Quarta vaga. Letalidade nos idosos não vacinados é três vezes maior do que nos vacinados

Os números subiram em julho, depois de em abril, maio e junho ter havido dias com zero óbitos. A taxa de letalidade é agora de 0,3%, muito abaixo da registada no início do ano. Mas a destacar há o facto de "a esmagadora maioria das mortes" ter sido nos maiores de 80 anos, com a letalidade dos não vacinados nesta faixa a ser três vezes maior do que a dos que tinham vacinação completa: 19,6% contra 6,4%, respetivamente

Em março deste ano, quando o número de casos caía a pique, após a terceira vaga da pandemia em Portugal, considerado o pior período deste ano e meio, a taxa de letalidade - ou seja, o número de mortos por total de infetados - era de 1,3%, segundo os dados referidos ao DN pelo diretor de Serviços de Informação e Análise da Direção-Geral da Saúde (DGS), André Peralta Santos.

O valor diminuiu consideravelmente nos meses de abril, maio e junho, já durante o desconfinamento, em que se conseguiu atingir os zero óbitos em alguns dias, mas nesta quarta vaga, em julho e agosto, a taxa de letalidade voltou a subir, tendo atingido 0,3%. Mesmo assim, salienta André Peralta Santos, "é uma taxa consideravelmente mais baixa do que a de março".

Segundo explica o diretor de serviços da DGS, "a taxa de letalidade vinha a diminuir desde março, período em que o processo de vacinação teve um impacto significativo e que as condições epidemiológicas também melhoraram, após a vaga de janeiro e fevereiro, mas em julho registou-se uma tendência de subida, o que também é normal quando se inicia um período de subida da incidência, mesmo para os vacinados, pois a probabilidade de exposição ao vírus é maior. Mas a verdade é que os números demonstram que, apesar de tudo, os vacinados estão muito mais protegidos contra a infeção, contra a doença grave, que causa hospitalizações, e contra a mortalidade", já que "a esmagadora maioria das pessoas que foram infetadas e acabaram por morrer não estavam vacinadas".

Olhando para os boletins epidemiológicos divulgados diariamente durante o mês de julho, percebe-se que mais de metade dos óbitos foram na faixa dos 80 e mais anos. De um total de 260 óbitos, 135 foram nesta população. E segundo os dados disponibilizados ao DN por André Peralta Santos, a taxa de letalidade nesta faixa etária triplicou entre os idosos ainda não vacinados em relação aos que já tinham a vacinação completa. Os dados recolhidos pela DGS demonstram que a taxa entre os que ainda não tinham qualquer dose de vacina e ficaram infetados foi de 19,6%, entre os que já tinham uma dose foi de 12,3% e entre os que tinham as duas doses foi de 6,4%.

André Peralta Santos ressalva que a percentagem da taxa de letalidade dos não vacinados "é muito significativa, pois neste momento o número de idosos desta faixa etária que não está vacinado é muito residual". Recorde-se que 97% da população com mais de 80 anos já tem a vacinação completa.

De 1 de julho a 13 de agosto morreram 242 idosos

De acordo com o diretor de serviços da DGS, os dados recolhidos mostram "a redução significativa do risco para quem tem a vacinação completa", sublinhando, por outro lado, que "a esmagadora maioria das pessoas que morreram tinha doenças preexistentes, algumas até comorbilidades severas", e, por consequência, "um sistema imunitário muito fragilizado". Ou seja, sustentou, pessoas que, pela sua fragilidade imunitária, não conseguiram desenvolver uma resposta robusta à vacina e que, perante a exposição ao vírus, foram infetadas e acabaram por morrer.

De volta aos boletins epidemiológicos da DGS, podemos observar que entre o dia 1 de julho e o dia 13 de agosto, data em que os números foram disponibilizados ao DN, morreram em Portugal 242 pessoas da faixa etária 80 anos e mais por covid-19. O total de morte3s neste período foi de 436, o que quer dizer que 194 das vítimas pertenciam a outras faixas etárias. Mas quase todas tiveram em comum o facto de terem ocorrido em meio hospitalar. Segundo André Peralta Santos, cerca de 99% mortes ocorreram em unidades de saúde.

