"Previsão de perigos de saúde pública tem de ser feita de forma proativa"

Situações de emergência têm que ser antecipadas e acauteladas em permanência através de instituições públicas, com equipas multidisciplinares e financiamento próprio. O desafio passa, dizem os especialistas, por atrair e reter os talentos necessários para trabalhar nesta área do setor público.

A pandemia demonstrou que o aconselhamento científico é essencial para as tomadas de decisão dos governos em momentos de crise, e também a importância do trabalho em equipas multidisciplinares. Na opinião de André Peralta, no futuro, será preciso antecipar situações de emergência - nas quais se incluem as pandemias, mas não só -, através de um trabalho de previsão permanente. Para fazê-lo, o médico de saúde pública, doutorando na University of Washington School of Medicine, recomenda a criação de um grupo de trabalho que deve ser composto por epidemiologistas, pessoas ligadas à ciência comportamental, matemáticos, cientistas de dados, entre outros profissionais, que seja capaz de fazer as ligações necessárias com a academia, com o mundo civil e com o mundo militar, e que não exista apenas no momento das emergências. "Acho que uma das grandes lições da pandemia foi que o mundo civil e o mundo militar, se cooperarem, é a sociedade que fica a ganhar", reforça.

Mas com esta proposta, André Peralta, que é também um dos autores da tese "Saúde Pública no Pós-Pandemia", desenvolvida no âmbito do projeto Transformar o SNS, a que o DN se associou, não pretende que seja criada mais uma estrutura, a juntar a outras que já existiam ou que foram criadas durante a pandemia. A ideia passa por criar uma entidade única, que reúna o melhor de cada uma das áreas necessárias a pensar a saúde pública como um todo, e com financiamento próprio para que tenha a autonomia necessária, e para que possa atrair e reter os melhores talentos. "O mundo está cada vez mais complexo, e só com boa ciência conseguimos informar os decisores políticos para tomarem as decisões que têm maior suporte na ciência e, para tal, temos de investir em instituições centrais do Estado com alta diferenciação técnica", salienta. Por isso, para o clínico, a mensagem a passar aos responsáveis governamentais é de que é urgente encontrar pessoas que pensem políticas públicas, mas também de encontrar bons mecanismos de atrair e reter estas pessoas nas instituições centrais.

Refletir e aprender para melhorar

Uma das recomendações desta tese, desenvolvida em co-autoria com Patrícia Martins, enfermeira e membro da Associação Portuguesa para a Promoção de Saúde Pública, passa ainda pela realização de um estudo com o objetivo de avaliar a gestão e o impacto das medidas de saúde pública durante a pandemia. Este é, na sua opinião, um trabalho de reflexão, que permitirá perceber o que foi bem feito, mas essencialmente o que correu menos bem, com o objetivo de preparar e melhorar a resposta a futuras crises. "É importante que se faça um registo escrito de tudo o que se passou", reforça a enfermeira especialista em saúde pública. "Os desafios foram diferentes em função das especificidades locais de cada zona, e é importante fazermos essa reflexão da gestão e do impacto das medidas que foram tomadas durante a pandemia, para conseguirmos encontrar respostas para caminhos futuros". Patrícia Martins alerta que, a qualquer momento, o país pode ter outro evento de saúde pública "que nos põe novamente num limbo, mas, se tivermos os processos de atuação e resposta bem definidos, facilita o nosso trabalho e protege a população".

Para acompanhar o debate completo, veja o vídeo em cima ou oiça o podcast:

dnot@dn.pt

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