Peritos querem máscara de volta, teletrabalho quando possível e menos pessoas em eventos

O ritmo de crescimento de novos casos de infeção está elevado e levou o Governo a marcar uma reunião com peritos no Infarmed para esta sexta-feira. Em cima da mesa, vai estar a adoção de algumas medidas que travem a evolução da doença para não chegarmos ao início de dezembro com uma média de 3000 casos diários, mas todos dizem não ser preciso o regresso ao confinamento.

Portugal foi dos primeiros países do mundo a atingir uma cobertura vacinal de quase 90%. Um feito que tem permitido que o aumento significativo de casos de infeção que se vem a registar quase há duas semanas não esteja ainda a ter reflexo na gravidade da doença, em termos de internamentos e de óbitos. Ao DN, especialistas que desde o início da pandemia tratam e acompanham a evolução da doença dizem estar garantido que, apesar do aumento de casos, qualquer onda que se venha a gerar não terá o impacto das anteriores. No entanto, e dado a época que se aproxima, o Natal e o Ano Novo, todos concordam que "não podemos manter este ritmo de crescimento" e que "é preciso tomar medidas que travem a propagação". Senão, como explicava ontem ao DN um epidemiologista, se a média a sete dias é agora de quase dois mil casos, em dezembro será de três mil e, embora a doença tenha menos gravidade, mais tarde ou mais cedo, a situação vai refletir-se nos cuidados de saúde".

Portanto, e segundo afirmaram ao DN, na reunião desta sexta-feira entre peritos, Presidente da República, governo, forças parlamentares e parceiros da concertação social, deverá ser feito um balanço do estado em que se encontram os serviços de saúde e a apresentação de, pelo menos, quatro medidas que podem ser tomadas e que "não têm grande interferência no funcionamento da economia e da sociedade". A opinião geral é a de que o regresso ao confinamento "está fora de questão".

Ou seja, por agora, e para travar a propagação da doença basta tornar o uso de máscara obrigatório em espaços fechados, como restaurantes, pastelarias, locais de trabalho, escolas, etc., e até ao ar livre, desde que haja concentração populacional, nomeadamente em eventos desportivos e culturais; o teletrabalho, sempre que possível e sem prejuízo para a atividade empresarial e para a vida das pessoas, de forma a "reduzir-se a mobilidade populacional e os contactos"; e ainda "a redução de lotação em alguns eventos e espaços, se não houver condições para que se mantenha 1,5 m de distanciamento". Há ainda uma quarta medida que, na opinião geral dos especialistas, é fundamental, mas que o governo ontem mesmo voltou a aprovar: "A gratuitidade dos testes antigénio nas farmácias para mais rapidamente se detetar casos, passá-los a isolamento e à vigilância dos contactos."

"Não podemos passar cheque em branco à população"

Para o vice-presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Saúde Pública (APMSP), Gustavo Tato Borges, a gratuitidade dos testes é fundamental para a deteção precoce dos casos e para a quebra das cadeias de transmissão, mas a par destas enumera mais três: "Do meu ponto de vista, nesta reunião no Infarmed deveriam estar em cima da mesa medidas como o uso obrigatório de máscara em espaços fechados ou em espaços com grandes aglomerados populacionais mesmo ao ar livre."

Para o médico, esta foi uma das medidas que perderam a obrigatoriedade a 1 de outubro e que se deveria ter mantido por mais tempo e ir sendo abandonada aos poucos. "Foi se calhar o passo mais precocemente levantado", porque "se formos a um restaurante ou a uma cafetaria, a locais de trabalho, onde as pessoas passam a maior parte do tempo do seu dia-a-dia, já não vemos ninguém a usar máscara, e precisamos que isso volte a acontecer".

Nas últimas 24 horas Portugal registou mais 2398 casos de infeções por SARS-CoV-2. O maior número de infeções ocorreu na região de Lisboa e Vale do Tejo, com 773 notificações.

O teletrabalho, sempre que possível, é outra das medidas que defende, "porque é a forma que temos de minimizar o impacto das pessoas na rua e em espaços fechados", bem como a redução da lotação em alguns espaços e eventos. O dirigente da APMSP reconhece: "Estamos numa fase em que a mortalidade é baixa, pois a nossa cobertura vacinal deu-nos uma rede de proteção muito grande, mas com o aumento de casos aumenta também a probabilidade estatística de aumentar a gravidade e em seguida os internamentos e os óbitos."

