Portugal continua a ser promovido como destino barato para americanos. Ainda faz sentido?

Publicações põem o país no topo de escolhas baratas e contam histórias de expatriados que se mudaram para Portugal e vivem melhor que nos EUA. Muitos torcem o nariz à projeção desta imagem do outro lado do Atlântico.

"Este é o ano para seguir o sonho", anunciou a revista Forbes num dos primeiros artigos publicados em 2023. "Despedir-se do seu emprego e mudar-se para um dos mais baratos (e melhores) sítios para viver no mundo, um país com custos tão baixos que pode conseguir deixar de trabalhar."

Esse país, no número um da lista da Forbes, é Portugal. Barato, com facilidades ao nível do visto, belas praias e um custo de vida baixo. O artigo diz que é possível viver bem com 2000 dólares por mês, e até por menos em zonas rurais.

O ranking foi feito com base no Índice Anual do site International Living para reformados que querem mudar de ares. O artigo da Forbes junta-se a muitos outros que têm surgido na imprensa norte-americana e caracterizam Portugal como um destino barato para expatriados. A CNBC publicou várias peças em 2022 sobre americanos que emigraram para Portugal e vivem bem com menos dinheiro -- num dos artigos, há um subtítulo que diz que "Portugal é mais barato que muitos países ocidentais."

Ao longo dos últimos anos, principalmente depois da pandemia de covid-19, Portugal tem sido o foco de diversos artigos com este tema. Numa publicação recente da página Poetsphere no Instagram, o custo de vida médio mensal no país é calculado em 977 dólares -- o que parece manifestamente insuficiente.

Mas esse é o denominador comum das publicações: Portugal é tão barato que um americano típico consegue melhorar o seu estilo de vida se se mudar para cá. A imagem desagrada a muitos, que torcem o nariz a esta ideia projetada na imprensa norte-americana.

"Estes artigos são fluff pieces [sem grande substância]", diz ao DN Avalon Giuliano, empresária e autora natural de Nova Iorque que vive em Óbidos com o marido, que é português. Quando vê estas peças na imprensa internacional, Giuliano lê outra coisa nas entrelinhas: "É uma porta dos fundos para emigrar para a Europa."

A autora, que viveu em várias partes do mundo, mostrou-se pessimista com a forma como Portugal está a ser enquadrado e a gerir o interesse estrangeiro.

"Os portugueses que eu conheço estão em dificuldades e é triste ver estrangeiros a receberem mais ajuda e direitos que eles", afirmou. "Há muita gentrificação. É uma loucura para encontrar casa", sublinhou. "Penso que é uma questão de tempo até ficar demasiado dispendioso, tal como o resto da Europa."

A culpa não é bem dos americanos -- só há sete mil em Portugal --, mas o aumento da procura, em geral, tem feito subir os preços. Promover o país como barato pode ser falacioso e redutor.

Susan Korthase, que se mudou para Portugal há mais de uma década, lamenta que o país seja enquadrado dessa forma e considera necessária uma mudança na abordagem das publicações norte-americanas.

Vemos muitos jovens e jovens casais que querem ir para Portugal com crianças pequenas. Muitos mesmo. Um nicho que está a crescer no meu negócio são aulas para crianças", diz Sandra Carapinha

"Estão a fazer um desserviço porque se focam no conceito de barato", disse ao DN a norte-americana. Korthase entende que quem muda de país vai à procura de um conjunto de características que não se esgotam no custo de vida e que adjetivar assim Portugal é depreciativo. O próprio termo cheap, que em inglês carrega a dupla conotação de barato e de pouca qualidade, acaba por ser impróprio. Para Korthase, "é um insulto a quem vive aqui e aos portugueses".

Por outro lado, a norte-americana chamou a atenção para os custos globais de uma mudança transatlântica e disse que estes artigos não levam isso em conta.

"É desinformação e é má orientação", considerou. "Porque haverá custos adicionais e a renda não é o único custo em que se tem de pensar." O processo de visto demora tempo, as taxas de câmbio flutuam e se os interessados estão reformados os seus rendimentos são fixos.

"Mudar para o outro lado do Atlântico é uma mudança significativa", afirmou. "Os custos são muito maiores que os preços médios de arrendamento."

Korthase disse que é contactada quase diariamente por americanos que têm rendimentos passivos na ordem dos 1400 dólares mensais e pensam que conseguem fazer a mudança porque leram artigos a exaltar Portugal como barato.

