Quando o frio mal deixa pegar na caneta

Depois de quase uma década de intervenções no parque escolar, várias delas luxuosas, continuam a existir escolas - de Serpa a Coimbra - onde a degradação é tanta e o frio, no Inverno, tão intenso, que só com mantas, cachecóis, casacos e luvas se suportam as aulas

Lá fora os termómetros marcam um grau e, dentro da sala, a temperatura não será muito diferente. Numa escola normal, a aula começaria com todos sentados nas cadeiras. Ali, na sala do curso profissional do 12.º ano, na Secundária de Serpa, a primeira tarefa dos alunos é alinharem-se em fila indiana, em frente ao aquecedor elétrico, para "descongelarem" as mãos antes de puxarem das canetas. "É assim que preparam a aula", brinca a professora. "É assim desde o 10.º ano", confirma uma aluna, escondida atrás do casaco e com uma manta sobre as pernas.

Ali perto, numa aula de Físico-Química, outra turma enregelada. Daniela tem mais sorte do que os outros. Está sentada ao lado do aquecedor. Mesmo assim não abdica da manta e do casaco, fechado até ao queixo. "É complicado para escrever. Temos sempre as mãos dormentes", desabafa. "Escrever faz doer os dedos", confirma Mário, uma fila à frente. "Estamos cheios de frio. De manhã é muito complicado". José, o professor, já se habituou a perder boa parte da aula nestes preparativos. "Estão mais preocupados com o frio do que em pegar nas canetas e começar. Se tivéssemos condições, a eficiência seria muito maior".

E estas - apesar do facto de chover em boa parte delas - são as sala s ainda com condições mínimas para os 350 alunos, do 3.º ciclo ao secundário . Nos últimos anos, à medida que, "devido à crise", as receitas próprias da escola foram encolhendo, e que parte delas passaram a ser canalizadas para áreas em que o Ministério da Educação reduziu as verbas, como os cursos vocacionais, as obras pontuais que iam sendo feitas pararam. E o declínio, que já era evidente há muito, intensificou-se.

"Neste momento, das 24 salas existentes, já estão fechadas seis, principalmente devido a danos causados por infiltrações", conta o diretor, Francisco Oliveira. "Incluindo a sala de música, que gastámos cinco mil euros a recuperar mas que, duas semanas depois, estava inutilizada. Há outras que só mantemos abertas por falta de alternativas, como o laboratório de Química". Não são apenas as condições de trabalho que estão em causa. É também a própria saúde de quem utiliza este espaço: "Neste momento temos três professoras de baixa, com pneumonias. Nunca aconteceu isto antes", diz o diretor.

O hábito torna circunstâncias inaceitáveis numa rotina. Tanto para os alunos como para o resto do pessoal da escola. Enquanto nos acompanha pelo edifício degradado de betão - a maior parte do qual construída nos anos 1980, com base num modelo de blocos concebido por suecos para países em vias de desenvolvimento - Francisco Oliveira recebe mais uma má notícia: um problema de esgotos acaba de tornar insuportável o ambiente na sala de Educação Visual.

"Por vezes pergunto-me se não estamos aqui todos à espera do dia em que a escola feche", desabafa uma professora, "sem forças para dar a cara".

O diretor vai dando o corpo às balas. Diz que ainda tem um motivo muito forte para o fazer: "O que me deixa satisfeito aqui são estes miúdos", diz, abrindo os braços para a fila de estudantes que se acotovelam à porta do refeitório. "São todos tranquilos. Não temos problemas de disciplina. Há uma boa relação com os professores". E os resultados também não são maus: "Temos taxas de sucesso acima da média nacional. Nos exames estamos à volta do número 200 entre 600 escolas. Às vezes, pergunto-me onde chegaríamos se as nossas circunstâncias fossem iguais às dos outros".

Dulce Santana, presidente da Associação de Estudantes, coloca-se a mesma pergunta: "Esta é a única secundária do nosso concelho. Olhamos para Moura e Beja, vemos que têm escolas requalificadas, onde até os pavilhões desportivos estão aquecidos, e sentimos que é injusto termos de aprender nestas condições", desabafa. "Sei que já não vou tirar partido disso, porque estou no 12.º ano. Mas quero que os meus colegas tenham as mesmas oportunidades dos outros".

Mudarem para escolas dos concelhos vizinhos é uma ideia que os alunos recusam. E não é só por causa da distância: "Esta é a nossa escola e esta é a nossa comunidade".