Gustavo Tato Borges disse ao DN esperar que "todas estas medidas sejam discutidas de forma muito aberta" na reunião de hoje, contudo não acredita que esta faça que o governo aprove já medidas: "Penso que o governo vai apostar mais no reforço da consciencialização da população, deixando a tomada de medidas com caráter legislativo talvez para uma segunda reunião no Infarmed, no início de dezembro." O que considera um erro, "já que neste momento não podemos deixar um cheque em branco nas mãos da população. Não é dessa forma que se trava a doença".

Sem medidas, casos sobem e gravidade também

Ao DN vários epidemiologistas também defenderam a necessidade de se travar já a propagação da doença. "Há duas razões para se colocar já um travão. A primeira é que, e já todos o sabemos, quando os números sobem muito isso vai ter reflexo nos cuidados de saúde, desde a saúde pública aos cuidados primários e até aos hospitais. Isto é inevitável. As pessoas têm sintomas, não conseguem distinguir uma constipação da covid e procuram ajuda nos médicos de família, se estes não conseguem dar resposta vão para as urgências hospitalares, entupindo-as. Vai num crescendo. A segunda tem que ver com os recursos da saúde pública - a quem cabe identificar os casos, fazer cadeias de transmissão, para as quebrar, e vigilância - que consegue dar conta do recado quando temos centenas de casos, mas quando passamos para os milhares já sabemos que isso é impossível", argumentaram ao DN. Portanto, "é necessário tomar medidas que travem a subida de casos a que estamos a assistir neste momento".

Não avaliem só hospitais, mas os cuidados primários

O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Nuno Jacinto, corrobora que esta é a altura para se recuperarem algumas medidas gerais, como o uso de máscara em espaços fechados e o distanciamento", mas defende também que devem ser repensadas outras medidas mais técnicas que podem ser fundamentais, como "a redução da lotação em espaços fechados e em eventos".

Como médico, diz, "não nos parece que tenhamos de voltar a confinar. Não é disso que se trata, mas há medidas e cuidados que não podemos deixar de ter". Aliás, sublinha, "não devemos deixar passar a mensagem de que está tudo normal, porque não está. A vacinação permitiu que tenhamos um número elevado de casos, mas ligeiros, mas não podemos abrandar a regras de proteção", porque isso terá consequências.

Portugal tinha ontem 523 pessoas internadas devido à covid-19, mais nove do que na quarta-feira. Deste total, 72 estão em UCI, menos três do que nas 24 horas anteriores. Na quarta-feira morreram 12 pessoas com covid-19..

Quanto à reunião de hoje, o presidente da APMGF espera que "quando se avalie a situação epidemiológica do país não se olhe só para a situação dos hospitais, das enfermarias e das unidades de cuidados intensivos, mas que também se tenha em conta o que se passa nos cuidados primários, nomeadamente o número de doentes que estão a ser vistos por nós, o aumento de doentes com quadros respiratórios que nos estão a chegar e que se tenha em consideração, ao delinear-se o que vão ser as próximas semanas, os recursos de saúde que existem".

O médico reforça que se os casos continuarem a aumentar e se forem os profissionais dos cuidados primários a terem de fazer vigilância aos contactos de risco "forçosamente a vigilância aos doentes crónicos e mais vulneráveis vai ter de ficar para trás. Não podemos continuar a tentar resolver um problema criando outros. E neste ano tem de ser repensado de novo o reforço de recursos nos cuidados primários".

Os epidemiologistas sublinharam ainda ao DN que as faixas etárias em que se está a assistir a maior incidência é dos 0 aos 9 anos, sobretudo nas escolas, o que está a fazer com que haja turmas a fechar, e entre os 20 e os 29 anos, que são os que têm maior capacidade de mobilidade. Portanto, "a adoção de um conjunto de medidas deste tipo, não é tão drástica como o confinamento, mas atrasa a subida de casos".

Do lado político, já se percebeu que tanto o primeiro-ministro como o Presidente da República não aceitam novo estado de emergência. A ministra da Presidência já veio dar o sinal, sem nunca referir quais as medidas que amanhã estarão em cima da mesa para serem discutidas, que podem ser adotadas algumas já nesta fase, mas que "é preciso saber quais é que são necessárias" para travar a doença. No entanto, admitiu: "Não prevemos medidas com um nível e com a gravidade das que já foram tomadas no passado, porque a população está mais protegida."

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