Neste momento, a realidade é esta, mas o técnico ressalva que as estimativas feitas já apontam para que a tendência relativa à letalidade é já de descida para as próximas duas a três semanas, pois "esta tendência de descida já se começou a sentir na incidência e nas hospitalizações".

A taxa de letalidade começou a subir em julho, em agosto manteve a subida, houve dias em que se registou um máximo de 20 óbitos, mas a verdade é que, afirma o técnico da DGS, mesmo com este aumento, a letalidade de agora não é comparável à registada nos dois primeiros meses do ano, em que o país chegou a atingir os 221 mortos e mais de 16 mil casos de infeção por dia.

Na altura, sublinha André Peralta, "a incidência da doença era muito elevada na população dos 80 e mais anos e isso não se está a verificar nesta quarta vaga, em que a infeção está a atingir sobretudo a população mais jovem e adulta, o que também tem impacto na letalidade, porque estas faixas etárias desenvolvem uma forma da doença muito mais ligeira" e mesmo que venham a necessitar de cuidados hospitalares raramente acabam por sucumbir devido à doença.

Em agosto, 40% dos mortos tinham vacinação e 40% não

Os últimos dados da DGS relativamente ao mês de agosto demonstram também que em relação ao total de pessoas que morreram, 40% tinham a vacinação completa, 40% não estavam vacinados e 10% só tinham uma dose.

Mais uma vez, André Peralta Santos sublinha que, apesar de as percentagens de mortes em vacinados e não vacinados serem idênticas, "tem um peso muito mais significativo para os não vacinados, porque são muito menos, não há comparação". Ou seja, a letalidade é muito maior entre os não vacinados. O que "só reforça o poder das vacinas". Argumentando mesmo que "o aumento da percentagem de mortes em pessoas com vacinação completa também era esperado na faixa etária em que está a acontecer, a mais idosa. São as tais pessoas que não conseguem dar uma resposta robusta à vacinação".

Mas não é só este fator que explica o aumento de mortes. "Há outros fatores que podem explicar esta situação, como a emergência de uma nova variante, a Delta, associada à Índia, que temos no nosso país desde maio, que já se tornou predominante, e sobre a qual há indicações de que é mais severa em relação à transmissibilidade do que as variantes anteriores. Este dado ainda não é totalmente claro em termos de evidência científica, mas ajuda a explicar o aumento de letalidade na população dos mais de 80 anos nestes dois últimos meses."

Para ele, o importante nesta fase da pandemia é que "as vacinas continuam a demonstrar um grande efeito protetor para a doença grave e para a morte". Por isso, sublinha, "o importante não é olhar para a letalidade de quem tem a vacinação completa, mas sim comparar o risco de morte de quem está vacinado e de quem não está".

DGS não comenta falta de informação sobre mortes

A DGS tem vindo a ser acusada por algumas entidades, nomeadamente pela Ordem dos Médicos, de não dar toda a informação sobre as mortes em Portugal passado um ano e meio. O diretor de serviços da DGS não comenta a situação, referindo apenas: "O que posso garantir é que o nosso compromisso é de máxima transparência. Á medida que vamos recolhendo informação consolidada, vamos partilhando nos nossos relatórios técnicos e divulgando."

O médico de saúde pública afirma ainda: "Observámos uma tendência crescente na letalidade e na mortalidade, esta última é o indicador de morte por milhão de habitantes, cuja informação consta do nosso relatório das linhas vermelhas, mas o que se nota agora é que tanto numa como noutra a tendência começa a abrandar em termos de crescimento, o que é normal, porque a incidência da infeção na população começa a descer, depois descem as hospitalizações e, por fim, as mortes. É um fenómeno que já é um padrão das vagas anteriores e ao qual já nos habituámos."

O último relatório sobre a vacinação, divulgado ontem, revela que 6 760 777 de pessoas, 66% da população, já tem a vacinação completa e que 7 791 486, 76% da população, tem uma dose. As faixas etárias mais idosas, a dos 80 e mais anos e dos 65 aos 79 anos, já tem 97% da sua população com a vacinação completa.

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