"Primeiro astronauta português é um nome que o país vai reconhecer"

Blue Origin dá a conhecer nos Açores a presença nacional num voo espacial já nos próximos meses, mas sem revelar quem. Richard Garriott, astronauta e presidente do Explorers Club, diz que esse viajante na empresa de Jeff Bezos "é alguém que os portugueses conhecem bem".

O nome não foi divulgado, e, para já, deverá permanecer um mistério, mas um português irá ao espaço em breve, segundo anunciou o astronauta Richard Garriott, com autorização da Blue Origin, ontem em Ponta Delgada, no Teatro Micaelense, onde decorreu a GlexSummit 2022. Fundada pelo bilionário americano Jeff Bezos, o dono da Amazon, a Blue Origin efetua desde 2021 voos espaciais, que, por irem acima da linha Kerman (100 km da Terra), conferem, em princípio, a condição de astronauta aos tripulantes. O próprio Bezos esteve no primeiro voo tripulado, com mais três pessoas, a 20 de julho do ano passado.

O anúncio surgiu no final de um vídeo exibido no terceiro dia da GlexSummit 2022, que este ano se realiza nos Açores. Organizada pelos portugueses da Expanding World e pelo Explorers Club de Nova Iorque, trata-se de uma conferência científica em que os astronautas costumam estar em destaque. O vídeo que continha a notícia foi apresentado por Richard Garriott, presidente do Explorers e, ele próprio, um homem que em 2008 passou 12 dias na Estação Espacial Internacional, viajando como um dos primeiros astronautas privados (o pai foi astronauta da NASA, com duas viagens espaciais). E coube ao próprio Garriott anunciar a novidade do astronauta português, dizendo mais tarde ser "alguém que os portugueses conhecem bem, um nome que o país vai reconhecer".

"É um anúncio que nos enche de grande satisfação porque ao terceiro ano a Glex é já um dos principais encontros da indústria aeroespacial, mais nesta lógica de exploração espacial. E ter um player desta natureza a escolher a Glex para este anúncio de um português no espaço enche-me obviamente de grande satisfação, como nos encheu o anúncio da NASA da sua próxima missão a Vénus, como nos encheu o anúncio por um dos maiores players das estações espaciais, a Axiom, ter vindo também aqui apresentar as suas futuras cápsulas na Estação Espacial Internacional", declarou, por seu lado, Manuel Vaz, da Expanding World.

Sobre a polémica de quem pode ser considerado um astronauta, Garriott esclareceu que existe o critério de que alguém que passe a tal barreira dos 100 km acima da Terra pode ser considerado como tal, mesmo que o veículo onde viaja nunca chegue a entrar em órbita, como é o caso do New Shepard, da Blue Origin.

Até hoje, com a linha Kerman como critério, só dois falantes de português foram ao espaço: o brasileiro Marco Pontes, que em 2006, ao serviço da NASA, passou dez dias na Estação Espacial Internacional (depois disso, chegou a ser ministro da Ciência do Brasil), e Victor Hespanha, que foi recentemente viajante no foguetão da Blue Origin.

O mais recente voo do New Shepard (o veículo espacial da Blue Origin, batizado em homenagem a Alan Shepard, o primeiro americano no espaço), aconteceu a 4 de junho deste ano e durou 10 minutos e cinco segundos. Atingiu os 107 kms de altitude. Deverá ocorrer ainda este ano o próximo voo e, no anúncio da tripulação completa dentro de duas semanas, o nome do astronauta português será divulgado.

A GlexSummit, que além do espaço fala dos oceanos, de espécies em vias de extinção ou extintas e também de vulcões, encerrou ontem (hoje a última sessão é online) com a participação do presidente do governo regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, e do ministro da Economia, António Costa e Silva. Este último fez uma palestra onde revelou conhecimento do tema da conquista do espaço, e do que se seguirá em Marte e Vénus, mas também paixão, citando o conto A Última Pergunta, um dos mais famosos de Isaac Azimov.

Sobre eventuais astronautas portugueses, foi noticiado no início do ano que 13 candidatos nacionais estavam entre os aprovados pela Agência Espacial Europeia para continuar o processo de seleção de astronautas. A nível de astronautas privados portugueses, há mais de uma década que Mário Ferreira, atual dono da TVI, é dado como tendo comprado uma viagem espacial na Virgin Galactic, de Richard Branson, concorrente da Blue Origin. E ainda este ano, o empresário, também dono da Douro Azul, manifestou vontade de cumprir o sonho da viagem espacial se a condição física o permitir.

A GlexSummit 2022 vai na terceira edição, tendo a primeira sido em 2019 em Lisboa, assinalando os 500 anos do início da expedição de Fernão Magalhães e também os 50 anos da chegada à Lua. Voltou a realizar-se em 2021, dessa vez em Lisboa e depois Ponta Delgada. Este ano, depois de uma Glex Ignition Session em Lisboa dia 2, a Glex Summit foi100% nos Açores, de 4 a 7. Além de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, houve uma sessão no Centro de Interpretação dos Capelinhos, no Faial, dia 5, em que participaram o vulcanólogo João Carlos Nunes, da Universidade dos Açores, e James Garvin, cientista da NASA que está a preparar uma missão a Vénus.

Vários astronautas participaram na GlexSummit deste ano, entre eles Mike Alegria, que foi quatro vezes ao espaço ao serviço da NASA e que já este ano voltou a ir à Estação Espacial Internacional, agora como astronauta privado, no âmbito da Axiom.

Sobre a polémica de quem pode ser considerado um astronauta, Garriott esclareceu que existe o critério de que alguém que passe a tal barreira dos 100 km acima da Terra pode ser considerado como tal, mesmo que o veículo onde viaja nunca chegue a entrar em órbita, como é o caso do New Shepard, da Blue Origin. Não é completamente pacífica esta interpretação, pois para uns exclui quem fez voos suborbitais abaixo da Linha Kerman, por outro está a equiparar quem vai numa missão de dez minutos a quem passa semanas ou meses na Estação Espacial Internacional, ou quem é turista e quem faz ciência, seja para um governo ou para uma empresa. Por outro lado, segundo outro critério, quem recebe treino de astronauta, pode também ser considerado como tal mesmo sem ir numa missão.

Os preços dos bilhetes para ir ao espaço na companhia fundada por Bezos são outro mistério. Os 28 milhões de dólares foram referidos para um passageiro do voo pioneiro, mas especula-se também com o valor de 50 milhões de dólares, mais ou menos o mesmo em euros. Atenção que alguns dos viajantes da Blue Origin foram convidados de Bezos, como é o caso do ator William Shatner, o Capitão Kirk da série Caminho das Estrelas, que em outubro de 2021 fez o voo, aos 90 anos.

Também na GlexSummit esteve o dono da Zero G, Matt Gohd, que propõe uma experiência de ausência de gravidade no G-FORCE ONE um Boeing 727-200 modificado para fazer voos parabólicos, ou seja ascensão muito rápida e depois descida também vertiginosa durante alguns segundos, manobra que pode ser repetida várias vezes no mesmo voo. O preço de uma viagem, neste caso, ronda os oito mil dólares, mas nada garante que quem a fizer será considerado um astronauta, mesmo que a experiência seja incrível, segundo os múltiplos relatos.

O DN viajou a convite da GlexSummit

leonidio.ferreira@dn.pt

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