"Serviços secretos militares em Portugal ajudaram a desmantelar grupos extremistas. E contra o KGB"

A seguir ao 25 de Abril de 1974 Portugal teve nos serviços secretos militares a "arma" para combater as atividades extremistas. Ao mesmo tempo a DINFO ajudou a expulsar espiões russos e nas relações em Moçambique com a RENAMO. Fernando Cavaleiro Ângelo, antigo operacional conta várias operações e destaca a importância desta entidade para homenagear os agentes "na sombra".

Porque escreveu "DINFO, A Queda do último serviço secreto militar"?
Tive passagens na minha vida por divisões que surgiram no pós-DINFO como foi a DIMIL (Departamento de Informações Militares), depois foi alterada para Centro de Informações Militares, e durante essa passagem cruzei-me com muitas mulheres e homens que desempenharam funções na DINFO [existiu entre 1974 e 1997] num período conturbado da nossa história contemporânea. Fui "bebendo" alguns episódios, recorri aos arquivos, e comecei a ver que havia matéria que poderia ser divulgada em livro e a editora "comprou" esta ideia.

Está a referir-se à importância da DINFO no pós-Abril de 74?
Com a queda da PIDE [Polícia Internacional e de Defesa do Estado que foi a polícia política entre 1945 e 1969 tendo depois sido substituída pela Direção-Geral de Segurança que até 1974 manteve as mesmas funções] deixou de haver qualquer serviço de informações em Portugal. A PIDE era multitarefa, fazia a parte policial e de recolha de informação e era muito eficaz nos teatros de guerra onde estávamos: Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. A DINFO preencheu esse espaço [de recolha de informação e combate] nessa altura conturbada em que algumas coisas já vinham de trás. As brigadas revolucionárias [organização de extrema esquerda que surgiu nos anos 70 do século passado] já vinham de trás. Depois começou a surgir o terrorismo de extrema-direita também, o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) e o ELP (Exército de Libertação de Portugal) e depois a maior parte da espionagem russa. Os serviços secretos, o KGB, eram o braço armado do Kremlin, e no caso de Portugal tentavam ocupar algum dos espaços que Portugal deixou nas antigas colónias. Tudo isto numa altura em que a NATO estava em transição.

Em Portugal viviam-se momentos complicados...
Portugal estava, não vou dizer numa anarquia, mas estava "desmembrado" pelo momento de implantação da democracia e era a altura ideal para eles [espionagem soviética] se aproveitarem dessas fragilidades.

No livro refere muito a importância da DINFO nas relações com as antigas ex-colónias, principalmente com Moçambique. A importância do serviço nesse momento da história de Portugal não tem sido referenciada como devia?
Quando tomei esta decisão tive de arranjar alguns argumentos inéditos e os episódios com o Dhlakama [líder da Renamo que morreu em maio de 2018] contados no livro não eram conhecidos.

Julgo que a atividade e a dimensão [dos serviços de informação portugueses] poderão não ser as necessárias para o país estar bem informado

A intervenção em África foi uma forma de Portugal naquele período manter a influência no continente e numa altura em que, segundo diz no livro, a NATO também não confiava no país?
O andar a monitorizar os nossos parceiros não quer dizer que estejamos a fazer alguma atividade maligna. É assim que o mundo funciona, os nossos aliados são aliados não são amigos. Às vezes confundimos as coisas, a nossa aliança vai até ao ponto em que os interesses mútuos estão em sintonia a partir do momento em que não é assim cada um vai para o seu lado. Portugal não tinha intervenção forte, nem podia naquela altura difícil como foi a o momento de independência desses países, mas o país cooperava, e continua, com eles.

A DINFO teve muita intervenção nesses países...
Na análise que fiz a documentos e relatos que ouvi Portugal mantinha interesse em saber o que se passava nesses países. Portugal saiu de lá mas ainda houve algumas empresas que ficaram lá. Ou seja, existiam interesses económicos para o país manter o interesse.

