Saiba se o seu filho é uma vítima em perigo

Diego, um menino espanhol de 11 anos, suicidou-se por não aguentar mais ir ao colégio. Em Portugal, estima-se que situações de agressão envolvam uma em cada cinco crianças.

"Papá, mamã... Espero que algum dia possam odiar-me um pouco menos. Não aguento ir ao colégio e não há outra maneira para não ir." A carta que Diego, de 11 anos, deixou aos pais antes de se suicidar, no dia 14 de outubro, tornou-se agora pública. Os espanhóis Carmen González e Manuel suspeitam que o filho terá decidido atirar-se do 5º andar porque era vítima de bullying. Uma situação extrema, dizem os psicólogos ouvidos pelo DN, mas que pode acontecer. Isolamento, alterações de humor repentinas, maior tristeza e queixas físicas permanentes são alguns dos sinais aos quais os pais devem estar atentos.

Vários educadores referem problemas no estabelecimento de ensino que Diego frequentava, no bairro de Villaverde, em Madrid, Espanha. Segundo o El Mundo, a polícia descartou a hipótese de se tratar de bullying e o caso foi arquivado, mas os pais da criança pedem à juíza que investigue até ao fim. Na carta, Diego dizia que não aguentava ir para escola, um dos sinais de alerta.

"É um sinal. Tal como a criança pedir para mudar de escola ou de turma, ou apresentar queixas psicossomáticas - como dores de barriga ou cabeça - com frequência", explica ao DN Sónia Seixas, autora do livro "Diz não ao Bullying - Não deixes que te façam mal". Por norma, também é visível "uma maior tristeza, alterações de humor repentinas, isolamento." E há casos em que o bullying também é físico: surgem rasgões na roupa ou marcas no corpo.

O suicídio que ocorreu em Espanha é, segundo a psicóloga, "um caso extremo." Na generalidade dos casos, explica, "não é uma consequência direta de um comportamento de bullying. Será resultado de uma série de fatores, mas onde o bullying pode, efetivamente, ser o mais grave." Daí a importância de os pais estarem atentos aos sinais de alerta, já que "por vergonha ou embaraço, as crianças não contam aos adultos que são vítimas." Em algumas situações, também têm medo de retaliações.

Susana Carvalhosa, investigadora do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, lembra que "é muito difícil contar a um adulto o que se está a passar, seja aos pais ou aos professores." Por isso, as vítimas isolam-se, não têm amigos. "Não veem uma luz ao fundo do túnel. Sabem que quando forem para a escola vão ser gozados e humilhados. Em alguns casos, o suicídio é a única forma que veem de pôr fim a esse sofrimento constante", indica.

Como a criança ou o adolescente tende a manter-se em silêncio, cabe aos pais não desvalorizarem qualquer sinal. "Por vezes, como já passaram pelo mesmo, os pais sabem que vai passar e, por isso, desvalorizam. Mas para quem vive o momento, é tudo sentido com muita intensidade", alerta Sónia Seixas.

Esta semana, foram reveladas as conclusões de um estudo da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade de Lisboa, segundo o qual um em cada dez jovens praticantes de desporto já foi vítima de bullying, enquanto dois por cento sofrem de agressões persistentes, principalmente no balneário. Para o investigador Carlos Neto, as conclusões do estudo "são preocupantes": "Constatámos que existe uma percentagem elevada de cerca de 10% de eventos de bullying em contexto desportivo."

Segundo Susana Carvalhosa, "uma em cada cinco crianças ou adolescentes estão envolvidos em situações de bullying como vítimas ou agressores." Os números "são elevados" e, por isso, este assunto "deve ser encarado como uma prioridade de intervenção."

Para que estudantes, pais e professores conheçam o fenómeno, Sónia Seixas e Luís Fernandes lançaram, no final do ano, mais um livro: "Diz não ao bullying." É a história de Mário, um rapaz que era ameaçado, roubado, fechado em armários por um colega de escola. Até que uma funcionária do estabelecimento identifica a situação e o ajuda. Salienta o papel do adulto, da sinalização, da importância que deve ser dada aos sinais de alerta".

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