Não ter manta "dá falta de material"

É difícil de entender como a Secundária de Serpa, sinalizada desde 2008, foi ficando sistematicamente para trás na hierarquia das obras da Parque Escolar. Mas os paradoxos dessa intervenção, milionária nuns casos, ausente noutros, estão por todo o lado. Perto do centro de Lisboa, na Praça José Fontana, a Secundária de Camões é outro edifício em cuidados paliativos. Foi desenhada por Ventura Terra, o mesmo arquiteto que concebeu a Secundária Pedro Nunes, há muito reabilitada. Tal como esta, é um imóvel classificado como de "interesse público". Mas as semelhanças acabam aí.

Também nesta escola, as mantas , casacos, cachecóis e e luvas , passaram a ser uma espécie de equipamento de sobrevivência em várias das salas: "Não consigo tirar o casaco nas aulas. Estou sempre cheia de frio", confessa Mariana. "As mantas já são obrigatórias. Dá falta de material não trazer", brinca o diretor, João Jaime , que ainda assim vai dando graças à perspicácia do arquiteto que concebeu o edifício, "sem corredores fechados", e convergindo para um pátio onde abunda a luz natural. "Se não fosse isso, esta escola já teria caído há muito", assegura, lembrando que "há cem anos, na resposta à crise de pneumónica da gripe espanhola, a escola funcionou como hospital".

Em princípio, o Camões ficará de pé. Segundo o diretor, tudo indica que, depois de anos de luta - que envolveu vários antigos alunos ilustres, como o atual Secretário-geral da ONU, António Guterres - as obras arrancam em 2018.

Os remendos não tapam frio

Mal se abre a porta do laboratório de Química na Escola Secundária José falcão (Coimbra), uma das alunas larga a experiência que está a fazer e solta o desabafo: "É horrível, não se aguenta o frio". Os aventais vestidos por cima dos casacos não escondem o desconforto que uma manhã com temperaturas próximas do zero pode causar nas salas mais frias da escola. "Essa é uma das situações que mais preocupam. Estamos numa escola com 80 anos que nunca foi alvo de uma intervenção de fundo", conta, ao DN, o diretor da instituição, Paulo Ferreira.

Os problemas ficam bem à vista, numa viagem pelos corredores da escola, uma instituição centenária - herdeira do antigo Liceu de Coimbra, criado em 1836 - instalada naquele edifício de arquitetura modernista desde 1936: veem-se fissuras e infiltrações nas paredes, aqui e ali faltam estuque ou azulejos e há baldes estrategicamente colocados para evitar que os pingos que caem dos tetos caem ao chão. Mas, em dias frios como os da última semana, o pior inimigo dos estudantes é o frio. "É bastante desagradável. Muitos alunos têm de levar mantas para as aulas, principalmente para os laboratórios, que são as salas mais antigas", aponta o presidente da associação de estudantes, Manuel Providência.

"As janelas tem uma caixilharia de alumínio, sem corte térmico nem acústico. Logo por aí seria impossível manter as temperaturas desejáveis. Mas o mais grave é que não temos qualquer sistema de aquecimento. Principalmente nos laboratórios, que tem um pé direito muito alto e bancas de xisto, é muito difícil que os alunos lá estejam bem no inverno", descreve o diretor. Este cenário, com sucessivos problemas - "ou é o quadro [elétrico] que vai abaixo, ou um cano que rebenta, ou um bocado de parede que cai", frisa - tem levado a direção, os professores, os alunos e os pais a reclamarem obras urgentes para requalificar as infraestruturas da escola secundária. "É necessário uma intervenção estrutural de fundo", sublinha o responsável.

A associação de pais e encarregados de educação do estabelecimento lançou mesmo em dezembro uma petição para tentar levar o assunto a discussão na Assembleia da República. A escola esteve para ser alvo de intervenções na primeira e na quarta etapas do programa Parque Escolar mas não foi contemplada - e de igual forma não foi incluída no mapeamento de candidaturas da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra ao atual quadro de fundos comunitários, Portugal 2020.

Sem essas oportunidades, a direção limita-se ao que pode: manter as salas de aulas bem equipadas e com melhor aspeto possível e fazer obras pontuais nos espaços que exigem ação urgente (graças aos capitais próprios recolhidos com o arredamento do espaço). Mas os remendos não resolvem tudo. "Se no inverno há excesso de frio, no verão há excesso de calor. As infraestruturas são praticamente iguais ao que eram quando os nossos pais cá estudavam. Toda a gente quer mudanças. Gostava que subscrevessem a petição para que pudesse fazer a diferença", conclui o líder da associação de estudantes.

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