Queima das Fitas é como uma catarse para uma juventude mais alheada e isolada

O sociólogo da Universidade de Coimbra Elísio Estanque lança em setembro um livro sobre praxes e tradições académicas

A Queima das Fitas de Coimbra funciona hoje, segundo sociólogos, como uma espécie de "catarse" para uma juventude mais alheada e sem perspetivas de futuro, em que as marcas de uma sociedade de consumo e individualista estão bem vincadas.

"A Queima das Fitas funciona hoje como uma grande catarse coletiva dos estudantes e, ao mesmo tempo, como um mecanismo de compensação para uma vida rotineira talvez pouco preenchida para uma boa parte dos estudantes", afirma o sociólogo da Universidade de Coimbra Elísio Estanque, que lança em setembro um livro sobre praxes e tradições académicas.

Segundo o investigador, a evolução do evento e a sua transformação acompanhou as próprias mudanças da sociedade, sendo que os níveis de consumismo, por vezes, quase irracionais, que se fazem sentir nesta altura do ano em Coimbra, podem ser interpretados como uma espécie de compensação à atomização e isolamento que existe entre a juventude.

Numa geração marcada pela "falta de perspetivas de futuro" e pelo "individualismo crescente na sociedade", o ritualismo, "simbolismo e gritos mais ou menos tribais", que se observam, tornaram-se "mais num artefacto do que em algo que diz respeito à solidez do conhecimento, da entrega ao coletivo, de identificação de um grupo de que se faz parte. Perdeu-se o sentido de consciência social e participação cívica".

Um dos sinais dessa evolução, sublinha Elísio Estanque, está nas próprias mensagens e códigos veiculados nos carros de cortejo da Queima das Fitas, que, por norma, continham um conteúdo crítico muito mais evidente do que hoje. A própria dinâmica da festa também acompanhou as exigências de uma economia do consumo, notou.

Os interesses comerciais à volta da Queima, aponta o historiador Rui Bebiano, são um dos fatores que tem contribuído para a massificação e a baixa qualidade de algumas das realizações, massificando-se e normalizando-se por baixo para trazer setores que nem sequer pertencem ao universo estudantil.

Face a essas alterações, o evento afasta-se até de algumas práticas tradicionais, referiu, realçando que as alterações terão sempre de partir da vontade e das dinâmicas da própria comunidade estudantil.

"Há uma evolução nítida, em que a profissionalização e externalização são o que mais marca genericamente a Queima das Fitas", constatou Paulo Peixoto, sociólogo que integra o núcleo Cidades, Cultura e Arquitetura, do Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

De acordo com o investigador, o evento, um dos principais na atração e afirmação da cidade, tornou-se mais atrativo para pessoas que vêm de fora, ao mesmo tempo que as diferentes Queimas do país se tornaram iniciativas mais iguais e mais parecidas do que distintas.

Paulo Peixoto considera que a Queima das Fitasjá deixou de ser um evento de estudantes, convertendo-se à luz de eventos genéricos, apesar de manter algumas marcas distintivas. "A Queima era um momento de crítica à sociedade, à cidade e à academia. Hoje, quando se olha para o cortejo, essa dimensão foi-se tornando invisível e cada vez menos importante", considerou.

A Queima das Fitas de Coimbra começa às 00:00 de hoje, com a Serenata na Sé Velha. As noites na Praça da Canção decorrem de sexta-feira a dia 13.

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