Trazer arte e a comunidade para dentro da prisão. O "sonho" realizou-se

Quase sete anos depois da primeira Ópera na Prisão", os leirienses assistem hoje à inauguração do Pavilhão Mozart - Centro de Artes Performativas, no Estabelecimento Prisional.

Não fosse a pandemia e a festa seria de maiores dimensões e com outra expressão. Assim, serão poucos os que vão testemunhar a inauguração do Pavilhão Mozart, hoje à tarde, no Estabelecimento Prisional de Leiria-Jovens (EPL-J, ainda conhecida como a prisão-escola - destinada a jovens reclusos entre os 16 e os 21 anos). Foi lá que nasceu, afinal, o Don Giovanni 1003 Leporello 2015, um programa artístico da Sociedade Artística e Musical dos Pousos (SAMP), realizado com mais de uma centena de jovens da antiga Prisão-Escola de Leiria, financiado pelo Programa PARTIS, da Fundação Calouste Gulbenkian. Mais tarde, haveriam de se juntar Portugal Inovação Social, Fundação Caixa Agrícola de Leiria, e tendo como parceiros locais o Estabelecimento Prisional de Leiria - Jovens, a câmara municipal, a Escola de Dança Clara Leão, o Leirena Teatro e a Casota Collective.

Ao longo de mais de dois anos foi montada a produção de uma ópera, realizando vários concertos dentro e fora do estabelecimento prisional. "Desde a primeira edição do projeto Ópera na Prisão no EPL-J, em 2014, semeou-se o sonho de oferecer à cidade e à região de Leiria uma sala de fruição cultural dentro do estabelecimento", explica Paulo Lameiro, coordenador do projeto.

Designam-se por pavilhões os distintos edifícios que constituem um estabelecimento prisional. Alguns recebem os nomes das funções ou dos serviços que acolhem, como Pavilhão da Administração, da Saúde, da Escola ou da Biblioteca. Outros, ainda, onde residem os reclusos, são dedicados a patronos ou refletem o tempo de permanência no estabelecimento, como o Pavilhão Infante Santo ou o Pavilhão da Confiança. "Quando se iniciou o projeto Ópera na Prisão, no EPL-J, os ensaios decorriam no Pavilhão de São Paulo, mais vezes designado por Pavilhão 2.

Mas, com o decorrer da sua primeira edição, em 2014, identificou-se uma necessidade e semeou-se um sonho: a necessidade era a de ter uma sala de ensaios com condições para receber aulas de canto e onde se pudessem realizar oficinas de criação artística na área do teatro musical. O sonho era oferecer à cidade e à região de Leiria uma sala de fruição cultural, não por acaso inserida num estabelecimento prisional", acrescenta Paulo Lameiro, o maestro que o país (e uma parte do mundo, já) conhecia de projetos como os concertos para bebés, e que atualmente é responsável pela candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura, em 2027.

O que aconteceu nestes sete anos, desde o projeto contemplado pelo PARTIS, mudou a vida da cidade, mas sobretudo dos jovens reclusos - e a forma como o Estabelecimento Prisional os recebe e prepara para a reinserção social.

"Num momento dramaticamente marcante das suas vidas, estes jovens vão poder experimentar a criação artística coletiva, juntar sons e imagens às suas palavras, e depois apresentar este trabalho aos seus colegas do estabelecimento prisional, mas também à comunidade em que este se insere", sublinha Paulo Lameiro.

O pavilhão que hoje é inaugurado "cumpre a primeira necessidade identificada, a de uma sala de ensaios". Porém, antes de terminar 2021, "dar-se-á cumprimento ao sonho", sustenta o maestro. O mesmo é dizer que o espaço será aberto à comunidade, com uma produção artística concebida em cocriação com reclusos, famílias, equipas técnicas e de segurança, bem como profissionais das artes.

De espaço de encadernação a sala de ensaios

O espaço agora recuperado para sala de ensaios era, na sua origem, onde faziam encadernação. Integra um complexo maior com outros pavilhões, como a tipografia ou a sapataria. Dos livros que ali se encadernaram "permanecem naquelas telhas e paredes as palavras e as ideias de muitas histórias, Diários da República e da poesia que ali se coseu de linha e papel. Quando se foram os livros, o pavilhão recebeu outra ocupação, e, com isso, outro nome", revela Paulo Lameiro. "Os reclusos ali tinham atividades de tecer panos novos de tecidos velhos, e o Ópera na Prisão, quando conheceu este espaço, o mesmo recebia o nome de Pavilhão dos Trapilhos."

Depois de cantar tantos dramas humanos em duas das óperas de Mozart, o Don Giovanni e o Così fan Tutte, "pareceu-nos que se deveria batizar de Pavilhão Mozart o espaço que agora irá tecer dramas e paixões humanas pelas mãos das artes performativas", enfatiza o maestro. O espaço contempla uma sala de ensaios e concertos, bem como um pequeno espaço de produção "em que os reclusos se podem iniciar nas tarefas de preparar e comunicar para a comunidade os projetos que aí irão realizar".

"É uma vitória da cidadania, da ousadia, das artes e do trabalho em equipa", diz Lameiro ao DN, certo de que nunca seria possível "sem a abertura que o EPL-J e a Direção-Geral dos Serviços Prisionais ofereceram à ousadia de ter um espaço dedicado à Ópera dentro de uma prisão". Sublinhando a capacidade transformadora do programa PARTIS, da Fundação Calouste Gulbenkian - que foi o grande impulsionador do Pavilhão Mozart -, o coordenador do projeto lembra que o mesmo ganhou "uma nova escala" com o apoio do Portugal Inovação Social e da Fundação Caixa Agrícola, entre outros parceiros.

Mas deste que é "um dia histórico" fará parte outra novidade: o equipamento com que vai ser apetrechado, fruto de uma candidatura ao programa europeu Horizonte 2020, em que um consórcio de nove parceiros está a trabalhar para desenvolver ferramentas tecnológicas de realidade virtual, numa investigação que coloca "a tecnologia de ponta aliada à ópera ao serviço do impacto social".

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