Mas a realidade não é bem assim. Korthase calcula que mudar dos Estados Unidos para Portugal pode custar a um americano entre 7 e 50 mil dólares, uma vez que as pessoas têm de cumprir uma série de requisitos para obterem autorização de residência, o que inclui um contrato de arrendamento de um ano (ou a compra de casa). "Ou seja, têm de pagar por um apartamento vazio, o que pode custar talvez mil euros por mês, durante 3 ou 4 meses" enquanto esperam pela aprovação do visto. E continuam a pagar pelo sítio onde estão a viver antes de ir.

Isto numa altura em que o arrendamento está a ficar mais caro. Dados do barómetro Imovirtual, publicados em dezembro, indicam que a renda média subiu 48,7% face ao mesmo período de 2021 e fixou-se em 1585 euros no final do ano.

Patricia Casaburi, diretora-geral da Global Citizen Solutions -- que presta serviços de relocalização para vários países -- considera que é preciso, de facto, fazer uma atualização desta imagem barata.

"Está na hora de começarmos a esclarecer certas coisas, porque está a haver uma pressão, os custos de arrendamento já estão corrigidos", disse ao DN a responsável. "Tem que ver com ressalvas", indicou. "Se está a pagar 7 mil dólares num T2 em São Francisco e vai mudar para Portugal claro, com esse dinheiro arrenda um apartamento enorme", exemplificou. "Mas já não é aquela expectativa. Os preços subiram dois dígitos nos últimos anos", afirmou, referindo que tal se deveu a uma conjugação de fatores, incluindo os efeitos da pandemia e o facto de haver menos oferta disponível.

Avalon Giuliano mostrou-se preocupada com a situação e como afeta os cidadãos. "Portugal está prestes a meter-se num buraco, em que os portugueses já não vão conseguir ser donos de coisa nenhuma", refletiu. "É triste que Portugal esteja a ser vendido a quem oferecer mais."

Bom é melhor que barato

Salientar o baixo custo de vida em Portugal, além de ser falacioso, ensombra as qualidades que tornam o país verdadeiramente atrativo. Para o casal Maureen e Greg Danosvky, de Nova Jérsia, o sonho de mudar para Portugal está em vias de se concretizar e não é motivado pela ideia de pechincha.

"Adorámos Portugal imediatamente", disse a norte-americana ao DN, sobre a primeira viagem em território português feita em abril do ano passado. "O tempo, a comida incrível, as pessoas tão amáveis, e tanta história compactada lá dentro", descreveu. "E a paisagem -- simplesmente esplêndida."

O casal, que já começou a desfazer-se das posses nos Estados Unidos, está ativamente à procura de casa em Portugal e não poupa elogios ao que viu. "Esta rapariga de Jérsia está apaixonada", gracejou Maureen Danovsky.

O exemplo deste casal tem-se tornado cada vez mais comum, com um aumento notório da procura. A Global Citizen Solutions, que trabalha com diversos países, tem Portugal como programa mais popular. "Houve um aumento exponencial de norte-americanos", disse Patricia Casaburi, em especial nos últimos três anos.

Os motivos são bastante consistentes. "Existe um sonho de estarem em Portugal, da qualidade de vida", indicou. "As pessoas querem estar aqui, é o sonho de estar na Europa, de viver essa vida, de ter acesso cultural."

Estes artigos são fluff pieces [sem grande substância]", diz ao DN Avalon Giuliano, empresária e autora natural de Nova Iorque que vive em Óbidos com o marido, que é português. Quando vê estas peças na imprensa internacional, Giuliano lê outra coisa nas entrelinhas: É uma porta dos fundos para emigrar para a Europa

A empresa tem muitos clientes da Califórnia, Washington e Nova Iorque, mais alguns da Florida. Nem todos são norte-americanos. "Há muitos clientes que estavam nos Estados Unidos e estão a ir para Portugal que não são americanos. São brasileiros, venezuelanos, colombianos, que querem ter essa base na Europa."

O perfil dos interessados varia, desde reformados que querem um visto D7 aos que investem num Visto Gold e aos nómadas digitais. A maioria tem entre 35 e 55 anos.

