"Se não travarmos o atraso na oncologia, as consequências serão catastróficas daqui a uns anos"

A pandemia veio provocar atrasos na luta contra o cancro que podem ter consequências catastróficas. A Organização Europeia do Cancro está preocupada com a situação e lançou um apelo urgente aos líderes dos países e à sociedade, para que se mobilizem.

Um ano e meio de pandemia pode ter levado a que 100 milhões de testes de rastreios oncológicos não tenham sido realizados em toda a Europa. Esta situação pode ter levado também a que um milhão de diagnósticos não tenham sido feitos, ou que tenham sido, mas já tardiamente, diminuindo a taxa de sobrevivência dos doentes. Mas há mais. Na Europa, estima-se que uma em cada duas pessoas com potenciais sintomas oncológicos não tenha sido encaminhada com urgência para diagnóstico. E que um em cada 5 doentes oncológicos ainda não receba o tratamento cirúrgico ou de quimioterapia que necessita.

Os números são da Organização Europeia do Cancro, (EOC, sigla em inglês), que reúne 36 organizações europeias, representantes de todas as áreas da oncologia, envolvendo médicos e enfermeiros, e 20 organizações de doentes.

O presidente da EOC, Matti Aapro, defende nesta entrevista ao DN, feita por telefone, medidas urgentes por parte das autoridades europeias e nacionais para que se recupere os atrasos provocados pela pandemia e para que o combate ao cancro seja feito de forma global. "Todos os pacientes devem ter o direito de aceder aos melhores cuidados". Matti Aapro espera que daqui a um ano a situação esteja melhor e que daqui a cinco já haja mais colaboração entre países. Este é um dos objetivos da campanha que lançaram agora para sensibilizar líderes políticos, profissionais e sociedade.

A Organização Europeia contra o Cancro lançou uma campanha Time to Act - Tempo de Agir - o que esperam alcançar com esta campanha depois de uma pandemia que teve fortes repercussões na doença oncológica?

Esperamos convencer a população a voltar aos rastreios, que são fundamentais, ao médico de família ou ao médico de outras especialidades, esperamos fazer-nos ouvir junto dos líderes políticos de cada país, para que em conjunto consigamos agir de acordo com o que é melhor para os pacientes e até de acordo com o que são as próprias diretrizes da União Europeia. O problema na Europa, e até mesmo dentro da UE, é que temos cuidados de saúde que são diferentes de país para país. Ouvimos muitas vezes líderes de alguns países dizerem: "Eu decido o que fazer no meu país". Assim é muito complicado agir para termos um melhor combate contra o cancro. A Organização Europeia contra o Cancro (EOC) trabalha sempre através dos centros de oncologia, com os colegas médicos e enfermeiros, e tenta fazer o mesmo com as autoridades políticas. Em Portugal, por exemplo, temos tido um apoio muito bom do lado dos ministérios da Saúde e da Ciência, porque é objetivo de todos é recuperar o atraso em relação aos diagnósticos e rastreios durante este período da pandemia. Com esta campanha, pensamos que será mais fácil chegar a cada país.

Mas concretamente o que há a fazer em cada país?

Depende de país para país. Os colegas portugueses dizem que o que é preciso é mais pessoal e orçamento para recuperar a atividade que ficou para trás. Todos os países da União Europeia vão receber mais dinheiro para o tratamento do cancro, portanto, é preciso fazer com que não percam essa oportunidade. Vamos começar o diálogo com as autoridades, com grupos de médicos e de enfermeiros, para ajudarmos a que se ande para a frente e se arranje soluções. Daqui a um ano voltaremos a Portugal e a cada um dos outros países para ver o que foi feito.

É esse o feedback que tem de todos os países: falta de pessoal e de orçamento?

É claro que há alguns países muito bem organizados, como os do norte da Europa em que a situação não é tão difícil. A nossa preocupação são os países que já tinham uma situação difícil no diagnóstico e no tratamento do cancro e que ainda agravaram mais após este período de pandemia, como por exemplo os países do Leste europeu.

"Da parte dos países, a aposta tem de passar pela tecnologia e pelo pessoal especializado, para podermos fazer diagnósticos com precisão e qualidade".

Então há diferenças no combate ao cancro entre o Norte, o Sul e o Leste da Europa?

