"Perceber a gravidade descrita por Einstein já nos deu o GPS"

Vítor Cardoso defende que financiar a ciência fundamental é a única forma de não só criar "cidadãos de plena consciência, habituados a pensar", como de lançar as bases que conduzem à inovação tecnológica no futuro.

Receberam 1,5 milhões de euros para testar os limites das teorias de Einstein. Não é usual serem atribuídas bolsas desta dimensão a ciência de base...

É verdade que surgiu uma tendência, primeiro nos Estados Unidos mas que depois alastrou, de focar o investimento em ciência na tecnologia. Até há pouco tempo foi financiada ciência fundamental e neste momento a Europa é praticamente o único continente que financia de uma forma pesada e com grande investimento a ciência fundamental. E isto é espetacular porque toda a tecnologia tem por trás ciência fundamental.

É a base de toda essa tecnologia...

Aliás, eu acho que não se consegue ter tecnologia inovadora se não houver um ensino do que está por trás, um ensino interessante. Ninguém consegue estar excitado a pensar sobre uma tecnologia nova se não perceber os conceitos básicos. O que eu quero dizer é que mesmo o desenvolvimento da tecnologia, mais tarde ou mais cedo, vai necessitar que tenhamos bases mais profundas.

É esse o espírito das bolsas do European Research Council?

Há dez anos, a Europa começou com este esforço de larga escala de tentar impedir que houvesse migração de talentos - o brain drain - para os Estados Unidos e tentar reverter. Em Portugal tivemos alguém, este ano, que foi financiado para estudar cartografia do século XVI, um projeto interessantíssimo, outros colegas que estudam formas de prevenir cancro, que investigam outras doenças, uma colega aqui no departamento foi financiada para investigar equações diferenciais - matemática pura, sem aplicação nenhuma, pelo menos em princípio -, e depois o nosso grupo aqui foi financiado para perceber um pouco melhor as equações de Einstein, como as resolvemos, o que é que elas nos ensinam acerca dos buracos negros.

Sendo certo que, no limite, também este trabalho de base acabará por traduzir-se em inovação e conduzir a novas tecnologias?

Toda a experiência que nós temos é que este tipo de ciência básica fundamental é importante para educar as novas gerações, para serem cidadãos de plena consciência, habituados a pensar, a ter autonomia no pensamento. Mas a experiência de duzentos anos é que, mais tarde ou mais cedo, há uma tecnologia ou uma aplicação direta de coisas que parecem completamente estapafúrdias e abstratas. E há exemplos às centenas.

Esta compreensão das teorias de Einstein será importante, por exemplo, para missões espaciais?

Isto é acerca de perceber a gravidade. E o perceber a gravidade que é descrita pelas equações de Einstein já nos deu uma coisa há alguns anos, que foi o GPS. Se não entrássemos com estas equações que governam buracos negros e a gravidade em geral, os nossos GPS não funcionavam, erravam por alguns quilómetros. Agora têm uma precisão de metros. Perceber como é que a gravidade fora da Terra funciona é a única forma de nós sequer sonharmos em fazer viagens entre astros.

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