"É muito entusiasmante estar em Portugal agora, é um país que está claramente a mudar e tem muitas oportunidades", descreveu Patricia Casaburi. "É o lugar onde as pessoas querem estar. Há muitas startups, há uma comunidade de expatriados a crescer, o povo português é muito acolhedor."

A luso-americana Sandra Carapinha, autora do canal Learn European Portuguese Online, notou um aumento considerável do interesse na língua portuguesa.

"Tem vindo a crescer cada vez mais", disse ao DN a professora, baseada em Los Angeles. "Comecei a sentir uma maior procura por aprender o português [por parte] de pessoas com o interesse de irem morar para Portugal em 2019-2020."

Muitos são luso-americanos de segunda, terceira e quarta geração, que querem regressar às origens. "É uma espécie de dois-em-um", disse a professora. Numa altura em que Portugal está na moda, são atraídos pela boa qualidade de vida com a vantagem de serem portugueses e irem descobrir, por exemplo, a aldeia dos avós.

Mas mais interessante ainda é haver famílias a darem esse salto, não apenas lusodescendentes ou reformados em busca de golfe e um paraíso para o ocaso.

"O que Portugal tem é que está a atrair pessoas muito diferentes", destacou. "Vemos muitos jovens e jovens casais que querem ir para Portugal com crianças pequenas. Muitos mesmo. Um nicho que está a crescer no meu negócio são aulas para crianças."

A Global Citizen Solutions, que trabalha com diversos países, tem Portugal como programa mais popular. Os motivos são bastante consistentes. "Existe um sonho de estarem em Portugal, da qualidade de vida", indicou. "As pessoas querem estar aqui, é o sonho de estar na Europa, de viver essa vida, de ter acesso cultural

Os motivos prendem-se com a qualidade de vida para a família. "Os pais querem oferecer às crianças uma experiência de vida diferente, mais calma, mais tranquila, a questão das armas muitas vezes entra na equação", frisou Sandra Carapinha. "Também o facto de Portugal ser um país bastante acolhedor, onde as pessoas falam bem inglês, onde agora já há uma comunidade de estrangeiros muito grande enraizada em certos locais."

A segurança foi, precisamente, um dos motivos que levou Avalon Giuliano e o marido Daniel dos Santos a mudarem-se de Pittsburgh para Óbidos. Depois de vários tiroteios em zonas próximas, incluindo na sinagoga que alojava a creche do filho, o casal decidiu que estava na hora de mudar. "Os Estados Unidos já não são como eram quando eu era miúda", referiu. "Decidimos que não era um bom lugar para criar filhos e mudámos para Portugal."

A segurança, a qualidade da Educação e o multilinguismo pesaram na decisão.

Comunidade e inclusão

Um dos motivos pelos quais Susan Korthase e muitos na comunidade não gostam da forma como a imprensa americana escreve sobre Portugal é que é simplista.

"Há um desconforto e desapontamento por pegarem numa abordagem tão superficial daquilo que nós valorizamos em Portugal", explicou. "Não estamos aqui por ser barato. Estamos aqui porque o sítio e o povo são maravilhosos, gentis e acolhedores", elogiou. "Estamos aqui porque nos dão uma excelente qualidade de vida e nós damos de volta à comunidade."

A gentileza, amabilidade e inclusividade dos portugueses são fatores importantes. Korthase conta a história de uma afro-americana que um dia foi a pé para o café. "Voltou para casa com lágrimas de felicidade porque, pela primeira vez na vida não teve medo, ninguém estava a olhar para ela de forma peculiar, não foi questionada no café, foi incluída." Sentiu-se vista como uma pessoa. "Essa inclusividade é um grande fator de satisfação das pessoas que vêm para cá."

O que também atrai é a longevidade da cultura, as artes, ciências e arquitetura, o facto de ser fácil chegar ao resto da Europa. "É outro fator: sermos abraçados por uma cultura antiga."

Embora o custo seja um fator para alguém muda de país, disse, também é a segurança, a qualidade dos cuidados de saúde, os benefícios para os filhos de aprenderem outra língua e se envolverem noutro ambiente.

Korthase gostava que os artigos fossem mais a fundo e reconhecessem que as pessoas que se mudam para Portugal e contribuem para esta comunidade o fizeram com introspeção e planeamento. "Estamos a criar comunidades, estamos a ajudar pessoas, a fazer voluntariado", disse. "Estamos a desenvolver com as nossas comunidades."

dnot@dn.pt

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