Há. Como disse, a nossa preocupação são os países que já tinham uma situação difícil e que ficaram piores São países em que já antes da pandemia os doentes não tinham acesso quer a cirurgias especializadas, como aos novos medicamentos e tratamentos de radio e quimioterapia. E é contra isto que todos temos de lutar, porque todos os pacientes devem ser tratados da mesma forma.

Como situa Portugal no contexto europeu?

Portugal tem centros de excelência de uma forma geral e está organizado nos cuidados. Os seus pacientes têm acesso não só às cirurgias especializadas como aos novos medicamentos e novas técnicas de radio ou de quimioterapia. Em Portugal, não acontece o mesmo que em outros países na área oncológica.

A EOC estima que 100 milhões de rastreios tenham ficado por fazer neste ano e meio de pandemia, que um milhão de diagnósticos não tenham sido feitos atempadamente. Que consequência terá esta situação em termos de mortalidade e no combate à doença oncológica?

O nosso grande receio é que este atraso se mantenha. Porque se o atraso for só de um ano, acreditamos que não vai ter um resultado catastrófico, mas se continuar, se os próprios pacientes continuarem a recusar os rastreios, continuarem a ignorar sintomas e a não irem ao médico, aí as consequências daqui a uns cinco, seis ou sete anos serão catastróficas. Veja, no centro onde trabalho, perto de Genebra, ainda temos situações em que os doentes não querem vir fazer os rastreios porque ainda têm medo da covid, têm receio de estar em salas de espera com outras pessoas e de serem infetados. É preciso que as pessoas tenham confiança nos serviços, é preciso que saibam que os circuitos dentro das unidades de saúde são separados, de um lado covid e do outro, os restantes doentes. Tenho dois casos muito tristes de duas pacientes, de 38 e 43 anos, que chegaram ao hospital com meses de atraso, sentiram os sintomas e não fizeram nada. Uma delas sentia um caroço e ignorou Era um tumor, que passou de milímetros para 2,5 centímetros. Outra foi operada e já tinha vários gânglios positivos. As duas têm agora um prognóstico menos bom do que se tivessem vindo ao médico assim que começaram a observar os sintomas. E não é só o meu centro que tem histórias como estas. Outros colegas contam as mesmas histórias. Por isso, queremos muito que com esta campanha que lançámos agora a sociedade se mobilize, para se conseguir evitar uma catástrofe na oncologia.

A nível dos países, o que cada um pode fazer concretamente?

Primeiro têm de fazer uma comunicação de qualidade com os cidadãos, com todos, sobretudo com os que ainda não são pacientes, para lhes explicar que os centros de rastreio são seguros, bem organizados e com profissionais, médicos e enfermeiros, que sabem o que fazer. Depois, há toda a comunicação entre autoridades e profissionais para se resolver as falhas no combate ao cancro.

"A pandemia veio mostrar-nos que a Saúde não tem fronteiras. Temos de falar em conjunto, temos de nos ajudar mutuamente. Os pacientes têm de ter o direito de serem tratados com os melhores cuidados que há na Europa. O combate tem de ser global".

Mas quais devem ser as apostas da Europa no combate e na prevenção do cancro?

A primeira aposta é mesmo a prevenção, o evitar o cancro e isto tem a ver com os comportamentos. Por exemplo, hoje já se sabe que há uma correlação muito forte entre a obesidade, que desenvolve também doenças cardiopulmonares, e o cancro, o hábito de fumar ainda é muito forte na Europa, e é um risco elevado para o cancro, o vinho, que pode ser fantástico, como o português, quando é demais tem um risco elevado para doença oncológica. Depois, há a falta de exercício físico, digo sempre às pessoas que quando têm a possibilidade de andar a pé, andem. Façam pelo menos algum exercício. Portanto, o que temos de mudar em primeiro lugar são os comportamentos da população, porque a prioridade deve ser evitar o cancro. A segunda aposta é não descurarem os rastreios e o tempo em que devem ser feitos. E as autoridades dos próprios países têm de se comprometer a realizá-los. Da parte dos países, a aposta também tem de passar pela tecnologia e pelo pessoal especializado, para se poderem fazer diagnósticos com grande precisão e qualidade. Isto é cada vez mais importante, por exemplo, no caso dos tumores sólidos e hematológicos. Já sabemos que se houver um diagnóstico com precisão e de qualidade que isso vai mudar o tipo de tratamento, não só a nível dos medicamentos que têm de ser tomados, mas também a nível da cirurgia, da radio e da quimioterapia. O doente vai ser melhor tratado.

