Património Mundial: turismo de Elvas aumenta em 300% em cinco anos

Cidade recebeu a visita de 1,2 milhões de turistas desde que foi reconhecida pela UNESCO, há precisamente cinco anos. Forte da Graça é visto como grande impulsionador da economia local e já garantiu cerca de 100 mil visitas

E Elvas cresceu. Desde que ganhou a classificação de Património Mundial, há cinco anos, a cidade foi visitada por 1,2 milhões de turistas, segundo números avançados pela autarquia ao DN, traduzindo um crescimento de 300%. Elvas celebra hoje a data histórica em que foi reconhecida pela UNESCO como a maior fortaleza abaluartada do mundo.

A recuperação do Forte da Graça - a maior pérola da arquitetura militar erguida entre 1763 e 1792 e que resistiu às tropas espanholas durante a chamada "Guerra das Laranjas" (em 1801) - era um dos compromissos de Elvas à boleia da classificação, tendo um investimento de 6,1 milhões de euros viabilizado a sua reabertura ao público em 2015. Foi um dos momentos altos após o reconhecimento da UNESCO. Até à data, o forte já garantiu cerca de cem mil visitas, assumindo-se como o pulmão impulsionador da economia local.

O crescimento do turismo é sentido, sobretudo na hotelaria e restauração, como atesta o empresário João Tinoco. O proprietário do restaurante Adega Regional recuperou recentemente um antigo lagar do século XIX para aumentar a capacidade para 160 lugares, habilitando ainda um terraço para mais cem pessoas.

"Desde a classificação que a procura aumentou muito e acabámos por ampliar o restaurante", diz, tendo mais que duplicado o quadro de pessoal desde o histórico 30 de junho de 2012. Hoje são 16 os trabalhadores que mantêm a casa aberta do meio-dia até depois do jantar. "Não fechamos, porque há turistas de vários países que têm hábitos diferentes dos nossos e procuramos responder a todos". A procura de cidadãos de vários pontos do mundo levou mesmo João Tinoco a investir na formação em inglês dos colaboradores.

O diretor do Hotel de Santa Luzia - onde funcionou a primeira Pousada de Portugal - também assinala a chegada de "outro tipo de turista". Segundo João Simões, "se antigamente os estrangeiros em Elvas eram de Badajoz, hoje temos um turista que não é de massas e que foge de cidades com muito turismo, para ficar dois ou três dias. Quer ver tudo calmamente, porque vem pelo património, pela gastronomia e para descobrir a cidade", refere, admitindo tratar-se do "cliente mais exigente e mais culto que procura também Sintra, Évora ou Mérida".

João Simões confessa que tem sido surpreendido com o conhecimento que algumas pessoas já têm sobre Elvas mesmo antes de visitarem a cidade, revelando que nem sempre o hotel e o restaurante estão cheios, embora haja dias em que a procura duplica o número de camas disponíveis.

"Desde essa altura que vimos aumentar a estadia média", diz o presidente da Câmara, Nuno Mocinha, avançando que há períodos do ano em que a capacidade hoteleira do concelho (com mais de 600 camas), não responde à procura. O alojamento local começa a ganhar espaço, enquanto um hotel de charme está em construção na Rua da Figueira (centro histórico) e uma outra unidade de quatro estrelas avança no emblemático antigo Convento de São Paulo - onde ainda funcionou o tribunal militar - que esteve largos anos votado ao abandono. Trata-se de um projeto do Vila Galé, apoiado pelo programa REVIVE, que aponta à construção de 68 quartos, sendo dedicado às fortificações de Portugal no mundo.

A reabilitação do património arqueológico de Elvas avança, sobretudo em edifícios que marcam a sua traça militar. Os Quartéis da Corujeira, a Parada do Castelo, o Baluarte do Trem e Baluarte do Príncipe são alvo de um investimento na ordem dos seis milhões de euros, estando em carteira um projeto que prevê criar novas acessibilidades, permitindo que os autocarros cheguem ao Castelo, o ponto mais elevado da cidade onde está em construção um posto de atendimento turístico. O alargamento da Faceira da Cisterna será o grande desafio da obra, mas Nuno Mocinha garante que depois o turista vai poder ter acesso a uma nova perspetiva da cidade. "Há quatro roteiros que pode seguir a pé, mas sempre a descer", sublinha. Até à data os autocarros têm de ficar à entrada da cidade e não é para todos subir algumas das íngremes calçadas.

Hoje, no âmbito da recuperação dos prédios do Estado, vai ser lançado o projeto de transformação em museu da antiga manutenção militar, enquanto várias casas estão a ser alvo de reabilitação, algumas pelas mãos de privados. Só este ano foram transacionados 30 prédios no centro histórico que estavam devolutos, de acordo com dados da autarquia, "Quer dizer que o mercado imobiliário está a mexer", insiste Nuno Mocinha, congratulando-se com o que designa por "rejuvenescimento do comércio". Argumenta que a cidade chegou a ter a Rua de Alcamim (a principal artéria comercial) com dezenas de lojas fechadas, mas a grande maioria "voltou a abrir com outros negócios, porque Elvas está a potenciar a sua localização de fronteira, mas também o vetor estratégico do turismo e aquilo que é o símbolo da UNESCO".

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