Foca-se mais em Moçambique...
Sim, Angola foi um corte completo. Os episódios que conto têm a ver com Moçambique, não há nenhum relacionado com Angola e Guiné. O nosso governo tinha relações com a FRELIMO, mas com a RENAMO tinha de haver uma outra entidade por trás que fizesse essa ponte [foram os operacionais no território da DINFO]. Por isso é que as informações são recolhidas em segredo. Não é por ser uma situação maligna mas é pelo facto de nenhum amigo gostar de saber que anda a ser monitorizado. Estamos a falar de uma altura já final da DINFO, em que o terrorismo era uma responsabilidade da Polícia Judiciária e na parte da contraespionagem os russos já tinham retraído, já tinham sido feitas algumas expulsões de espiões considerados persona no grata. A DINFO aí agarrou-se ao último bastião que podia ter ou seja voltar ao que era quando começou em 1974 - a divisão de informações político-militares de apoio. Essas funções tinham terminado no dia 11 de março de 1975 em que é extinta e surgiu o Serviço Diretor e Coordenador de Informações que era o braço armado do COPCON (Comando Operacional do Continente). É interessante pois em termos modelares era muito parecido com o KGB - incluindo uma cabeça tripartida - era um serviço sui generis que acabou a 25 de novembro de 1975. Na altura a DINFO é reerguida por decisão, julgo eu, do general Ramalho Eanes de forma a colocar um ponto final na questão do terrorismo e da contraespionagem.

Fala em três operações no livro. Estão todas relacionadas com atuação da KGB?
Sim. As três operações que são relatadas têm a ver com a tentativa de infiltração de agentes em determinados locais onde teriam acesso a informação classificada nomeadamente da NATO. A primeira operação - a Albatroz - dá algum know how à DINFO, que tinha tido alguma formação com os ingleses e os israelitas tanto na parte do terrorismo como na contraespionagem.

Os serviços secretos ingleses e israelitas formaram agentes da DINFO?
Sim deram, na fase inicial.

Mas os agentes da DINFO não eram na sua grande maioria militares já com experiência?
A esmagadora maioria eram pessoas que tinham estado na Guerra de África, tinham alguma experiência no que era o combate, nesta questão de contraespionagem não tínhamos qualquer tipo de experiência. E então existiu esta necessidade de adaptação pois as técnicas são diferentes. A forma como as redes se articulam é diferente. E foi preciso, como acontece em qualquer país democrático, conseguir informação para tomar as melhores decisões possíveis. E então nessa altura a ordem foi, como havia dinheiro do Fundo do Ultramar (as verbas eram confidenciais), receber formação. O português é um indivíduo com uma enorme capacidade de adaptação desde que seja estimulado, que se calhar é o que nos falta hoje em dia. E então houve essa necessidade e construiu-se esta capacidade [espionagem] que desenvolveu uma atividade muito profícua na área do terrorismo. E a DINFO foi um dos grande obreiros do desmantelamento dos grupos [extremistas] nomeadamente as FP [Forças Populares 25 de Abril, uma organização de extrema esquerda que atuou em Portugal entre 1980 e 1987]. Outra coisa muito interessante é que havia muita cooperação entre toda a gente [Polícia Judiciária, PSP], hoje em dia não sei como está.

As três operações que são relatadas [no livro e em que a DINFO teve intervenção] têm a ver com a tentativa do KGB de infiltrar agentes em determinados locais onde teriam acesso a informação classificada nomeadamente da NATO

No livro escreve que a DINFO estava com tanto sucesso que acabou por ser desmantelada por causa desse sucesso. Qual a razão?
Temos de fazer um enquadramento. O aparecimento do SIS, que é quem tem essas responsabilidades, desde o principio da década de 80; e a Polícia Judiciária assumiu o combate ao banditismo. Todas essas decisões pesaram um pouco na decisão. E depois o aparecimento da ideia de que somos férteis em fazer transformações, é como os clubes de futebol, cada um que chega vai mudar pois está tudo mal. Assim foi criado o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa Militares que não estava no projeto inicial do Sistema de Informações Portuguesas (o nome atual é Serviço de Informações da República Portuguesa) a génese desta lei quadro, que data ai dos finais da década de 70 principio de 80, criava três serviços: o Serviço de Informações de Segurança (SIS), o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) e Serviço de Informações Militares (SIM).

Qual foi o trabalho deste serviço secreto militar no período pós-25 de Abril de 1974?
A DINFO fazia recrutamento de elementos dentro das organizações [consideradas terroristas] e maioritariamente fazia vigilâncias, fotográficas ou telefónicas, que eram proibidas, tal como atualmente, e escutas radiofónicas com microfones em determinados sítios. Esta é uma discussão que há em Portugal e que não vou catalogar, mas é uma questão que o falso argumento [serem ilegais] é o argumento para o comum mortal.