Neste momento, na sua opinião, qual é a situação mais complicada de resolver nesta área tendo em conta o panorama europeu?

É o tempo que leva os novos tratamentos a serem aceites pelas autoridades centrais de cada país para começarem a ser utilizados. Há países onde, por exemplo, as autoridades levam muitos meses a resolver o problema do reembolso para os novos medicamentos. E o combate ao cancro tem de ser global, de acesso igual, porque ainda há uma grande diferença na Europa ao nível dos cuidados.

No caso dos países da União Europeia isso deveria estar mais uniformizado?

Penso que a pandemia nos veio mostrar que a saúde não tem fronteiras. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já nos chamou a participar na Reunião Médica Europeia que vai decorrer, o objetivo é mostrar aos países que não pode haver o espírito de "no meu país eu posso, eu faço". Temos de falar em conjunto, temos de nos ajudar mutuamente. Por exemplo, num caso particular, em que o paciente tem de passar de uma região para outra no seu país, isso também tem de acontecer fora das fronteiras, o doente deve poder ir para outro país para ser tratado. Os pacientes têm de ter o direito de serem tratados com os melhores cuidados que existem na Europa, se houver um tratamento que é o mais adequado para um cancro num país, os pacientes devem ser tratados nesse país. É complicado, mas o combate tem de ser global.

Onde espera que estejamos daqui a um ano?

Em primeiro lugar, espero que já não haja pandemia, espero que com as vacinas os países consigam controlar esta situação, passando a trabalhar nos atrasos na oncologia. Daqui a um ano, espero que a situação da doença oncológica esteja melhor do que agora e que daqui a cinco anos ainda esteja muito melhor, já com uma verdadeira colaboração europeia entre todos os países. Mais uma vez lembro os países que, pela primeira vez, a Europa definiu um orçamento muito importante para a oncologia, vai haver a possibilidade de investir em pessoal, em tecnologia e no que faz falta aos pacientes. É muito importante que todos aproveitem isto, para se tratar melhor todas as pessoas. O diagnóstico de um cancro, mesmo com um prognóstico bom, não deixa de ser um diagnóstico de cancro, qualquer caso tem de ser bem tratado, todos temos de perceber isso.

Os números do cancro

30 000 - Em Portugal cerca de 30 mil pessoas morrem todos anos por tumores malignos. O governo quer reduzir este número em cerca de 50% até 2030. Por agora, é preciso recuperar o que ficou em atraso durante a pandemia. Esta semana, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde reconheceu que o número de pessoas rastreadas no âmbito dos três programas - mama, colo do útero e cólon e reto - sofreu uma quebra de cerca de 50% em 2020, dizendo que a recuperação já está a decorrer.

1,3 Milhões - Este é o número de doentes da União Europeia que perderam a vida devido à doença em 2020.

2,7 milhões - Este é o número de novos casos que foram diagnosticados com cancro em 2020 na União Europeia. Um número que está a aumentar, como assumiu a própria presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em maio, em Bruxelas, quando apresentou o Plano Europeu contra o Cancro. "Infelizmente, o número de casos está a aumentar, é por isso que apresentamos hoje este plano. A luta daqueles que travam um combate ao cancro é também a nossa luta".

4 mil milhões de euros - Esta é a quantia atribuída pela UE ao Plano Contra o Cancro, o qual vai incidir nas áreas: prevenção primária; rastreio oncológico; tratamento; cuidados de sobrevivência, qualidade de vida para pacientes com cancro e apoio do cuidado e, por último, informação, pesquisa e conhecimento. "Uma União Europeia da Saúde forte é uma União onde os cidadãos estão protegidos contra cancros evitáveis, onde têm acesso ao rastreio e diagnóstico precoces e onde todos têm acesso a cuidados de alta qualidade, em cada etapa do processo", disse, na altura, Stella Kyriakides, Comissária da Saúde e Segurança Alimenta.

40% dos casos diagnósticados poderiam ter sido evitados - Este número também foi dado por Stella Kyriakides em maio, para argumentar que o grande pilar deste plano tem de ser a prevenção primária, que passa por uma mudança nos comportamentos dos cidadãos.

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