "Há muitos programas que acabamos por não conseguir cumprir, e estamos sempre a adiar situações porque estando em crise não conseguimos estar em pleno nessas situações", assume.

No entanto, para muitos doentes, o mais complicado é a desvalorização da enxaqueca pela entidade patronal. Dizer que "é só uma dor de cabeça" é uma das respostas mais ouvidas e, como refere Inês Carvalhão, a necessidade de ficar em casa algumas vezes tende a causar desconforto nas empresas. "Mas é verdadeiramente incapacitante", reforça. Aliás, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a enxaqueca é a maior causa de incapacidade em pessoas com menos de 50 anos, o que significa que a doença tem um enorme impacto na sociedade pois contribui para um elevado absentismo, com naturais reflexos sociais e económicos. "Muitas vezes há esta perceção de que é só mais uma dor de cabeça, mas não é", reforça Filipe Palavra.

Segundo a OMS, a enxaqueca é a maior causa de incapacidade em pessoas com menos de 50 anos, o que significa que a doença tem um enorme impacto na sociedade.

Inês Carvalhão alerta igualmente para a necessidade de legitimar esta doença. "É preciso explicar e tentar fazer com que a opinião pública mude e que perceba que, na verdade, a enxaqueca é uma doença neurológica crónica". A representante da MiGRA salienta também a importância de sensibilizar os decisores políticos e as entidades laborais, para que percebam que podem ajudar a que a vida dos doentes com enxaqueca não seja tão difícil.

Por outro lado, defende Filipe Palavra, sensibilizar a comunidade médica deve também ser uma prioridade. Segundo o neurologista, a Sociedade Portuguesa de Cefaleias tem feito um esforço no sentido de envolver os médicos especialistas em medicina geral e familiar nos seus eventos formativos. E isto é, na sua opinião, essencial, uma vez que o primeiro diagnóstico de enxaqueca pode e deve ser feito pelo médico de família. "Sensibilizar é importante para que as pessoas possam pensar no diagnóstico. Porque ninguém faz diagnósticos se não pensar neles e se não souber quais são os seus critérios", acrescenta, destacando o papel crucial do médico de medicina geral e familiar e dos cuidados de saúde primários para fazer, pelo menos, uma abordagem e um diagnóstico inicial.

A falta de sensibilização da comunidade médica faz com que, muitas vezes, os doentes procurem ajuda no setor privado, por ser mais rápido. De acordo com um estudo realizado pela MiGRA, 40% das pessoas com enxaqueca não têm qualquer acompanhamento médico, e das que têm, 54% recorrem ao setor privado. Foi assim também com Inês Carvalhão que, apesar de tudo, reconhece que atualmente o setor público já está mais bem preparado para lidar com esta doença, e que existem alguns centros especializados em cefaleias em alguns hospitais. No entanto, o aumento do número de doentes nestas unidades acaba por fazer com que os tempos de espera por consultas sejam mais demorados.

Partilha de experiências ajuda

A informação e sensibilização sobre este tema é igualmente importante para o público em geral, para que cada vez mais pessoas possam ser diagnosticadas e acompanhadas nesta doença. E, a este nível, Inês Carvalhão acredita que o papel das associações de doentes como a MiGRA é fundamental. "Penso que o papel de uma associação é fazer com que a informação fidedigna chegue aos doentes que fazem parte dela e que a ela recorrem. É trazer informação que seja relevante e os ajude no encaminhamento e nesse percurso", salienta.

A representante da MiGRA destaca ainda os workshops, webinars, encontros entre doentes e a linha de apoio - Migra Responde -, em que as pessoas podem deixar online as suas perguntas e obtêm sempre resposta. Há também encontros presenciais, regionais, em Lisboa, Porto e Algarve, onde as pessoas se encontram e partilham experiências sobre a doença. "É bom que as pessoas se encontrem, e que possam falar umas com as outras, também para que se sintam menos sozinhas no meio desta situação", reforça Inês Carvalhão, destacando ainda o papel das associações para que a opinião pública mude relativamente a este tipo de patologia, assim como os decisores políticos e as entidades patronais.

Em jeito de recomendação, Filipe Palavra deixa uma mensagem final: "Não sofram desnecessariamente. Se têm alguns dos sintomas indicados, procurem ajuda médica". O médico reforça que esta é uma doença séria, crónica, mas que é fundamental que o diagnóstico seja confirmado por um médico. "Pode ser uma enxaqueca? Sim. Pode ser outra coisa? Também pode ser. Mas a tarefa do diagnóstico cabe ao médico e mais do que automedicar ou recorrer a mezinhas para tratar algo que até pode ser tratável com outro tipo de intervenções, é importante ter um diagnóstico. O diagnóstico é sempre médico, ponto final".

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