Neste seu livro parece que defende a utilização desses meios, mesmo sendo ilegais. Acha que isso será compreendido pelo cidadão comum? Na realidade não está prevista na lei.
Não é compreensível para as pessoas por causa da narrativa criada.

Por exemplo, a recente operação da PSP em seguir e fotografar jornalistas não foi muito bem recebida...
Depende da narrativa e da forma como for feita. Se disser que pode haver pessoas que aproveitam isso de uma forma maligna para determinadas atividades ou agendas pessoais além daquelas para que estava destinada também discordo, mas parto do princípio que todos os países do mundo têm este tipo de atividade e balizadas. Perfeitamente balizadas. Agora quem sai fora da baliza estipulada pela lei obviamente que incorre num crime. Agora é assim, temos de pesar entre as liberdades, direitos e garantias e a segurança. E essa discussão é uma discussão já com muito tempo. Hoje em dia anda tudo na internet, os metadados, comunicações. As pessoas más para se coordenarem têm de falar pelo telemóvel, se for presencial é mais complicado [obter informações] só com escutas ambientais. Portanto, se o serviço não consegue saber quais são as intenções ou movimentações de uma determinada ameaça como é que consegue fazer uma avaliação correta? Não consegue. Claro que há a parte da investigação criminal, mas são mundos à parte.

O que este seu livro pode ajudar a conhecer melhor a história do país no pós-25 de abril de 1974 e a intervenção dos serviços secretos nacionais?
É um bocado para dar o mote que os serviços de informação, não os militares pois não podem fazer esse tipo de atividade hoje em dia e reconheço que não o deverão fazer, são muito importantes para os países. Os países precisam de ter conhecimento. Tento ainda juntar o domínio académico, tirei o mestrado em Inglaterra e convivi com pares dos serviços de segurança ingleses e lá estuda-se muito exemplos de casos que se passaram. Quando se publica é-se escrutinado e podemos afinar os nossos modelos.

Alguém dos serviços, atuais ou antigos, comentou este seu livro?
Na fase inicial a tendência é ser-se simpático. No que diz respeito às pessoas da área e a quem reconheço mérito e alguma capacidade para tal o feed back é positivo. No livro há algumas mensagens que se calhar obrigarão algumas pessoas do meio a pensar nas coisas. Sei que o pilar da educação, justiça, saúde são importantes, são as bases dos países na democracia, mas depois temos de olhar para os nossos parceiros. Eles fazem este tipo de atividade, temos de ter vantagem competitiva caso contrário somos asfixiados. Ou então, assumimos que vivemos do turismo e do sol. Recebemos bem as pessoas e somos prestação de serviços. Por exemplo, nos Açores com a questão da plataforma continental, quem é que anda cá a ver e o quê? Se nós não tomamos a dianteira essas pessoas chegam cá e tomam conta das coisas e nós andamos a olhar para nada. Agarrando na DINFO este livro também mostra que no passado conseguimos fazer e que hoje em dia não conseguimos porque alguém não quer.

Acha que os serviços de informação não fazem mais porque alguém não quer?
Não posso pronunciar-me porque não tenho conhecimentos. Mas pelo que vejo relatado na imprensa digamos que não há muita atividade, mas também quando um serviço de informação está nas páginas dos jornais não é bom sinal. Mas julgo que a atividade e a dimensão poderão não ser as necessárias para o país estar bem informado.

No livro tem esta dedicatória: "A todos aqueles que vivem na sombra para que o povo viva em segurança". É um recado ou uma homenagem?
Foi uma coisa que me veio à cabeça. Mas é uma homenagem a pessoas que devido à sua profissão têm de usar nomes de código e que ninguém conseguiu saber o que eles fizeram. O que também me fez partir para este livro é que se os ingleses, os americanos e os franceses conseguem retratar as coisas para as pessoas perceberem o que os serviços de informação fazem, independentemente de haver algum romantismo, também acho que era bom trazer estas coisas sobre Portugal. Sei que algumas pessoas ao ler o livro ficaram felizes ao ver ali referências a elas, os seus nomes de código. Mais tarde podem mostrar aos netos "olha este era o avô". Foi também para dar algum reconhecimento a essas pessoas que vivem na sombra e não se podem expor. E que têm informação valiosa/confidencial que não podem partilhar.

cferro@dn.pt

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