Perfumes falsificados colocam em risco a saúde

Análises feitas em laboratório revelaram que alguns perfumes contrafeitos contêm substâncias proibidas. São produzidos em instalações ilegais onde não há controlo de qualidade

Vendem-se na internet, nas feiras, nas ruas. Têm uma imagem e cheiro semelhantes aos originais, mas são mais baratos. Além de um forte impacto na indústria (perdas anuais para o setor da perfumaria e cosmética entre 12.5 a 17.5%), alguns perfumes falsificados contêm substâncias proibidas e prejudiciais para a saúde e segurança dos consumidores.

Segundo um estudo feito pela Associação Nacional de Perfumaria e Cosmética de Espanha, citado pelo El Mundo, há perfumes falsificados que têm compostos proibidos como o etilenglicol (conservante) e que carecem de proteção ultravioleta, pelo que podem sofrer alterações e provocar reações adversas, como alergias ou manchas. Enquanto os perfumes originais têm mais de 80 substâncias, a pesquisa revelou que os contrafeitos têm apenas 20 a 25 e, em muitos casos, diferentes das originais. Cinquenta por cento da composição é água e etanol industrial ou de baixa pureza.

"Sendo um produto de aplicação na pele, se não for devidamente triado e analisado, pode provocar dermites de contacto por reações de hipersensibilidade ou ação irritativa direta. Além disso, a evaporação pode causar doenças do foro respiratório", explica Paulo Ferreira, dermatologista da CUF Descobertas. Segundo o especialista, o etilenglicol pode ter uma toxicidade aguda, com impacto a vários níveis, nomeadamente neurológico e hematológico.

Além de fragrâncias, os perfumes têm conservantes para não se deteriorarem. "Podem ter vários níveis de toxicidade, por isso têm de ser devidamente regulados." Ao DN, Ana Maria Couras, presidente da Associação dos Industriais de Cosmética, Perfumaria e Higiene Corporal (AIC), diz que este é um mercado "de produtos altamente regulados para garantir a segurança e saúde dos consumidores". Os produtos contrafeitos, "não respeitam a legislação e usam todo o tipo de ingredientes, muitos que podem estar proibidos e são perigosos".

Os perfumes não são objetos de autorização prévia à colocação no mercado. No entanto, explica o Infarmed, há legislação nacional e europeia "relativa aos requisitos a cumprir pelos cosméticos e que garantem a vigilância e a proteção da saúde pública." O problema, dizem as associações, é que estas falsificações são produzidas em instalações que não respeitam qualquer norma.

Após a entrada dos perfumes no mercado, o Infarmed realiza ações inspetivas. No ano passado, por exemplo, foram realizadas 71 inspeções a entidades que comercializam cosméticos, mas não foi detetada "a existência de produtos falsificados", o que "constitui crime". Ana Maria Couras diz que "a esmagadora maioria do comércio da contrafação acontece online", o que dificulta a fiscalização.

Forte impacto na indústria

De acordo com o último estudo publicado pelo Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia, a contrafação de perfumes faz Portugal perder entre 12.5 a 17.5% das vendas anuais do setor , uma percentagem bem superior à média da UE (7.8%), onde os produtos falsificados roubam mais de 50 mil postos de trabalho.
"Com a publicação do relatório, tornou-se muito evidente o impacto que a contrafação tem. Na UE, o setor ficou muito admirado, porque não existia a noção que o peso fosse tão grande", admitiu ao DN Ana Maria Couras. Além de aumentar o controlo e tornar "mais visíveis as ações" das autoridades - a ASAE anuncia com frequência a apreensão de perfumes contrafeitos -, a presidente da AIC diz que é preciso "alertar os consumidores para não se exporem a produtos que lhes podem trazer problemas".

O setor low cost

É importante distinguir os perfumes falsificados daqueles que têm fragrâncias ou aromas semelhantes aos das marcas, apresentados muitas vezes como low cost. "Em princípio, esses estão a seguir as regras da União Europeia", refere Ana Couras.

Contactada pelo DN, Sara Cabello, diretora de comunicação da Equivalenza, umas das low-cost mais populares, diz que os produtos da marca são fabricados na UE e que passam por um apertado controlo de qualidade. O que a Equivalenza faz, explica a sua representante, é "trabalhar as tendências no mundo da perfumaria" e, por isso, recusa que sejam classificados de "imitações". Relativamente a estes produtos, o Infarmed revela que "tem acompanhado situações relacionadas com a venda de perfumes, particularmente vendas avulso", mas, até ao momento, não foi detetada nenhuma situação crítica para a saúde pública.

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